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Starbucks in Rio, eu fui!
Quarenta minutos de espera. Na fila. Some-se a isso R$ 16 por um copão de Caramel Machiatto e um muffin de chocolate. No mesmo shopping, três andares acima, comi pouco antes, por menos que isso, uma coxa de frango marinada deliciosa com arroz, feijão, batata frita e farofa de ovos num restaurante ótimo e barato chamado Botekino.
Carioca não é chegado a fila, essa coisa sem graça que, reza a lenda, foi inventada na Disneyland e exportada para São Paulo. Mas essa fila que eu fiquei estava cheia de cariocas. Odeio filas, mas essa eu encarei cheio de vontade.
Queridos leitores & leitoras, fui ao primeiro Starbucks carioca. Não via a hora de ter um Starbucks nessa cidade maravilhosa. Sim, é uma cafeteria norte-americana. Daquele país onde as pessoas tomam chafé achando que é café. Um ícone do consumo pop-yuppie. Mas que, para mim, tem cara de Nova Iorque, da Nova Iorque elegante e deliciosa em estilo e sabor.
Demorei a ir a Nova Iorque, só conheci a capital cultural do mundo quando virei os quarenta. Fiquei fascinado: foram oito dias, hospedado a três quadras do Central Park, num quarto alugado de uma norte-americana que arrendava pedaços do seu apartamento para brasileiros indicados por outros brasileiros que a conheciam. O filho dela, um armário mal encarado, era guarda do Central Park, mas não morava com ela.
Nova Iorque é o tipo de cidade que o carioca adora. Não tem praia, carnaval, botequim nem futebol, mas tem cultura, vida de rua, muita música, moda alternativa e personalidade própria. O estilo é outro, mas tem estilo e, por alguma razão que a antropologia cultural deve conseguir explicar melhor do que eu, os cariocas se sentem bem lá, curtem o jeito nova-iorquino de ser e viver.
Se não me falha a memória (aquela, em estágio de pré-esclerótico...) a casa onde eu ficava era na 86 West perto da Columbia. Na esquina, tinha um Starbucks. Um dos mais charmosos que já vi. Tinha um varandão envidraçado com janelas de madeira e com mesas que davam para a rua, num estilo mais clássico combinando com aqueles prédios típicos de Nova Iorque, uma coisa meio britânica sisuda, tal como o famoso Dakota, onde assassinaram John Lennon. Woody Allen poderia ser um dos moradores e o prédio certamente se prestaria para locação de seus filmes.
Pois bem, certa vez esse Starbucks me deixou babando de admiração. Entrei nele e vi que tinha uma mulher bonita, esguia e bem nova-iorquina, ali nos seus 25 anos, totalmente entretida em estudos num laptop ladeado por cadernos e livros.
Seu café já tinha acabado há tempos, ela estava era usando aquela mesa de madeira ao lado do janelão para estudar ou trabalhar, e ninguém a incomodava. Parecia que estava numa biblioteca, uma calma e serenidade excelentes para a concentração, com cheirinho de café gostoso no ar. Um luxo. Imediatamente pensei que, se fosse no Brasil, logo um garçom jogaria a conta na mesa para insinuar que ela saísse para dar vez a outro freguês, em nome da lucrativa rotatividade. Mas ali, naquela esquina de Nova Iorque, isso não aconteceria.
Depois, numa segunda ida à Big Apple, desfrutei mais ainda do Starbucks, saboreando alguns de suas diferentes e inventivas combinações de café. Percebi que ali não se tomava chafé, eram cafés diferentes. Inclusive gelados, um sacrilégio para um brasileiro daquela época – só alguns anos depois o ice coffee chegaria ao Brasil. Amei o White Chocolate Moccha, inclusive na sua versão Iced (gelado).
Outra curiosidade: todas as poucas vezes que fui aos States e passei num Starbucks comprei um cd. Algumas pessoas compram as canecas deles, que também são bacanas. Mas eu comprei, pela primeira vez, uma ótima coletânea de jazz exclusiva do Starbucks, sob o título “Unrehearsed”. Na última, em Washington, comprei dois, um de piano jazz e outro interessantíssimo, parte de uma coleção que traz músicas escolhidas por artistas consagrados. Comprei o do Bob Dylan. Tem de tudo: blues, charanga mexicana, música de ciganos romenos e até rock.
