Meu Rio
PH de Noronha
 
 

O sexo e a cidade carioca (3)

No último verão, um colega meu, pintoso e charmoso pegador de moças bonitas, contou-me uma história digna de lendas sexuais, mas que era verdade. Relatou, eufórico, que descia de Santa Teresa indo de um samba para outro, já na madrugada de sábado para domingo, quando encontrou pelo caminho duas meninas, ambas gatas bonitas e descoladas, pedindo carona. Claro, ele parou e abriu a porta. Mais do que isso, jogou seu charme e uma das moças acabou a noite em sua cama. Ambos nunca tinham se visto na vida: se conheceram, trocaram prosa e meia hora depois já estavam transando.
Simples, né? Uma história para reforçar a imagem de sexo fácil dos cariocas e das cariocas. Sabemos que não é bem assim, mas a verdade é que pululam histórias similares pela cidade, muitas oriundas da necessidade que alguns têm de contar vantagem. Mas é esse o imaginário que ronda a cabeça de quem sai pela noite, seja na Lapa, no Baixo Gávea, seja nas boates da Barra da Tijuca. É o risco gostoso de se esbarrar com alguém interessante e acabar na cama fazendo um sexo bom, louco, inesquecível, e muitas vezes sem compromisso.
Essa imaginação fértil foi bastante estimulada na cabeça da minha geração (sou de 1958) tanto pelos quadrinhos de Carlos Zéfiro, um produto tipicamente carioca em plena ditadura militar, quanto pelas histórias contadas na seção “Fórum” da antiga revista “Ele&Ela”, da finada Editora Bloch, que era a grande concorrente da “Playboy” nos anos 70 e 80. Na “Fórum”, havia histórias fantásticas de sacanagem, muitas delas pouco críveis, mas repletas de imaginação e grande combustível para masturbações adolescentes. A partir de determinado momento, a revista passou a convidar leitores para contarem suas histórias reais, e a gente nunca mais soube o que era verdade ou não, aumentando ainda mais nossa imaginação sobre o sexo cotidiano. Era um tal de transar com a amiga da prima numa viagem de férias, de mecânico traçar a boazuda dona do carro quebrado, da trepada com a colega de trabalho durante um serão, e ainda da vizinha e da amiga da vizinha, juntas na cama do personagem másculo. Tudo muito fácil e sempre de surpresa, colocando na cabeça da gente que uma transa gostosa desse tipo poderia acontecer com qualquer um de nós.
“Ele&Ela” era uma publicação bem carioca, contrastando com a paulistana “Playboy”, que era mais bem feita, mais rica e tinha mulheres mais gostosas e bonitas. Mas antes, durante e depois da “Playboy”, o Rio já cultivava o sexo de muitas formas. Quando eu era pequeno, lembro do escândalo na boca da classe média ipanemense que freqüentava a missa todo domingo na Igreja N. Sª da Paz quando Leila Diniz botou os peitos para fora num desfile da Banda de Ipanema num fim de semana, final dos anos 60. Por alguns dias não se falava em outra coisa nas ruas, na padaria, na feira. Só não se comentava na missa, porque aí já era pecado.
Depois, na segunda metade dos anos 70, tentou-se instituir o topless nas areias de Ipanema e Copacabana e, curiosamente, a iniciativa foi rejeitada. As meninas que botavam o peito pra fora foram xingadas, levaram banhos de areia e o moralismo falou mais forte. Mas, curiosamente, fio dental e biquínis minúsculos nunca foram rejeitados. Parece que os cariocas preferem a imaginação do que a realidade.
Mais curioso ainda é que nos desfiles das escolas de samba ninguém (salvo a Igreja Católica) nunca se importou muito com os peitos de fora. Luma de Oliveira, já nos anos 80, uma ilustre niteroiense desconhecida do grande público, foi parar na primeira página dos jornais depois de desfilar com seus belíssimos seios completamente à mostra, não me lembro direito em qual escola, acho que era a Caprichosos de Pilares. Mas me lembro muito bem dessa primeira página de jornal. Não teve homem hetero que não tivesse parado alguns segundos para apreciar aquela mulher linda, alegre e feliz, brindando-nos com tanta beleza e fartura sexual.
Inesquecível também foi o dia, uma sexta-feira, em que Ana Paula Arósio, uma das atrizes mais lindas da TV, mostrou seus seios na TV, na mini-série “Hilda Furacão”. Eu estava na Trattoria, um delicioso restaurante italiano da Rua Fernando Mendes, em Copacabana. Tinha uma TV pendurada na parede passando o episódio. Já havia sido fartamente anunciado na imprensa que finalmente veríamos os peitos da bela Arósio. O restaurante estava cheio, o lugar é pequeno e apertado, todo mundo falando alto para poder se ouvir e fazer ouvir. De repente, a cena começa. Todos, homens e mulheres, se viraram na direção da TV para apreciar. Fez-se um silêncio respeitoso. Não mais do que 1 ou 2 minutos, mas um silêncio sepulcral. Parecia que o mundo tinha parado. Valeu a pena, os seios da simpática atriz paulistana eram tão lindos quanto ela. Logo depois daquele êxtase em homenagem à beleza do corpo humano feminino, a vida voltou ao normal, entre massas, vinhos, falatório geral e alguns ais de suspiro.
Outra nudez polêmica e tipicamente carioca, também nas páginas de jornais, foi a da menos formosa atriz Kricka Ohana, irmã da belíssima Cláudia Ohana. Ela estreava uma peça que não teve boa acolhida nos jornais em sua estréia. Misturando revolta com um tino duvidoso para promover a si e à própria peça, a atriz foi ao jornal, conseguiu passar pela portaria e tão logo adentrou o segundo andar do nº 35 da Rua Irineu Marinho, onde fica a redação de “O Globo”, cheio de jornalistas concentrados batendo suas matérias, ela abriu o roupão que usava (e logo se veria que era apenas isso que usava, além do sapato) e caminhou célere entre as mesas, nua em pelo, chocando os comportados profissionais da imprensa que lá estavam e foram pegos completamente de surpresa.
Bem mais recentemente, na Semana Santa do ano passado, em Santa Teresa, eu vi uma encenação do grupo de teatro Tá na Rua, dirigido pelo genial Amir Haddad, onde uma das atrizes “performava” sem a menor cerimônia com um seio de fora, em pleno Largo dos Guimarães, celebrando artisticamente um feriado de Igreja Católica Apostólica Romana.
No dia-a-dia, é claro que a coisa não chega a ser tão explícita assim. Mas os cariocas, e muitas cariocas também, têm fama de fascinados por sexo, e não é à toa. Os homens, se diz, só querem saber de transar. E as mulheres, diz-se também, dão muito fácil. Essa é a fama. E na continuação dessa longa crônica em capítulos, vou contar mais algumas histórias de sexo a la carioca.
E faço um convite: se você tem alguma história de sexo bem carioca, manda pra gente e vamos dividir com todos.
Até lá!

Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para meurio@solteirosesolteiras.com.br

 








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