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O
sexo e a cidade carioca (2)
Se eu já tinha dúvidas se
tinha leitores, agora, que estou há
quase duas semanas sem atualizar a coluna,
meus receios se tornaram um medo real. Alô,
tem alguém me lendo aí?? Tá
feia a coisa. Muito trabalho e pouco tempo
e cabeça para a literatura bissexta
sobre nossa cidade tão querida.
Acontece que neste momento escrevo em
meu laptop numa cama de hotel em uma cidade
simpatiquinha chamada Ottawa, no Canadá,
onde estou em viagem de trabalho. Queridos
leitores, é outro mundo. E antes
daqui passei em dois cantos igualmente nada
cariocas, New York e Washington.
Que saudade do Rio, do samba, do sol...
aqui tem sol, e um belo pôr-de-sol.
Mas não é suficiente para
derreter montanhas de neve de mais de um
metro de altura que tomaram todas as ruas,
sem exceção. Acreditem: a
nevasca caiu no fim de semana e hoje, quinta-feira,
quatro dias depois, a neve continua acumulada,
sem derreter, mesmo com sol. Pudera, a temperatura
média está em 8, 9 graus negativos...
A turma aqui vive dentro do freezer e não
sabe. Vi três carros totalmente cobertos
pela neve em um estacionamento, seus donos
nem se deram ao trabalho de resgatá-los.
Talvez tivessem medo de virar boneco de
neve durante o resgate...
É um frio inacreditável
para um carioca como eu, recém-chegado
de um calorão de mais de 30 graus.
É só ficar um minuto ao relento
que as pernas, mal protegidas por minha
calça de algodão, ficam molhadas
e geladas. Hoje estreei minha ceroula térmica
que comprei no Rio e a coisa ficou um pouco
melhor. Sim, descobri que tem pelo menos
três lojas na Cidade Maravilhosa especializadas
em roupas que evitam que o carioca vire
um Chicabom em terras do Primeiro Mundo:
uma no segundo andar do shopping Vitrines
do Leblon, outra em alguma esquina da Buenos
Aires (parece que é com a Miguel
Couto) e mais uma num dos últimos
andares do nº 33 da Santa Clara, shopping
vertical em Copacabana. Custa caro pacas
essa proteção anti-friaca:
um conjunto de ceroula e camiseta de manga
comprida, com tecido especial importado,
sai por R$ 160. A fabricação
é nacional mesmo, mas o material
vem de fora. E funciona, dá ma proteção
legal contra o frio polar. E lá tem
um pouco de tudo: casacões, luvas,
meias de lã.
Impossível não me lembrar
do Rio estando nesses lugares às
vezes estranhos, outras muito acolhedores.
New York continua sendo um paraíso
de compras. Tive pouco tempo lá,
porque a TAM me fez o favor de despachar
minha bagagem para Miami e vi-me obrigado
a fazer compras emergenciais na única
tarde que tinha na cidade. Fui parar num
outlet chamado Woodbury, a 50 minutos do
Centro, pegando-se um ônibus que custa
US$ 39 (ida-e-volta) na estação
da Rua 42. Em termos de compras, lá
tem coisas que até deus duvida. Já
estou usando meu novo relógio Swiss
Army, modelo tradicional, que me custou
US$ 49,99, algo em torno de R$ 90, enquanto
no Rio o mesmo modelo não sai por
menos de R$ 300. Comprei uma utilíssima
mochila para laptop da Samsonite, com rodinha,
por US$ 69,90 (R$ 125) – no Brasil,
quem achar por menos de R$ 400 pode se considerar
um felizardo. Woodbury – que é
um shopping aberto, similar ao nosso Downtown
– é um paraíso de consumo,
daqueles que nos leva a fazer compras e
concluir que, se você precisa e tem
uns R$ 3 mil para gastar em roupas, malas,
relógios, sapatos e outras coisas
úteis, vale a pena pagar R$ 2.400
por um vôo ida-e-volta na TAM e passar
um fim de semana shoppeando e passeando
em New York.
