Sempre bem acompanhada

Antigamente, muitas mulheres tinham que comprovar sua virgindade. Hoje, elas entram em uma sex shop e saem com um vibrador na sacola.Libertação ou preservação?
Segundo a reportagem a seguir, existe uma linha tênue que separa a busca do prazer com o uso do acessório erótico e o medo de encarar uma relação por inteiro.

Enfim deixou de ser tabu. Hoje, é com naturalidade que as mulheres falam sobre masturbação, por isso, o polêmico brinquedo erótico que povoa suas fantasias sexuais, o vibrador, também vem sendo encarado com muito menos preconceito. Há quem use para melhorar a relação com o parceiro, buscando novas sensações de prazer a dois. Mas a maioria absoluta admite que comprou o acessório “para evitar relações amorosas desastrosas”. A publicitária Ester Martins*, de 39 anos, comprou seu primeiro vibrador um ano após seu divórcio: “Fiquei horas tentando contar para minhas amigas que tinha comprado um e, quando consegui, elas riram muito. Definitivamente aquilo não era novidade para ninguém. Quase todas já tinham usado. Mas para alguém que casou virgem e só teve um parceiro, era uma libertação”, relembrou, despindo-se de antigos pudores.

A publicitária conta que se masturba em média três vezes por semana, mas nem sempre foi fácil usar um vibrador. A linha entre o prazer e a culpa era tênue. “Na primeira vez que usei, chorei muito. Fiquei me sentindo sozinha e ridícula. Depois entendi que a masturbação é uma coisa ótima e natural. Totalmente independente das relações afetivas. Aprendi até conduzir melhor o parceiro”, disse Ester. Ao invés de pranto, agora o vibrador é motivo de independência. Ela conta com orgulho sobre os fetiches com o vibrador e já pensa numa nova aquisição. “Antes de usar, bebo vinho, coloco uma música, uso uma calçinha sexy, faço sexo oral, e fantasio muito. É o meu momento. O próximo será maior e de pele negra”, revelou, entre risos.

Longe de ser tratado como muleta sexual, o acessório além de aquecer a vida a dois, ou o prazer solitário, vem movimentando também a economia. Segundo a Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (Abeme) , o setor erótico brasileiro cresce, em média 15% ao ano. Já são 650 sex shops em todo o país. O mercado de produtos eróticos já movimenta cerca de R$ 3 bilhões ao ano. Uma das explicações para esse crescimento é que, apesar de ser bem comum entre as solteiras desencanadas, as mulheres acompanhadas também fantasiam com o objeto. A jornalista Aline Braga*, de 25 anos, disse que a timidez é o principal inibidor do uso, mas não descarta a possibilidade de adquirir um. “Os melhores vibradores são caros, mas o problema maior é que ainda tenho vergonha de comprar. Se um dia meu namorado sugerir, vou achar ótimo”, confessou a jornalista.

A sexóloga Regina Navarro Lins defendeu o uso do apetrecho pelas mulheres, mas fez um alerta para as que, como Aline, estão acompanhadas. Segundo Regina, alguns homens não gostam muito da iniciativa. “Os homens têm um pouco de dificuldade de aceitar que a mulher vá com um vibrador para a cama. Eles entram numa competição. Pensam que o pênis não é suficiente, quando não é nada disso. Se mesmo durante a penetração, a mulher tiver o clitóris estimulado com um vibrador, ela vai ter um orgasmo mil vezes mais intenso. Se a mulher tem a sorte de ter um parceiro sexual que também não tenha preconceito, pode ser ótimo”, ensinou, completando ainda que vibradores deveriam ser comprados em supermercados, assim como sabonetes e cremes para pele.

Regina Navarro diz que esta busca pelo prazer vem sendo tratada com maior naturalidade pelas mulheres, mas lembrou que nem sempre foi assim. Segundo a sexóloga, depois do Cristianismo, criou-se uma espécie de horror ao prazer e ao corpo. Numa pesquisa, Regina descobriu que as freiras da Idade Média chegaram a ficar 53 anos sem tomar banho. Tudo porque relacionavam o corpo a tudo que era ruim. Entretanto, ainda nos dias de hoje, ela garante que as pessoas, no fundo, acham o sexo vergonhoso, sujo. “As mulheres não podiam nem se masturbar. Era feio. No século 19 a marca da feminilidade era mulher não gostar de sexo. Até hoje vejo mulheres que falam de sexo como se fosse uma coisa menor. Outro dia ouvi uma pérola de uma amiga que dizia não gostar de sexo pelo sexo. E respondi: “Mas sexo é só pelo sexo mesmo. Vai ser pelo o quê?”. Sexo é pelo prazer e só”, finalizou.

Toda a naturalidade sugerida pela sexóloga pode ser constatada por quem já domina o assunto. A contadora Aline Moreira dos Santos, 44 anos, divorciada, fala com tranqüilidade sobre o uso do vibrador mas entende o fato de muitas mulheres ainda ficarem constrangidas com o acessório. “Embora já tenhamos evoluído bastante, prazer ainda é tabu. Foram anos de repressão, não é nada fácil reverter essa situação, mas estamos indo muito bem. Antigamente, tínhamos que comprovar nossa virgindade, hoje, entramos em uma sex shop e saímos com um vibrador na sacola”, diverte-se Aline, que explica que, na hora da compra, preocupa-se mais com tamanho, textura e diâmetro do que com as possíveis funcionalidades dos vibradores mais modernos. E já pensa na próxima compra: quer experimentar um vibrador com pérolas giratórias na base. “Eu olho o produto e fico imaginando aquela sensação. Gosto muito de masturbação. É uma forma de prazer sem limites. E isso elimina aquela necessidade de transar com alguém só pra aliviar a tensão. Você se previne das ‘furadas’”, afirmou.

Prevenir furadas, talvez. Mas o fato é que a tentativa de evitar relações desastrosas também previne as mulheres de uma série de outras coisas. A facilidade de evitar o dia seguinte de uma transa com um homem de caráter duvidoso é também evitar a chance de conhecer uma pessoa interessante e de viver as coisas por inteiro. Segundo a cantora Fernanda de Almeida*, de 31 anos, o vibrador é bom, sim, mas até as experiências ruins são importantes para o amadurecimento. Ela ganhou seu vibrador de presente de aniversário, divertiu-se com a brincadeira dos amigos, mas lembra que, além de prazer, existem muitas limitações. “É bom, mas não uso sempre. Acho que as pessoas deveriam experimentar, para esquentar as relações. Já ouvi falar que é a independência das mulheres, mas não concordo. Quem quer mais do que sexo tem que pensar que é só um acessório. Vibrador não dá abraço, não beija na boca, nem dorme com as pernas pesando em cima de você. Algumas coisas, a tecnologia é incapaz de substituir”, filosofou.

*alguns nomes desta reportagem foram trocados a pedido das entrevistadas.

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