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Carioquices
Esta semana a coluna de Ancelmo Góis,
no “Globo”, nos informou sobre
um casamento que quase acaba em samba na
Rua do Ouvidor. Aconteceu no sábado
passado, dia 24 de novembro do ano da graça
carioca de 2007.
A notinha da coluna foi sumária.
Logo depois o Zé Sérgio Rocha,
veterano jornalista e grande figura do samba
e do jornalismo carioca, espalhava para
todos os seus amigos mais detalhes do acontecido,
disponíveis na Internet em quatro
diferentes blogs:
http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/frontdorio/
http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/chopedoaydano/
http://www.hisbrasil.blogspot.com/
http://ipaco5.blogspot.com/
Vale conferir cada um deles, as versões
são sensacionais.
A história é a seguinte.
Os noivos chamavam-se Horácio e Renata
e estavam com casamento marcado para o sábado,
às 19h, na Igreja de Santa Cruz dos
Militares, na vizinha Primeiro de Março.
No mesmo horário, rolava solta na
Livraria Folhas Secas (em verdade, na rua,
em frente à casa de livros) uma roda
de samba de primeira qualidade para comemorar
o lançamento do livro “Noites
de sábado”, de Luís
Pimentel, e do CD “Malandros maneiros”,
de Zé Luís do Império
Serrano. A roda começou no almoço
mas entrou tarde e noite adentro.
De repente, começou a se configurar
um momento de mais pura carioquice. Veja
a descrição do Aydano André
Motta em seu blog:
“Lá pelas tantas, pouco
depois de uma seleção do melhor
de Silas de Oliveira, um casal a rigor (ele
de fraque, ela de longo preto) chegou e
pediu uma cerveja. A eles, juntaram-se outros
fraques e longos”.
Vejam outra descrição, esta
do blog do César Tartaglia:
“De repente, eu e o Zé
Sérgio, que me contava a décima
história de tipos que só brotam
no Rio, nos olhamos: a gente tinha acabado
de perceber um grupo, meio desenturmado,
mas animadíssimo. Estavam todos encadernados,
longos e ternos, cabelos bem feitos, um
luxo só. Ou seja, a antítese
da moçada nas mesinhas.”
Resumo da história: alguns padrinhos
e convidados do casamento, cansados da espera
formal dentro da igreja, ouviram o batuque
do samba e foram se chegando para tomar
umas cervejas enquanto a noiva não
chegava. Logo a turma do samba se enturmou
com eles e perguntou o nome dos noivos.
Daí, começaram a brincar,
em coro: “Horácio, cadê
você?”, “Re-na-ta, Re-na-ta”.
Quando, de repente, quem aparece por lá?
“Ih, fudeu, é o Horácio...”,
gritou um dos padrinhos. Mais hilário
ainda: o noivo vinha seguido do filmador
oficial do casamento, registrando tudo.
E o nubente Horácio, contam as testemunhas,
não se fez de rogado e entornou uma
garrafa inteira de cerveja em poucos minutos.
Pelos relatos, a coisa deve ter sido sensacional.
À medida que novos convidados elegantes
iam chegando, a galera batia palmas. Cesinha
Tartaglia, conta em seu blog o Paulo Thiago,
se assanhou e declarou: “Se a
madrinha já é bonita assim,
imagina a noiva...”. Outros chegaram
a ensaiar uma invasão à Igreja,
para tocar o samba no casamento, mas os
menos ébrios seguraram a onda.
Isso é Rio de Janeiro, uma metrópole
cheia de carioquices – coisas sensacionais
que só poderiam acontecer nesta cidade.
Lembro de outra legítima carioquice,
publicada com exclusividade pelo jornal
“Extra”, se não me falha
a memória no ano da desgraça
rubro-negra de 2004. O Flamengo tinha acabado
de perder a Copa do Brasil para o Santo
André em pleno Maracanã. A
mais pura tragédia em vermelho e
negro, num Maraca lotado. No dia seguinte,
a torcida vascaína encomendou uma
missa na Igreja de Santo André, que
fica em São Cristóvão
(bairro sede do Vasco da Gama) para comemorar
não a derrota rubro-negra, mas sim
a vitória do time que leva o nome
do Santo da Igreja. O padre, que era tricolor,
aceitou sem titubear a encomenda da missa.