Já Washington D.C. é outro
mundo. Uma cidade bonita, com calçadas
largas para se caminhar no centro e que,
nos bairros mais periféricos, abriga
casinhas lindas. Na capital norte-americana,
uma das primeiras coisas que me chamaram
atenção é a diversidade:
como tem gente diferente. Em dois órgãos
públicos que visitei cruzei com pessoas
de várias origens: Índia,
Paquistão, China, Japão, Vietnam,
Bolívia, Irã, Alemanha, Portugal...
a maioria já nascidos nos EUA, naturalizados
ou com o famoso green card. Como a simpática
Akua, uma neguinha bonita, sorridente, simpática
e esperta nascida em Washington, que é
funcionária pública e nos
contou que os pais nasceram em Gana e que
o irmão está lá, de
férias, curtindo feliz da vida o
calor africano, enquanto ela segue sobrevivendo
ao frio de 3 graus. Fiquei com a impressão
de que os Estados Unidos, em sua própria
capital, estão perdendo sua identidade
física nacional. Até tem norte-americanos
legítimos, negros e brancos, mas
estão cheios de “aliens”
infiltrados entre eles...
Aliás, parece que todos os motoristas
de táxi em Washington são
paquistaneses. É impressionante,
eles devem ter dominado o negócio
de táxis na cidade. Um deles, taxista
informal, dono de uma poderosa van que contratamos
para nos levar ao aeroporto, todo bem vestido
de terno fashion, com a barba cortada
num estilo moderninho, atendia pelo nome
peculiar de Bilal... se fosse no Brasil...
Outra coisa que me chamou a atenção:
como tem gente gorda em Washington. Gorda
mesmo, de 100 quilos pra cima. Homens e
mulheres, negros e brancos, adolescentes
e maduros. E, me parece, mais negros do
que brancos gordos. Será? Pode ter
sido apenas impressão minha. Mas
o negócio é que a ideologia
do supersize pegou na capital norte-americana.
Pudera... eles têm mania de grandeza
em tudo, a alimentação não
é exceção. No Starbucks
ou em qualquer lanchonete, um copo “small”,
pequeno, já é um copo grande.
Você se senta num restaurante e imediatamente
um garçom enche um copão de
água à sua frente. Nas ruas,
só tem carros grandes, rabo de peixe
e com um capô enorme... todos os táxis
são assim.
Essa misturada racial combinada com excesso
de gordura traz um resultado estético
ruim. Vi poucas mulheres bonitas em Washington.
Elas existem, é verdade, branquinhas
e sorridentes, sempre simpáticas,
mas se perdem em meio ao caldeirão
de origens.
Outra coisa curiosa em Washington: muita
gente correndo e andando de bicicleta, mesmo
com um frio de rachar. Eu, que adoro pedalar
pela Lagoa, fiquei pensando se agüentaria
aquele vento gelado cortante no rosto em
uma bike pelas ruas de Washington.
De moto então, deve ser o inferno
congelante em duas rodas. Mas os washingtonianos
andam de moto sim senhor. E sobrevivem.
Como diria Lombardi, “Sílvio,
isto é incrível!”.
Já em Ottawa (pronuncia-se ótaua),
as mulheres locais também são
branquinhas e lindas, mas abundam em relação
às “aliens”
(atenção: na língua
norte-americana, alienígena não
é apenas um ET, é também
outro nome dado aos estrangeiros).
Além disso, são mais elegantes.
Como tem gente bonita em Ottawa.
O Canadá é um país
muito curioso, a começar pelo fato
de que tem duas línguas nacionais,
o inglês e o francês, e todo
mundo fala as duas. Chic, não? Ottawa
tem, do outro lado do rio, a cidade de Quebéc,
assim como Niterói está para
o Rio de Janeiro. Só que em Ottawa
se fala predominantemente inglês,
enquanto em Quebéc o francês
é a língua nativa. Mas tem
um quê de moda francesa nas duas.
As pessoas se vestem com estilo, o bom gosto
predomina na arquitetura e na decoração,
as duas cidades são lindinhas. Até
os elevadores são pequenas obras
de arte. E as pessoas são simpaticíssimas
e bem alegres, apesar do frio de rachar.
E o Rio, meu Rio de Janeiro? Está
longe, muitas horas de vôo longe daqui...
e que saudades do samba do Semente, do calorzinho,
do suco de fruta de conde gelado na madrugada
do BB Lanches, do pôr do sol em Ipanema,
do agito da Lapa, do bolo de laranja da
Argumento (o melhor do Rio). Em Washington
um espertinho montou um restaurante chamado
Grill of Ipanema, trocadilho terrível
com a longíncua Garota de Ipanema...
triste maneira de lembrar do Brasil, né?
E aqui não tem nenhuma mulher de
biquíni, com bunda suculenta e requebros
febris.
Belezas humanas, naturais, arquitetônicas,
culturais e outras mais existem em todos
os lugares. Mas depois de um tempo longe
daí, dá uma saudade da nossa
bagunça carioca e brasileira, tão
linda e gostosa...
E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br
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