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Beco das Sardinhas, Rei dos Frangos Marítimos
Nunca entendi por que é tão caro comer peixe no Rio, já que temos um litoral pra lá de produtivo, dá peixe a rodo. No Nordeste, comer peixe é muito mais em conta. Nos meus 19 anos de idade, numa viagem que fiz de mais de 40 dias acampando por praias nordestinas até Natal, comi muito peixe barato, em barracas populares, pirão num prato de metal amassado comido com colher, não tinha nem garfo e faca. Não lembro quanto era, mas era muito, muito barato.
Mas o litoral fluminense, com tantas praias e barcos de pesca, não poderia nos fornecer peixe mais barato? Inclusive mais barato do que carne, já que os grandes criadores de gado nem ficam em nosso estado? Claro que podia! E se você for a Rio das Ostras, Cabo Frio, Arraial do Cabo certamente encontrará peixe bem mais barato do que no Rio.
Outra coisa que nunca entendi: por que os barraqueiros não oferecem peixe frito nas praias da Zona Sul? Você vai a Búzios, Cabo Frio, nas praias de Niterói, no Nordeste, em quase todas as praias agitadas e come um peixinho frito tira-gosto, até em algumas praias da Barra da Tijuca. Mas em Ipanema, Copacabana, Leblon, não! Tem até o sanduíche do Uruguaio no Posto 9, que tem carne, lingüiça, frango, tudo delicioso e feito na hora, mas peixe... nada!
E vá num restaurante do Rio e compare os preços dos pratos de peixe com os de carne e frango. O peixe é o campeão dos preços altos! Não é só por causa dos sushimen que os restaurantes japoneses são tão caros... A propósito, um peixe honesto na Zona Sul você comerá com certeza na Marisqueira, que fica na Rua Barata Ribeiro em frente à Inhangá, logo depois da Praça Cardeal Arcoverde, aquela do metrô. Nada de sofisticação, apenas um peixe básico, bem feito, em travessas que dão para duas pessoas, com várias opções. A Marisqueira é um restaurante familiar tradicional, daqueles que fica cheio na sexta-feira da Semana Santa, quando muitos devotos só comem peixe, particularmente o bacalhau. Outra dica: o Sobrenatural, em Santa Teresa, pertinho do Largo dos Guimarães. O antigo dono, já falecido, era também proprietário de um grande barco pesqueiro e se orgulhava de dizer que servia o peixe que ele mesmo pescava. Meus preferidos lá são o bobó de camarão e o risoto de açafrão com frutos do mar. Sem falar nos pasteizinhos de camarão e siri de entrada, que petisco!
Estive em Búzios logo depois do carnaval. Os cardápios da cidade, dos quiosques de praia aos restaurantes mais sofisticados, continuam tendo muitos pratos de peixe. Mas os preços andam salgados. Nas praias, aqueles quiosques feios e sujos andam vendendo pratos de peixe a R$ 60 para duas pessoas. Comi um na Tartaruga e me arrependi, era um pargo médio, mal dava para duas bocas, e o acompanhamento era simples demais, uma batata frita, folhas de alface, arroz branco e legumes crus ralados. Acabei com fome. Quando estive em Salvador, início de fevereiro, comi prato igual num quiosque na praia de Stella Maris e paguei bem menos e o peixe estava maior. Já na região da Rua das Pedras, o centro do tititi buziano, há vários restaurantes oferecendo pratos de peixe para dois entre R$ 40 e R$ 50. E, obviamente, nos restaurantes um pouco mais sofisticados o prato (individual, só pra um...) já pula para um inicial de R$ 55 e pode chegar a R$ 80. De qualquer jeito, tudo muito caro num estado com tanto peixe em sua costa.
Peixe é uma delícia. E há consenso de que é a melhor carne para a saúde – tem muita proteína, é de fácil digestão, engorda pouco. Tudo de bom. Nos meus primeiros meses como morador de Santa Teresa, nos anos 80, eu descia a ladeira aos domingos de manhã para comprar sardinha e trilha na feira da Glória e convidava os amigos para pegar sol na laje do meu prédio, comendo peixinho frito e bebendo caipirinha feita na hora. Bons tempos.
Hoje, quando quero e posso comer um peixinho frito, não é na praia que eu vou encontrar. Tenho uma excelente opção no Centro, mas somente para almoço e happy hour nos dias úteis, acho que nem abre aos sábados. É o Rei dos Frangos Marítimos do Beco da Sardinha.
Vamos lá. Ali na Rua Marechal Floriano, entre a Uruguaiana e a Rio Branco, há uma rua de pedestres em frente a uma igreja. É um quarteirão pequeno, pedaço final da Rua Miguel Couto que vai dar na Rua do Acre (aquela enviesada que começa na Marechal Floriano e termina na Rio Branco). Ali virou um antro de restaurantes que, por alguma razão que ainda não pesquisei, são especialistas em peixes. Quase todo o comércio do pequeno quarteirão é de peixes. Ganhou o apelido popular de Beco das Sardinhas. As calçadas foram tomadas pelas mesinhas dos restaurantes. Na hora do almoço enche, no happy hour lota.
A primeira vez fui indicado por um habitué que me recomendou expressamente para comer no Rei dos Frangos Marítimos. O nome é uma comédia, mas a verdade é que nunca me senti estimulado a mudar: jamais comi nos demais, nem sei se são bons. O Rei dos Frangos do mar é, isso eu garanto.
Lá é o seguinte: você senta e pede as sardinhas. Elas são individuais, cada uma custa uns R$ 3. Normalmente quando vou almoçar lá, eu como umas cinco. Pra acompanhar, peça um purezinho de batatas, que o cozinheiro da casa sabe fazer como ninguém. Pode complementar com uma salada de tomate e palmito. Se estiver fora de horário de trabalho e puder tomar um chopinho, melhor ainda. Mas não peça todas as sardinhas de uma só vez, vá de duas em duas, porque senão esfria. E elas chegam esturricando de quente, e são rapidíssimas. Pediu, em menos de cinco minutos o garçom joga (literalmente...) o prato com as bichinhas na sua frente. E tome molhinho de limão com alho, pimentinha...
Gente, as sardinhas fritas de lá são deliciosas. Sequinhas e fritas no ponto certo, não tem cristão que não dê a primeira mordida e pronuncie um saboroso e profundo “hummmmm.......”. E aí se come uma, duas, três, até onde aguentar. Já levei amigos meus lá do Rio, de Brasília, de Minas, de São Paulo, do Rio Grande do Sul, todos foram unânimes: “Que delícia... hummmm”. E dá para almoçar apenas sardinha frita, acredite. Agora então que estou trabalhando ali perto, vou lá pelo menos uma vez por mês na hora do almoço.
E chega de falar. Caro leitor, cara leitora, na primeira oportunidade, corra ao Beco das Sardinhas. E bom apetite!
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem parameurio@solteirosesolteiras.com.br
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