Xô fumaça!

Não é novidade para ninguém que fumar faz mal à saúde. Apesar de todas as campanhas de conscientização, o país ainda registra estatísticas alarmantes sobre as doenças e mortes causadas pelo vício. E não é só isso. Alguns fumantes relatam que o cigarro pode ser um empecilho até para o relacionamento.

O bombardeio de informações e campanhas negativas ao cigarro ainda não foram suficientes para conscientizar as pessoas do mal causado pelo tabaco. Os números ainda são alarmantes. Um terço da população mundial adulta - cerca de 1,3 bilhão de pessoas, entre as quais, 200 milhões de mulheres - é de fumantes. No Brasil, uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde e pelo Instituto Nacional de Câncer mostrou que 18,8% da população brasileira fumam (22,7% da população masculina e 16% da feminina).

O Programa Nacional de Controle do Tabagismo garante que a redução da proporção de fumantes na população passou de 34,8% em 1989 para 22,4% em 2003. Mesmo com a redução, os recursos destinados aos tratamentos dos pacientes vítimas do tabaco são insuficientes. Os R$ 28 milhões anuais destinados pelo ministério são, basicamente, para a compra de remédios.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, hoje, o fumo é uma das principais causas de morte evitável. Cerca de 4 milhões de pessoas morrem, por ano, no mundo vítimas do uso do tabaco - metade delas com idades entre 35 e 69 anos, ou seja, no auge de sua vida produtiva. Caso o número de fumantes não caia consideravelmente, até 2020, o número de vítimas fatais subirá para 10 milhões de mortes ao ano, de acordo com estimativas da OMS. Isso porque o tabagismo está ligado a 50 tipos de doenças, como câncer de pulmão, de boca e de faringe, além das cardiopatias.

De acordo com Gilberto Ururahy, diretor médico da Med-Rio Check-up, praticamente 27% de todos os casos de câncer de pulmão estão diretamente ligados ao tabagismo. “Um indivíduo que fume um maço de cigarros por dia tem um risco 20 vezes maior de desenvolver um câncer de pulmão do que um não-fumante.”, afirma.

Problemas no relacionamento

Mas, não é só isso. Além das doenças graves, o vício do tabaco pode gerar outros problemas para vida pessoal dos fumantes, principalmente no relacionamento. O administrador Anderson Gadia, de 35 anos, sentiu o problema na pele. Sua ex-namorada não suportava o cigarro e as brigas eram freqüentes por causa do vício. “Não podia beijar, nem encostar a mão no cabelo dela com cheiro de cigarro. Eu procurava evitar acender um cigarro quando estava com ela, e quando não tinha jeito eu chupava muitas balas para disfarçar, mas mesmo assim ela reclamava. O namoro não acabou exclusivamente por causa do cigarro, mas foi um dos motivos para a relação não dar certo”, conta.

Anderson, que começou a fumar quando tinha 17 anos, assume que o cheiro do cigarro é realmente insuportável para quem não faz uso, mas nunca conseguiu se livrar do vício. “Para parar tem que ter muita força de vontade. É um vício mais forte do que minha vontade. Já tentei largar, fiquei uma semana sem fumar, mas não consegui continuar. Pretendo procurar um tratamento para parar de vez porque é um vício que faz muito mal à saúde e eu tenho consciência disso”, desabafa.

De acordo com estimativa da OMS, 90% dos fumantes regulares começam a fumar antes dos 18 anos. Esse número levou a OMS a considerar o tabagismo uma doença pediátrica. Foi o que aconteceu com a fotógrafa Clarice Castro, de 39 anos, que começou a fumar com 15. Segundo ela, o cigarro nunca foi um problema nos seus relacionamentos, mas se a outra pessoa não fuma, é preciso ter uma conscientização. “Quando estou com alguém que não fuma, procuro evitar o cigarro ou então utilizo alguns recursos para disfarçar o cheiro, como lavar as mãos, mastigar chiclete, andar com creme na bolsa, entre outros”, diz Clarice.

