Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Samba Luzia: imperdível!

No meio do caminho tinha um balde plástico. Cheio de gelo e de garrafas de cerveja gelada. Por pouco não causei uma pequena tragédia etílica, chutando inadvertidamente o balde estacionado no meio do caminho e derramando aquele precioso líquido. E há que se tomar cuidado, pois há vários baldes cervejísticos no meio dos vários caminhos.

Esse é um dos poucos perigos do Samba Luzia, a roda de samba na laje montada pelo grande compositor, músico e agitador de raiz Moacyr Luz, com a briosa cumplicidade dos músicos que o acompanham há alguns anos no Samba do Trabalhador, do Clube Renascença, toda segunda-feira à tarde. Entre eles, meus amigos Luiz Augusto, craque da percussão, e Abel, cavaquinista e cantor de responsa.

O samba acontece no terraço do Clube Santa Luzia, que é vizinho ao Boqueirão e fica entre o Santos Dumont e o MAM, naquela ruazinha que segue para a Escola Naval. É toda sexta-feira, a partir das 21h, com raras exceções – como a do último feriado de Finados, sem aviso prévio, fazendo muita gente se despencar para lá e dar de cara com a porta fechada... (parece que algum diretor ou produtor, religioso, se sentiu mal de incomodar os mortos com mais uma noitada do melhor samba de raiz da cidade... francamente...).

Dentro dos supracitados baldes plásticos, garrafas de Original, Skol, Brahma ou Antarctica a R$ 5 a unidade – um preço razoável para a noite do Rio, onde tem lugar que chega a cobrar o mesmo preço por uma longneck.

Os baldes têm sua razão de ser. No Samba Luzia, a maioria fica em pé. Mesa é para a turma do happy hour, que gosta de chegar antes para ir calibrando. Ou para quem vai lá comemorar aniversário. Ou ainda para uns poucos – como uma grande amiga minha – que se recusam a ir para o samba se não tiverem a garantia de um lugar para se sentar. No geral, e na moral, a galera do Samba Luzia fica em pé mesmo.

Como a cerveja desce rápido, as garrafas esvaziam logo, e é chato se afastar do samba e do agito para ir no bar toda hora pegar mais uma. Daí, os garçons já levam baldes com várias garrafas de cerveja, devidamente afundadas em pedras de gelo, para comodidade da turma do funil. E a galera não se faz de rogada: coloca o balde no chão mesmo, faz uma rodinha em volta e fica ali atenta para garantir o patrimônio cervejeiro.

Outro perigo do Samba Luzia é a fila, que tem rolado entre 22h e meia-noite. Por culpa de um prosaico problema logístico: apenas um caixa, atendendo uma pessoa de cada vez. Aí, a turma que chega no horário mais normal é obrigada a encarar uma filazinha paulistana...

Mas em compensação – e bota compensação nisso - quem vai ao Samba Luzia periga sair de lá em estado de graça. A começar pela música, de primeiríssima qualidade. Moacyr Luz e seus “asseclas” mandam muito bem. É um tal de Nelson Cavaquinho, Cartola, Nelson Sargento, Monarco, Zeca Pagodinho, Dona Yvonne Lara, Candeia, Luiz Carlos da Vila, Paulinho da Viola, Almir Guineto, Martinho da Vila, Zé Ketti, Chico Buarque, Geraldo Pereira... O repertório é primoroso, e inclui ainda os melhores sambas-enredos de todos os tempos e alguns sambas fantásticos do próprio Moacyr Luz – o grande hit é “Saudades da Guanabara”, com o refrão cantado pela platéia em uníssono êxtase carioca: “Brasil / Tira as flechas do peito do meu Padroeiro / Que São Sebastião do Rio de Janeiro / Ainda pode se salvar...”.

Há outro risco delicioso lá: dar literalmente de cara com uma canja da pesada. Por exemplo, Beth Carvalho – numa noite que eu desgraçadamente perdi. Mas em troca, outro dia cheguei lá e quem estava sentadinha na mesa, maravilhosa e soltando a voz com a maior simpatia, sorrindo para todas as fotos (e como fã adora tirar foto... com máquina digital e com celular...), era nada menos que Alcione, nossa Marrom mais querida. “Amigo, ironia desta vida...”.

Eu cheguei cedo, ainda tinha pouca gente, grudei com minha amiga Simone Bloris na mesa dos músicos e desfrutamos o incrível privilégio de ter a Marrom cantando para nós a menos de dois metros à nossa frente. “Não posso mais alimentar a esse amor tão louco, que sufoco...”. E ela ainda saiu do trivial de seu repertório de discos, atacou várias músicas da Mangueira, com Nelson Cavaquinho e tudo: “Quando eu piso em folhas secas / Caías de uma Mangueira / Lembro da minha escola...”. Foi um orgasmo múltiplo musical...

Mas há muitos outros prazeres no Samba Luzia. Se dizem que o samba é a música mais democrática, sua roda é prova inconteste. Tem de tudo: pobres e ricos; negros e brancos; bonitos e feios; bem-vestidos e ripongas; gente boa e mequetrefes; Zona Norte e Zona Sul; jovens e velhos; cariocas e paulistas (e mineiros, pernambucanos, baianos, gaúchos, brasilienses...); religiosos e pagãos; tímidos e assanhados; casados e solteiros; sóbrios e ébrios. É praticamente impossível não encontrar alguém minimamente interessante por lá. Seja para paquerar, para conversar, ou apenas para apreciar com os olhos.

Outro ponto explícito de prazer é o “teto” da laje. Em noites de céu claro, o Samba Luzia fica envolto pela lua e as estrelas e o Pão de Açúcar. Ideal para pegar a parceira ou parceiro (dependendo do seu gosto...) e chegar na mureta, lá no fundo, para namorar intensamente sob a boa energia dos astros e de um dos cartões postais mais lindos do Rio, embalado pelos grandes sambas de todos os tempos.

E no meio dessa profusão de tipos, estilos e classes sociais reina a mais absoluta harmonia. Nunca vi ou ouvi falar de briga por lá. No máximo alguém mais bebum derrubando os baldes de cervejas – aqueles que insistem em ficar no meio do caminho...

Então, tá combinado: sexta-feira é dia de Samba Luzia. Tá esperando o que? Vamos pro samba!





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