A ciência do amor

O amor é frequentemente celebrado como um fenômeno místico, muitas vezes espiritual e capaz de determinar o nosso comportamento. Mas, a verdade é que o amor também pode ser um fenômeno científico. Saiba mais.

Passar dias inteiros pensando apenas em uma pessoa, sentir-se inexplicavelmente bem, achar que se está vivendo em um mundo mais colorido, encontrar sentido na vida ou não encontrar sentido em nada mais se aquela pessoa não estiver ao seu lado. Todos esses sintomas, que mudam inteiramente nossa vida e interferem no nosso modo de agir e pensar, comumente atribuídos a algo tão inexato como a paixão são, na verdade, plenamente justificados pela ciência.

Algumas substâncias existentes em nossos corpos são responsáveis por iniciar o processo de atração, principalmente sexual. A dopamina, feniletilamina e oxitocina estão presentes, principalmente, durante as fases iniciais da conquista. Com o tempo, no entanto, o organismo se torna resistente aos seus efeitos, ou seja: a química do amor não dura para sempre.

No início, é o desejo que nos desperta o interesse em alguém. A testosterona, nos homens, e o estrogênio, nas mulheres, são hormônios sexuais presentes em nossa circulação sanguínea que desencadeiam a libido. É o que explica o psiquiatra e psicoterapeuta, Eduardo Ferreira, “Hoje se sabe que estes hormônios, além de sua ação no desenvolvimento corporal das características físicas de gênero, atuam em diversos sítios cerebrais provocando a liberação ou bloqueio de neurotransmissores responsáveis por emoções e as manifestações corporais que acompanham os sentimentos”, diz o médico.

Durante a paixão, compostos químicos designados por neurotransmissores - como a norepinefrina, responsável pela excitação e aceleramento dos batimentos cardíacos; a serotonina, que nos descontrola; e a dopamina, que nos dá a sensação de felicidade - são controlados pela feniletilamina. Este composto controla a passagem da fase do desejo para a fase do amor e tem um efeito poderoso sobre nós. Tão poderoso que pode tornar-se viciante.

A produção da feniletilamina no cérebro pode ser desencadeada por movimentos tão simples como a troca de olhares ou o toque das mãos. Também presente no chocolate, esta substância pode justificar a vontade incontrolável por uma barra da guloseima e o porquê de pessoas admitirem preferir o doce a se envolver com alguém. Mas, a feniletilamina é degradada rapidamente no sangue, não sendo possível atingir uma concentração elevada no cérebro através da ingestão.

Quando o estágio de euforia vai se esvaecendo, passamos à fase do amor sóbrio, que estreita os laços afetivos para que os parceiros permaneçam juntos. Há dois hormônios importantes nesta fase: a oxitocina e a vasopressina. A oxitocina é uma pequena proteína produzida numa zona cerebral chamada hipotálamo que facilita a identificação com o outro e a criação de laços. É o mesmo hormônio que fortalece a relação entre mãe e filho. Este hormônio, no entanto, anula parte dos efeitos da norepinefrina e feniletilamina, o que pode explicar o ‘esfriamento’ da paixão.

A oxitocina pode ser liberada tanto pelos homens quanto pelas mulheres durante o orgasmo, o que parece indicar que quanto mais sexo um casal praticar, maior é a ligação química entre eles. Já a vasopressina é atualmente conhecida como o hormônio da fidelidade. É também uma pequena proteína e a sua presença pode atuar no comportamento monogâmico. “Estes hormônios são particularmente responsáveis pela contração uterina na hora do parto, sendo mais encontrados em maiores quantidades nas mulheres, o que justificaria os índices de maior fidelidade no lado feminino”, acrescenta Ferreira.

O nosso cérebro foi programado para escolher parceiros com boas capacidades reprodutivas há milhares de anos. No entanto, a evolução das alterações biológicas não se dá com a mesma velocidade do que as culturais. Por isso, ainda possuímos características que nos assemelham ao mundo animal, como o olfato. Este sentido apuradíssimo detecta um conjunto de genes conhecido como MHC - complexo de histocompatibilidade principal - que controla o sistema imunológico e influencia a rejeição de tecidos. Quanto mais parecido o MHC do casal, maiores as chances de o útero rejeitar o feto e causar abortos ou deficiências. Isto pode significar que, enquanto achamos que encontramos a pessoa certa por uma série de motivos, na verdade estava em busca do código genético certo para a reprodução.

Segundo o Dr. Eduardo Ferreira, apesar das reações químicas do amor que ocorrem no nosso organismo, além da genética, o meio em que vivemos é determinante na nossa formação psicológica comportamental. “Certamente estas evidências científicas não podem ser totalmente desprezadas, mas o ser humano é um ser biopsicossocial e toda esta parafernália bioquímica faz parte apenas de um dos componentes de nosso modo de ser e agir, ainda que seja o básico, o fundamental. Sobre este alicerce biológico, determinado geneticamente, há uma formação psicológica adquirida com o aprendizado na infância e adolescência e as influências que o meio social produzem através de insistentes apelos de padrões de comportamento e consumo”.

Norepinefrina - Estimulante natural do cérebro que pode estar associada à exaltação, euforia, falta de sono e de apetite.

Dopamina - A presença de elevados níveis de dopamina no cérebro parece ser uma característica dos recém-apaixonados. Seu papel é muito importante no mecanismo de desejo e recompensa e os seus efeitos no cérebro são análogos aos da cocaína. É um verdadeiro licor do amor.

Seretonina - Os baixos níveis de serotonina parecem estar associados à fixação no ser amado. A Prof. Donatella Marazziti (Univ. Pisa) no decorrer dos seus estudos com doentes que sofriam a perturbação obsessiva compulsiva descobriu que os baixos níveis de serotonina de quem se apaixona se aproximam dos níveis característicos desta doença mental. Aparentemente, o amor nos deixa loucos – de verdade.


 



 



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