Tudo certo, na hora marcada para a cerimônia
religiosa aparece na porta da Igreja uma
patrulhinha da PM e o sargento, que era
flamenguista, ordena ao padre o cancelamento
da missa, que acabou não acontecendo,
por motivo de força policial.
Ou seja, o poder público (Estado)
interferiu no poder religioso (Igreja) para
acabar com a farra da cultura popular (Futebol),
na sua versão mais carioca. Sincretismo
puro, carioquice de primeira!
Por coincidência, semana passada
baixou na minha caixa postal um texto supostamente
da Fernanda Young (que eu acho uma figura
chata pra caramba...) que desvenda mais
uma típica carioquice e, no final,
ainda dá um chega pra lá na
paulicéia desvairada.
Com seu jeito de “descolada”
e “muderna”, La Young relata
que veio ao Rio passar uns dias e voltou
para Sampa arrasada de felicidade: “O
divertimento persegue você pelas ruas
cariocas, e não há como se
esconder dele”. Ela pegou o espírito
da coisa do carioca de, sem mais nem menos,
juntar todo mundo que conhece na rua e levar
pra casa de alguém e começar
uma festinha. Ela falou em relação
ao Leblon, mas já vi coisas similares
com gente conhecida de Madureira, Jacarepaguá,
Santa Teresa, Colégio e até
de São Gonçalo, do outro lado
da Baía da Guanabara.
Com a palavra, Fernanda Young, que descreve
bem essa parte do espírito carioca:
“No Rio, você sai pra comprar
um cigarro e na esquina, subitamente o cigarro
se transforma num chope, subitamente a esquina
se transforma numa pizzaria no Leblon, e
quando você se dá conta está
contando confidências para uma pessoa
que você nunca tinha visto antes,
com a bolsa cheia de números de telefone.
(...)Sempre tem alguma festinha, já
que no Rio basta alguém levar uma
bebida e ligar o som para se ter uma festinha.
E, como há o hábito de cada
um levar a sua garrafa, todo mundo acaba
se esbaldando junto. Na hipótese
bastante provável de a festinha virar
festa, porque um chama o outro e o outro
sempre chama mais um, prepare-se para atingir
índices inéditos de divertimento.
Porque no Rio, uma festa só acaba
quando dá policia. Sendo que a música
só abaixa mesmo quando o aniversariante,
no Rio sempre tem um aniversariante para
justificar a algazarra, é quase levado
em cana. (...) Os paulistas têm muito
o que aprender com os cariocas em matéria
de divertimento”.
Carioquice de luxe pra ninguém
botar defeito. Só que, quando mandei
esse texto para alguns amigos paulistas,
a reação foi quase violenta.
Respondeu-me um deles, que em verdade é
um carioca já meio apaulistado, de
tanto morar lá: “O eterno
retorno do mito do Rio de Janeiro. Vai gente,
vem gente, e agora é a moderninha
de plantão que repete a mesma história
sobre o Rio de Janeiro.Balela. (...) A maioria
desses trovadores do Rio nunca foi além
da Tijuca, segundo bairro além Rebouças,
depois do Rio Comprido. Se foi, foi de turista
para ver o exotismo da escola de samba ou
do baile funk. Se foi. Andaram de trem?
Sentiram o calor do subúrbio? Quantos
conhecem, de fato, os terreiros de samba?”.
O Rio não precisa falar mal de
São Paulo para cantar suas maravilhas
e suas carioquices. A gente – apesar
de todos os pesares, dos seguidos desgovernos
e das atrocidades das tropas de elite da
bandidagem e da PM – se diverte muito
por aqui mesmo e quem chegar em paz e alegria
será sempre bem-vindo.
E há felicidade maior do que poder
chegar de volta de uma viagem e cantarolar
uma música de Tom Jobim feita especialmente
para nós, cariocas? “Minha
alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou
morrendo de saudades...”.
E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br
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