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Por
uma Ipanema tranqüila para Iemanjá
De uns anos para cá concluí
que, para mim, um ótimo reveillon
é virar a noite nas areias de Ipanema,
mais ou menos longe dos fogos de Copacabana
e de festas de oportunidade em casas ou
clubes. E distante também das viagens
de feriadão. Gosto muito do Rio para
sair da cidade nesse momento de energia
ímpar.
Os fogos de Copa são legais. Mas
como morei muitos anos no bairro, já
perdi a conta do número de vezes
em que presenciei o espetáculo pirotécnico
e eles não têm mais novidade
para mim. Vi quase todos os primeiros anos,
bons tempos em que conseguia levar meus
filhos pequenos e ficar no meio do areal,
na altura das ruas Rodolfo Dantas e Duvivier,
sem tumulto em volta. Acreditem, a coisa
era assim: havia espaço à
bessa em nossa volta para a criançada
correr e se esbaldar na areia. Não
tinha ainda o Metrô, multidões
na casa do milhão e ladrões
a torto e direito. Dava para deitar-se na
areia e ver o céu multi-iluminado
pelas cores dos foguetes festivos.
Depois tive uma rápida fase de
festas de reveillon, algumas fora da areia
da praia. Cheguei a celebrar a passagem
do ano novo num sítio gostoso em
Vargem Grande (ou Pequena, não me
lembro...), bem longe das praias. Passei
outro delicioso Ano Novo num apartamento
vazio no Leme, com várias janelas
para ver os fogos. Era de uma amiga minha,
que tinha acabado de vender o imóvel,
que seria entregue ao novo morador depois
do reveillon. Claro, ela não teve
dúvidas, chamou os amigos e fez uma
big festa no apê vazio. Saí
de lá, umas 5h, para comer café
com ovos mexidos num hotel à beira-mar
na esquina da Duvivier.
Tive alguns reveillons chatos também.
Num deles, já no início dos
anos 90, fiquei numa boa festinha num apartamento
de uma amiga no Jardim Botânico. O
problema era a companhia. Uma amante paulista
que, eu não sabia ainda, era paulista
demais para a bagunça carioca. Ela
reclamava de tudo, especialmente dos serviços
em bares, restaurantes e lojas. Ali, descobri
que, realmente, a gente é muito mal
atendido na cidade, mas já estamos
acostumados com isso, somos pouco exigentes
e não reclamamos. Mas foi um saco,
em vez de curtir um estar a dois na Cidade
Maravilhosa, minha paulista estava mais
preocupada em reclamar. Gerava e atraía
energia negativa num momento em que todos
precisamos do lado positivo de nós
mesmos.
Chegando mais pro fim do século
passado, descobri minha verdadeira vocação
para terminar o ano bem. Muito óbvia,
pois passei minha infância e adolescência
nela. Esbanjava intimidade com o lugar e
impressiona como demorou a cair-me a ficha.
Desde então, agradeço educadamente
os convites que invariavelmente recebo todo
ano de amigos meus que sempre tem à
mão festinhas sensacionais em locais
fechados e longe do mar. Obrigado, galera,
mas eu vou mesmo é para as areais
da Praia de Ipanema, lar de minha mãe
espiritual Iemanjá, e fico lá
curtindo, algumas vezes sozinho, o balanço
das águas e o barulhinho gostoso
das ondas do mar.
É um momento para eu parar e pensar
na vida, no que passou e no vem por aí.
Olhar pra dentro de mim, sentir a energia
que passa dentro do meu corpo e na natureza
em volta (areia, vento, chuva, sereno, ar),
tudo isso embalado pela trilha sonora dos
gritos, do barulho dos fogos de Copa, da
alegria das pessoas de branco, das indefectíveis
flores levadas a Iemanjá, das garrafas
e taças de champagne. E, depois,
caminhar um pouco na areia e adentrar no
asfalto interditado para veículos
para encontrar várias pessoas amigas
e conhecidas, adeptos do simpático
trottoir ipanemístico de todo Ano
Novo. Incluindo os impagáveis hare
krishnas, que nunca negam fogo em Ipanema,
com seu cortejo alegre de pulinhos e sorrisos
de cabeça raspada e roupas indianas.
