Forma Leve
Yara Daros
 

A culpa não é da comida

Além de ser uma necessidade básica do ser humano, a comida sempre esteve associada ao prazer. Mas parece que esse papel distorceu-se nos último tempos. Agora, comer virou sinônimo de culpa para muitas pessoas. Se isso não correspondesse à realidade, como explicar, então, uma mulher linda, com o corpo escultural, sem nenhum excesso de peso, ficar sem comer por medo de engordar?

São muitos os fatores que causam distúrbios alimentares, mas os principais são os aspectos sócio-culturais. Em uma sociedade onde a magreza e o corpo perfeito são cultuados exageradamente, e onde a aparência física é mais valorizada do que a própria individualidade, a luta contra a balança se faz necessária. E, junto com ela, vem a culpa.

Mais que um fenômeno cultural, a obsessão pela magreza também se tornou uma questão de saúde pública. Estudo da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, divulgado em maio deste ano, comprovou que a maioria das adolescentes não gosta do próprio corpo. De acordo com a pesquisa, 67% das jovens paulistas não estão satisfeitas com sua aparência e adotam práticas perigosas para emagrecer.

A busca pela beleza e o descontentamento com o corpo entre mulheres de todas as idades fazem do Brasil o segundo colocado em cirurgias plásticas e aplicações de Botox no mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos. Além disso, o país também é recordista em uso de anfetaminas para emagrecer e em número de pessoas que tomam remédios e mentem dizendo que “não”.

As mulheres são largamente mais acometidas pela anorexia. Entre 90 e 95% dos casos da doença acontecem entre pessoas do sexo feminino. Além das questões emocionais, o aparecimento da doença pode estar ligado ao estresse causado por decepções, fatores biológicos, psicológicos ou familiares.

A proliferação de depoimentos e histórias de pessoas que mudaram a vida porque perderam peso faz com que transtornos alimentares, como bulimia e anorexia, ocorram cada vez mais cedo na vida das pessoas. Hoje, o culto ao corpo perfeito e a busca pelo ideal de beleza é amplamente divulgado em blogs e comunidades na Internet. Neles, meninas afirmam que passam dias sem comer ou que colocam para fora tudo que comem, ignorando as graves conseqüências da falta de uma alimentação saudável.

No caso da bulimia, por exemplo, a doença é capaz de reduzir a quantidade de potássio no organismo, essencial para o coração. Já a anorexia é porta aberta para problemas circulatórios. E quando se deixa de ingerir carboidrato, sais minerais e proteína, aos poucos, o corpo vai ficando desnutrido, o que pode levar à morte.

A culpa ao comer pode provocar também um ciclo vicioso: de tanto se sentir culpado, o indivíduo encontra formas de se punir pelo que julga ter ingerido em excesso. Normalmente, existem duas formas de punição. Ou a pessoa comerá cada vez mais de maneira compulsiva, ou simplesmente deixará de comer. Nesse ciclo, a culpa gera castigo que, novamente, gera culpa, desencadeando uma total alteração do metabolismo.

O ato de comer é fundamental para o bom funcionamento do organismo e deve ser encarado de forma natural, sem culpa, principalmente para quem já se encontra no meio desse ciclo vicioso. O primeiro passo para a mudança de hábito é a conscientização. A partir daí, é preciso criar uma relação saudável com a comida, com a certeza de que o maior beneficiado será você mesmo.

Yara Daros é psicóloga e trabalha com distúrbios alimentares há 11 anos. É criadora do método de emagrecimento Forma Leve, programa que existe há sete anos e conta com uma equipe formada por psicólogos e nutricionistas, que acompanham não só a alimentação dos pacientes, mas também a estrutura emocional.

Contato: yaraformaleve@gmail.com




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