Só tenho boas lembranças do Starbucks. Na última vez foi em Washington, tomei um café da manhã lá. Ótimo muffin. E o ambiente, a decoração e a cara das pessoas num Starbucks sempre é legal, passa uma energia bacana, de gente que busca coisas de melhor qualidade e mais alternativas, e que são educadas e simpáticas. É uma rede bilionária, capitalista e coisa e tal, mas é bacana. Pelo menos para a minha memória cultural, gustativa, sensorial e emocional. E não sou o único por aqui a sentir-se assim.
Daí, quando soube que teria um Starbucks no Rio, na Zona Sul, perto da minha casa, no simpático Shopping Leblon, não tive dúvidas: “Ah, eu vou lá na primeira semana!”. E fui. Mas foi por acaso. Marquei um cinema no shopping (o lindo e triste filme “O menino do pijama listrado”) com um almoço antes. Tínhamos tempo e depois do almoço no Botekino (que fica meio escondido em frente ao cinema, no último piso do shopping), quando imaginava em um local para comer uma sobremesa, um docinho com chocolate, minha mulher pensou alto: “Tem o novo Starbucks...”. Dei um pulo: “Onde? Cadê? Como eu não pensei nisso antes???”. Tinha inaugurado no fim de semana anterior, ainda não tinha entrado em cartaz na minha parada mental de sucessos.
Fomos lá. Primeiro, uma pequena decepção: não é uma cafeteria charmosa, fica no meio da praça, num quiosque com cadeiras em volta em meio ao turbilhão de barulhos de um shopping perto do Natal... charme quase zero, salvo apenas pela identidade visual característica do Starbucks. Dei aquela suspirada quando vi a fila enorme. Nenhum outro lugar no shopping, nem no cinema, tinha uma fila daquelas. Mas não tive jeito: sublimei e encarei. Afinal, era um Starbucks no Rio de Janeiro!
Quando chegou minha vez na fila, ia pedir um White Chocolate Mocca. Mas colaram um papel em cima do nome do produto dizendo estar indisponível. Olhei as opções, procurando algo diferente, e optei pelo Caramel Macchiato, que em www.starbucks.com.br é descrito assim: “Um original da Starbucks. Leite vaporizado com espresso e xarope de baunilha, coberto com uma distinta calda de caramelo. Doce, cremoso e intenso.”. Leitores, é muito bom! Vem num copão exagerado, coisa de norte-americano – e esse copão é o menor que vende, o famoso “regular”. Fui de muffin de chocolate para acompanhar e não me arrependi nem um pouco. Estava divino!
Ao final, afinal... um pouco do charme Starbucks. A mocinha, carioca, que veio recolher nossos copos e saquinhos de papel, super gentil e bem treinada, pediu-nos desculpas pela “confusão”, aquela fila toda e atendimento demorado, mas disse que em breve isso iria melhorar. Por que? Ora, porque a Starbucks vai abrir uma cafeteria de rua no Leblon, outra no Rio Sul e outra no Barra Shopping. Aí, com mais oportunidades, os cariocas apaixonados por Starbucks não precisarão correr todos para a mesma loja. Que bom! Estou ansioso pela loja de rua, que deverá ser bem mais charmosa que um quiosque no meio de um shopping.
Nesse pedaço carioca da Starbucks não tem cds à venda. Tem as canecas, mas a um preço fora de cogitação – uma delas custava uns R$ 40! Nem pensar.
Enfim, foi uma extrema felicidade consumista e degustativa ir ao primeiro Starbucks do Brasil. Alguém me lembrou que esse não era o primeiro, que em São Paulo já tem uns três funcionando. Ah, mas peraí, Starbucks em São Paulo é uma coisa meio óbvia demais, sem graça, em meio àquela cultura Daslu. No Rio, um Starbucks é um Starbucks. É carioca, e é coisa nossa.
E tenho dito.
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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