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A
hora da larica
Quando eu vou para a noite sem jantar,
ou com apenas um lanchinho no estômago,
tem aquela hora, quando acaba o samba e
eu já estou batendo a terceira garrafa
de cerveja, que bate a larica.
Esse termo, larica, é herança
cultural deixada para a língua portuguesa
pela turma do baseado. É uma fomezinha
gostosa e necessária, que rola depois
de alguma agitação, quando
o corpo diz pra gente: “Hum, seria
legal fazer uma boquinha”. E se você
bebeu demais, isso é mais do que
recomendável para ajudar a evitar
um mal estar ainda maior ao acordar horas
depois. Porque barriga vazia e bebida não
combinam muito, é azia na certa.
No Rio, tenho alguns caminhos para uma
larica bacana na madrugada.
Em primeiro lugar, é preciso definir
o espírito da criatura para o ágape
do after hours. Tenho uma amiga
que até hoje se vangloria de ter
saído do samba do Escravos da Mauá
e baixado no Capela (o bom e velho Nova
Capela, na Mem de Sá, entre a Lavradio
e a Gomes Freire) às 3 horas da madrugada
para estraçalhar um cabrito. Enfastelou-se
e no dia seguinte dormiu até as 3
da tarde. O cabrito do Capela tem fama de
ser o melhor do Rio, e realmente é
delicioso, mas é um prato pesado
pacas, gorduroso como o quê, tem que
ser muito macho (ou macha) para encarar
numa madrugada.
Mas se o caminho for buscar alguma “sustância”,
no próprio Capela há soluções
bem interessantes. O leitão à
moda, por exemplo, é uma delícia
e não é aquele festival de
gordura do cabrito. Mas normalmente eu parto
mesmo é para o arroz de brócolis
com lula, sempre delicioso e fartamente
servido para duas ou três pessoas.
E nunca dispenso uma sobremesa da minha
infância, que poucos bares sabem fazer:
banana frita com açúcar e
canela.
Na mesma linha da “sustância”
um de meus preferidos é o picadinho
do Cervantes, outro restaurante que, como
o Capela, fica aberto na madrugada. Meu
picadinho eu peço sempre sem arroz
e com ovos e batatas fritas, e acompanhado
de uma farofinha, de ovos também.
Tem ovo pacas nessa história, ou
seja, muito colesterol. Mas também
tem proteína. E se você não
comer ovo todo santo dia não tem
tanto problema.
Tenho amigos que preferem essa boquinha
mais substanciosa no Jobí. Porém,
eu acho a comida do Jobí com muita
fritura e pouco sabor. Passo. Outras pessoas
queridas partem para a pizza da Guanabara
(ícone do Baixo Leblon) ou do Hipódromo
(na Praça Santos Dumont, Baixo Gávea),
ou ainda da pizzaria do Carioca da Gema
(na Lapa, Mem de Sá com Lavradio).
É uma também, mas desde que
a gastrite passou a fazer parte da minha
vida, eu e as pizzas não nos entendemos
muito bem, uma pena.
A gastrite e a bebida também me
ensinaram a buscar, na madrugada, comidas
menos pesadas para ajudar a dormir e acordar
melhor. No próprio Capela encontrei
duas ótimas opções.
Na linha light quase total, tem a salada
mista, uma cumbuca grande cheia de alface,
palmito, tomate, cebola, pepino e saladinha
de batata com maionese que é uma
delícia. Com mais “sustância”,
descobri que o peito de peru à Califórnia
do Capela é outra delícia
pouco conhecida. Vem bem molhadinho, com
molho ferrugem sem parcimônia e um
purezinho de batatas delicioso recheado
de frutas (pêssego, figo, abacaxi).
Leve e saboroso, dá pra duas pessoas
fácil. E dá para pedir uma
farofinha para acompanhar. Farofa combina
com tudo, né...
Descobri também no Belmonte da
Praia do Flamengo, o mais tradicional de
todos os botecos da franquia, uma opção
deliciosa e baratíssima: a canja
de galinha com hortelã, que é
tudo de bom. Vem numa cumbuca não
muito grande, e com torradinhas. Há
outras opções de sopas, todas
ótimas, como a de legumes ou a da
camarão com gengibre, todas com preços
abaixo dos R$ 20. Mas normalmente vou na
canja mesmo, que sempre cai muito bem, leve
e saborosa.
Mas para as noites de muito calor, recomendo
expressamente deslocar-se até o Leblon
e pedir uma salada de frutas no BB Lanches,
em pé mesmo, no balcão. Vem
geladinha, é muito bem servida e
vale por uma refeição, além
de ser super saudável. Pode complementar
com alguns dos vários sucos ou, se
a fome for muita, peça um sanduba
de peito de frango com queijo de minas no
pão integral. Tudo muito bom.
Porém, como ninguém é
perfeito, vez em quando caio na tentação
de algumas amigas trash e encaro o famoso
podrão de algum trailler da Lapa.
O melhor, dizem os entendidos, são
os que ficam no entorno do Circo Voador,
na Mem de Sá. São ridiculamente
baratos e quebram um galhão na madrugada
carioca.
Por favor, o meu pode ser com lingüiça,
pouco molho, sem maionese e um pouquinho
de ervilha e batatinha. Hummm.....
E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br
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