Sempre dá vontade de sair pulando
e cantando com eles.
Como moro na Lagoa, quase na boca do Túnel
Rebouças, vou e volto do reveillon
a pé. A ida é sempre a mesma
coisa, muita gente de branco com garrafas
e taças de champagne na mão,
a árvore de natal da Lagoa ainda
acesa com seu espetáculo luminoso,
uma certa tensão no ar, olhares atentos
aos relógios, para ver se dá
tempo para chegar na praia antes da meia
noite, e muitas, muitas questões
existenciais:
“Lembrou de trazer a máquina?”
“Não podemos esquecer de
comprar as flores na Nossa Senhora da Paz.”
“Será que o outro vestido
não ficava melhor?”
“Quem vai ficar na areia tomando
conta das coisas para eu dar os sete pulinhos?”
“Não sei se peço para
ganhar a megasena ou para a Priscila Fantin
se apaixonar por mim...”
Já a volta, lá pelas 4h,
para mim é sempre uma longa caminhada
de uns 4 a 5 quilômetros marcada pelo
cansaço extremo, algumas vezes debaixo
de chuva. Já fiz o trajeto de bicicleta
também, mas nunca de carro, pois
o mega-engarrafamento madrugadeiro em direção
ao Rebouças é um atentado
à paciência de qualquer cristão.
Ano passado, meno male, consegui pegar uma
van que me deixou praticamente na porta
de casa, e nem demorou tanto assim.
A areia de Ipanema é meu reveillon
ideal. Mas... sempre tem um “mas”,
né? A prefeitura, que tem à
frente essa criatura que a população
elegeu para ser nosso prefeito, de uns dois
anos para cá decretou, sem qualquer
consulta popular, que a Praia de Ipanema
não tem mais direito à tranqüilidade
no reveillon.
Ipanema tem história, uma história
carioca. Em suas calçadas, areais
e dunas já acolheu as turmas da Bossa
Nova, da Tropicália e da Nuvem Cigana,
a tanga do Gabeira, as latas do barato,
o Simpatia é Quase Amor, Leila Diniz
e seu barrigão, o primeiro Circo
Voador (sim, porque o Arpoador também
faz parte do “Complexo” de Ipanema),
os apitaços do Posto 9, as palmas
para o por-do-sol, a mulher de branco, os
antenados do Coqueirão, a barraca
do uruguaio, o Gaymado do Posto 8,5, os
socialites do Country, a galera pobre dos
subúrbios que deságua aos
borbotões nos pontos finais da Francisco
Otaviano e os favelados do Cantagalo.
Pois essa mesma Ipanema, tão coisa
mais linda e mais cheia de graça,
está condenada pela Prefeitura a
ser palco de um reveillon movido a uma rave
barulhenta que nem só, justamente
em seu ponto cultural mais nevrálgico,
o Posto 9. E ainda por cima trata-se de
um evento pseudomusical típico da
Barra da Tijuca, que muito pouco tem a ver
com Ipanema (diga-me lá: há
algum local no bairro com raves regulares?).
Mais: um evento super patrocinado, que polui
a orla de propaganda, típica ação
caça-milhões da Prefeitura.
Mas quem paga o pato somos nós.
Alguém perguntou aos moradores
e freqüentadores, certamente atraídos
pela relativa tranqüilidade do local
no reveillon, se eles queriam isso? É
como se a Prefeitura, sem mais nem menos,
resolvesse promover um ensaio de bateria
de escola de samba no quintal de sua casa,
numa pacata vizinhança, sem consultar
ninguém.
O fim da picada, Sr. César Maia!
O senhor acabou com a nossa tranqüilidade
na passagem de ano.
Mesmo assim, vou para Ipanema no dia 31.
E vou procurar o lugar mais longe e menos
barulhento, pode ser Arpoador, Leblon, mas
vou. Fazer o que?
Ê vidinha difícil essa de
carioca nesse ano 2007...
E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br
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