Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Cariocas não gostam de dias nublados

No momento em que começo a escrever essa crônica, chove pra burro no Rio de Janeiro. Chuva daquelas de fechar Rebouças. Deprimente...

Quando eu ainda tinha carro, não me assustava tanto com a chuva, era só me molhar um pouco para entrar no conforto do veículo, encarar engarrafamentos com o cd player tocando ótimas músicas e evitar locais de enchentes fáceis, como o canal do Maracanã e a Praça da Bandeira. Hoje, sem carro, a coisa se complicou: ou gasto uma grana de táxi, ou chego atrasado e encharcado aos meus compromissos. Perdeu a graça...

O grande problema das chuvas no Rio de Janeiro é a limitação da vida cultural, esportiva e social carioca. Deve ser isso que fez com que a gaúcha Adriana Calcanhoto encontrasse esse verso tão feliz e pertinente, que dá título a esta crônica e que faz parte de seu grande hit “Cariocas”, aquela música que diz que “Cariocas são bonitos, cariocas são bacanas...”.

Quem gosta de chuva são as plantinhas e as flores, do Jardim Botânico e das ruas e janelas da cidade. Grandes períodos de estiagem, como o que estávamos vivendo, há alguns meses sem chuva, castigam o verde carioca e dava pena ver nossos gramados com aquela cor desbotada. Minha violetinha, que fica na janela, também bate palmas para uma chuvinha fina, mas de preferência sem ventos frios. Quem também curte uma garoa são alguns paulistas, gaúchos, curitibanos, catarinenses e outros oriundos de lugares mais frios e eternos incomodados com a chapa quente do verão carioca, que começa na primavera e acaba no outono.
Mas para muitos cariocas como eu, da gema ou da clara, chuva forte estraga o dia e deixa todo mundo mal humorado e reclamante. Fica parecendo que todos os dias de repente viram aquela segunda-feira em que a gente tem que chegar às 7h30 da manhã no batente...

A tristeza é geral. Nos subúrbios, fica prejudicado aquele programinha básico de botar um lagarto na chapa, na laje, com muita birita e um pagode do Arlindo Cruz mesclado com funk de favela e chamar os amigos para colaborar na festinha. Pra turma emergente que fugiu dos bairros tradicionais para conseguir morar numa casa na Barra, Recreio ou em bairros niteroienses como Camboinhas, Itaipuaçu, Itacoatiara, o indefectível banho de piscina privé, regado a cervejinha ou caipirinha com os amigos, também fica inviabilizado.

Quando eu tinha filhos pequenos e ficava com eles no fim de semana de pai separado, chuva era uma droga. Sem a dita cuja, eu tinha várias opções de passeios infantis bons e baratos em meio à natureza: Pedra do Arpoador, Parque Garota de Ipanema, Parque Lage, Parque da Cidade, Floresta da Tijuca, o Zôo na Quinta da Boa Vista, Parque da Chacrinha, Praia de Ipanema... E se chovesse? Só me restava o shopping ou uma pizzaria... ou, pior ainda, ficar dentro de casa e pegar vídeos infantis pra turma se distrair. Uma tristeza só.

Hoje, a chuva forte continua causando estragos em minha vida adulta. Nesse feriadão que acaba de passar, deixei de ir ao Semente na quinta-feira 15 de novembro, onde perdi um showzaço do Trio Madeira Brasil, seguido pelo ótimo Lúcio Sanfilipo. Meus planos de ir para o Samba Luzia no dia seguinte foram literalmente por água abaixo, pois o grande barato do lugar é a laje, o samba a céu aberto. Quando chove, a roda fica confinada a um segundo andar fechado, quente e barulhento, que lembra um playground de festas de prédio pobre, muito pobre. Durante o dia, minha intenção de botar a bicicleta na ciclovia ficou na intenção, e olhe lá.

A chuva também impede o Choro da Feira, todo sábado de manhã na General Glicério, e força adiamentos dos cortejos e arrastões do Rio Maracatu, a linda versão musical carioca do tradicional ritmo pernambucano, sempre ornamentada de belas dançarinas com suas saias coloridas e rodantes. Outra vítima é o futebol.

Campos de pelada de terra batida viram rapidamente charcos enlameados e a bola rola com dificuldade. Até o Maracanã sofre, com queda de público e da qualidade do futebol nas partidas debaixo de chuva. Sem falar nos vôos do Santos Dumont, que em dias de chuva... sem comentários, não vale a pena chover no molhado dessa nossa incrível crise aérea.

Prejuízo mesmo quem sofre são os quiosques da Lagoa e das praias. Eles têm o grosso de seu faturamento nos fins de semana e feriados. Quando chove, o movimento desaba, alguns nem chegam a abrir. É um negócio de altíssimo risco meteorológico.

Dizem que o responsável por tudo isso é São Pedro, aquele de barba branca que tem as chaves das portas do céu e que é protetor dos pescadores e das viúvas. O carioca tem uma relação muito curiosa com São Pedro. Vive implorando ao santo para dar uma segurada na chuva para não estragar seu programa. Mas não fica com raiva dele quando chove. Até diz que a culpa é de São Pedro, mas fala com carinho, automaticamente engatando uma pequena prece, com seu vocabulário mui especial: “Meu São Pedro... papo reto... dá uma forcinha... segura essa chuva aí pra nós... na moral... demorô?”

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