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Carlinhos
de Jesus e Serjão Loroza, grandes
figuras do
subúrbio
Tenho o prazer de ter sido aluno e me
tornado amigo dessa grande figura que é
Carlinhos de Jesus – dançarino,
coreógrafo, professor de dança,
responsável pela Comissão
de Frente da Mangueira e uma pessoa sempre
carinhosa e com altíssimo astral.
Carlinhos é figurinha fácil
nessas listas dos mais cariocas dos cariocas.
Ele veio do subúrbio, do Encantado,
se não me falha a memória.
E de lá trouxe a ginga, a malemolência,
o charme e a raça do carioca de subúrbio.
Estou longe de ser um biógrafo
do Carlinhos de Jesus, mal conheço
ele na intimidade. Mas sempre trocamos um
abraço super delicioso toda vez que
nos esbarramos e é um cara por quem
aprendi a ter grande admiração.
Sexta passada cheguei tarde ao aniversário
de uma amiga e desisti de entrar –
o lugar estava lotado e tinha baita fila.
Era o Lapa 40º, a
mais nova investida de Carlinhos de Jesus
na noite carioca. Uma mistura de bar, casa
de sinuca e gafieira. Nunca havia ido lá,
tinha curiosidade, nem sabia direito aonde
ficava (agora sei, é ao lado do Democráticos,
na Rua do Riachuelo, 97), e continuo sem
conhecer. O lugar pegou mesmo, eu não
tinha idéia como está cotado,
gente saindo pelo ladrão. Ali na
porta, vendo aquele movimento todo, fiquei
feliz: “Que bom, Carlinhos tá
ganhando dinheiro!” Sim, porque
De Jesus ralou pacas para subir na vida.
Ele veio da baixa classe média
da Zona Norte e quando o conheci –
na condição de aluno –
ele não parava, estava sempre procurando
alguma coisa nova para construir seu futuro,
faturar mais algum e fazer seu trabalho
aparecer.
E, mesmo assim, era um professor super
dedicado aos alunos. Não conseguiria
sobreviver apenas dando aulas. Mas não
era estrela. Se não tivesse trabalho
externo, estava sempre na academia para
conduzir as aulas, não fugia do tranco.
E era emocionante ver como ele estava sempre
atento para apoiar os alunos com mais dificuldade,
ajudava-os com carinho. Um mestre preocupado
em fazer seus discípulos crescerem
e serem felizes com a dança. E essa
era uma mensagem que ele sempre nos passava:
o importante, na dança, é
ser feliz.
Quando conversávamos, Carlinhos
sempre tinha algo em mente, a cabeça
dele não parava, sempre imaginava
algum projeto novo, era eterno e inquieto
criador. Montou o bloco “Dois pra
lá, dois pra cá”, que
eu acho meio caretinha mas que arrasta uma
multidão. Foi dancer de
Elba Ramalho numa excursão pelo Brasil
onde arrumou até fã-clube
em Campina Grande, Paraíba. Fez a
coreografia da “Ópera do Malandro”
de Chico Buarque, até hoje uma marca
registrada de seu trabalho. Montou um show
de dança no Canecão como partner
de Ana Maria Botafogo. E continua criando,
agora na Comissão de Frente da Mangueira.
Vi uma entrevista dele no “Bom Dia
Brasil”, depois do desfile deste ano,
e foi emocionante ouvi-lo falar como foi
até o Recife para ver o autêntico
frevo de rua, inclusive em escolas para
crianças carentes, e como se inspirou
na arte popular para fazer a coreografia
do desfile deste ano.
Esse é o Carlinhos, sempre levando
muito a sério qualquer projeto. Ele
não veio ao mundo para brincadeiras,
quando o assunto é arte ou trabalho,
ele é seríssimo, perfeccionista,
criativo, empreendedor. Briga com o vitiligo,
com as dores na coluna, mas nunca pára.
E jamais perde a ternura, uma característica
natural dele, que tem como marca de fantasia
aquele sorriso simpático toda vida.
Escrevendo sobre Carlinhos de Jesus me
vem à lembrança outra grande
figura do subúrbio que, como ele,
batalhou para fugir a um destino que poderia
condená-lo ao anonimato comum a milhões
de pessoas que nasceram e cresceram na periferia.
Estou falando de Serjão Loroza –
ator, cantor, compositor, cria de Madureira.
Não tenho amizade com Loroza, sou
apenas um conhecido dele – i.e., ele
sempre me reconhece e me cumprimenta de
forma alegre. Sou fã do negão.
Acompanhei seu início de estrelato,
como cantor do Bangalafumenga no carnaval
do ano passado, depois de ter explodido
nas noites do Circo Voador como crooner
do Monobloco (é só comprar
o CD e o DVD do Mono para vê-lo e
ouvi-lo). Ato contínuo, ele lançou
seu primeiro CD, produção
independente, o “MBP – Música
Brasileira de Pista”, e batalhou pacas
para divulgar e distribuir o disco. A maioria
das músicas é dele mesmo e
o estilo é música de negro,
black music versão de Madureira,
com muito soul, hip-hop, dance music e até
samba. É muito gostoso, as letras
são bem legais, um trabalho diferente
em meio a tantas mesmices do mercado fonográfico.
Vale a pena, confiram no site dele (www.loroza.com.br/mbp).
Vi vários shows do Serjão
na Dança dos Famosos do Faustão
e ali me caiu uma ficha importante. Serjão
é gordo, muito gordo – pesa
175 quilos! É negro e não
é bonito. Veio de origem pobre. Tinha
tudo para não dar certo. Mas lá
estava ele no Domingão do Faustão,
em meio a beldades globais siliconadas e
super malhadas. E brilhou, arrebentou na
dança e na simpatia, com sua veia
humorística, sempre muito engraçado.
É um astro nato. Driblou o destino,
que tentou condena-lo a ser mais um anônimo
do subúrbio. Estraçalhou na
“Diarista”, nos delicia com
seu vozeirão em vinhetas para o programa
Samba Social Clube da MPB FM. É garoto
propaganda de financeira e fundou o bloco
US Madureira, que ele leva para dar canja
em seus shows. Às vezes, temos a
impressão de que ele está
em todas.
Tenho uma história que mostra quem
é o Loroza. No final de 2006 e início
de 2007, o Bangalafumenga arrombou a festa
em São Gonçalo, na quadra
antiga da Porto da Pedra, em shows semanais,
toda sexta, lotando o lugar. Ganhou fã-clube
fiel lá, pelo menos 3 mil pessoas
por semana compareciam aos shows. E Serjão
era a cereja do bolo, sempre que entrava
no palco a platéia vinha abaixo.
Sem falar no seu figurino,que incluía
uma camisa enorme de cetim vermelho, que
lhe deixou com um aspecto de almofadão
de rendez-vous.
Depois do carnaval, a galera fã
do Banga em São Gonça, que
todo show ia no camarim para ficar com seus
ídolos, montou um churrasco na casa
do local Rodrigão e chamou toda a
galera do outro lado da Baía. Nenhum
dos músicos do Banga foi. Mas Serjão
apareceu lá, dirigindo seu carro
importado, e confraternizou com seu público
na maior, sem formalidades, num churrasquinho
com pagode da baixa classe média
são-gonçalense.
Carlinhos de Jesus e Serjão Loroza
são duas pérolas do subúrbio
carioca. Caros leitores, aproveitem: usem
e abusem da arte dessas duas grandes figuras.
E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br
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