Foi também por causa de um relacionamento que Ana Carolina Paixão parou de fumar. Seu namorado não gostava de cigarro e a sua insistência a motivou a parar. “De tanto reclamar, ele foi me mostrando o quanto o meu vício era ruim. Primeiro fiz um teste e fiquei duas semanas sem cigarro. Depois desse tempo, também comecei a ficar incomodada com o cheiro da fumaça e decidi que nunca mais colocaria um cigarro na boca”, explica.

O cigarro do Brasil é o 6º mais barato do mundo. “É óbvio que o baixo custo torna o consumo mais fácil. Deveríamos igualar os preços aos padrões internacionais. Essa medida dificultaria a aproximação dos jovens com o cigarro.”, sugere Gilberto. A indústria do tabaco movimenta cerca de R$ 8,5 bilhões por ano no Brasil, gerando uma arrecadação de impostos que chega a 70% do mercado legal, ou R$ 4,6 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo). O comércio clandestino responde por R$ 1,9 bilhão.

Mulheres na mira

Pesquisa realizada pela Med-Rio Check Up, empresa que atua há 18 anos no segmento de medicina preventiva, entre os anos de 1990 e 2007 com 40 mil executivos e executivas entre 30 e 60 anos, constatou um aumento de 10% no número de mulheres fumantes. Com os homens, aconteceu o contrário: 17% dos examinados diminuíram o hábito de fumar. Gilberto Ururahy, diretor médico da Med-Rio, acredita que o resultado se deve ao fato de as mulheres serem mais sujeitas aos sintomas de depressão e ansiedade, encontrando no cigarro um facilitador para manutenção do equilíbrio.

“O efeito da nicotina no cérebro interfere com o da serotonina e o da dopamina, o que dá a sensação de saciedade e gratificação. Mesmo para as mulheres sem quadros emocionais, como depressão, esse efeito traz alívio, já que são comuns sintomas semelhantes de desequilíbrio por conta das alterações hormonais (tensão pré-menstrual e menopausa).”, explica Gilberto.

O médico afirma que, no mundo, 48% dos homens e 12% das mulheres fumam, o que faz das mulheres um alvo do marketing das indústrias. "Para as mulheres fumantes, é recomendado não fazer uso de pílulas anticoncepcionais, pois foi observado que essa associação representa mais riscos de infarto, derrame e trombose venosa", alerta.

Tratamento

Para quem está empenhado em parar de fumar, é preciso saber que a tarefa não é das mais fáceis. Mas, existem alguns tratamentos que ajudam os fumantes nessa empreitada. As reuniões do Núcleo de Estudos e Tratamentos do Tabagismo (NETT) do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF) existem há cinco anos e já ajudaram mais de mil pacientes a se livrarem do cigarro.

O tratamento realizado no HUCFF é iniciado com a participação do paciente em seis sessões ininterruptas para avaliações individuais com a equipe multidisciplinar. Já em grupo, os pacientes participam de reuniões de sensibilização e motivação. Após ter o perfil de dependência traçado pelos profissionais, o paciente é convidado a marcar a despedida definitiva do cigarro. Nesse caso, é preciso que a dependência tenha se reduzido a 50%. A partir desse momento, os pacientes recebem apoio psicológico e passam por terapia de reposição de nicotina ou medicamentosa, como a bulpropiona, para se manterem abstêmios. A medicação utilizada pelo HUCFF é cedida pelo Ministério da Saúde e repassada para o paciente de maneira gratuita.

De acordo com especialistas do NETT, o acompanhamento terapêutico é imprescindível para o sucesso do tratamento. “Fumantes que vislumbram deixar o cigarro sozinhos ou com a ajuda apenas de medicamentos representam 80% dos que voltam ao vício”, alerta a fonoaudióloga integrante do NETT, Márcia Trotta. Ela lembra que, além do HUCFF, 52 postos de saúde no município do Rio e hospitais contam com equipes multidisciplinares que oferecem aconselhamento para mudanças comportamentais na relação com o cigarro e tratamento medicamentoso. Para o professor Alberto Araújo, diretor do NETT, além do acompanhamento por uma equipe de saúde, o fumante precisa do apoio de familiares e de amigos para se livrar definitivamente do vício.

 



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