Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Apesar de tudo...

Uma camiseta que cruzou meu caminho no meio do carnaval deu a dica para esta crônica. Vestida numa mocinha, dizia: “Apesar de tudo, o Rio continua lindo”.

Eu vivo repetindo algo parecido para amigos de outros estados sempre que me perguntam como vai a Cidade Maravilhosa: “O Rio de Janeiro continua lindo, apesar dos pesares”. Em outras palavras, apesar do desgoverno, dos maus tratos, do abandono, dos fatos lamentáveis, da violência e de tudo mais de ruim que tenta destruir a cidade que eu e tantos cariocas e não-cariocas amamos de paixão.

O Rio padece, há alguns anos, de desgoverno crítico. Falta de planejamento urbano, autoridades e políticos incompetentes, corrupção no serviço público, bandidagem pintando e bordando, esvaziamento econômico. Já tem até uma CPI da Desordem Urbana na Câmara Municipal. Faz sentido: a cidade está permanentemente suja e esburacada, com seus canteiros, praças e jardins mal cuidados, sem segurança para o turista e para os próprios cariocas. Sinto como se há muito tempo não tivéssemos prefeito nem governador.

Mas não vou perder tempo aqui chateando minha meia dúzia de leitores com as mazelas cariocas. Melhor falar do que é bonito demais no Rio de Janeiro.

O Rio que continua lindo é aquele que aplaude o pôr-de-sol na Praia de Ipanema todo verão. É verdade que as chuvas têm complicado um pouco esse hábito tão bonito, mas o que importa é o espírito da coisa: o carioca Zona Sul agradece à natureza por tão belo espetáculo. Alguns acham isso tolice, mas não tem gente que agradece a Deus por tanta coisa? Então, palmas para o pôr-de-sol, que ele merece!

O espírito do Carnaval de rua é outra coisa que torna o Rio lindo. Por esses dias saiu uma pesquisa de algum instituto mostrando que a maioria dos cariocas não gosta de carnaval. Como diz a coluna do Ancelmo Góis, “é, pode ser”. É verdade que a falta de administração municipal do Carnaval de rua carioca deixa moradores à mercê de xixi de folião e sujeira a mil na porta de casa, entre vários outros transtornos e desconfortos. Imagine, por exemplo, se você mora na Praia de Copacabana, no Posto 6, e é acordado às 9h de domingo pela bateria e carro de som do Monobloco, como acontece no primeiro domingo depois do carnaval. O Mono é sensacional, de emocionar qualquer amante de uma boa bateria, mas é sacanagem deixá-lo acordar toda a vizinhança desse jeito.

Em compensação, há alguns milhares de cariocas legítimos que tiram dinheiro do próprio bolso e aplicam todo seu carinho e suor para botar um bloco na rua e produzir pequenas usinas de felicidade ambulantes para milhões de foliões. Um carnaval barato, gostoso, livre, democrático e feliz, onde ninguém precisa desembolsar R$ 500 por uma fantasia ou abadá para se divertir. Basta entrar no cortejo e ser feliz. Graças à turma que bota o bloco na rua.

O Rio de Janeiro suburbano também é lindo. É um barato de ser ver como a população pobre é criativa para inventar formas de se divertir em meio ao abandono da prefeitura – e é abandono mesmo, basta andar de carro pelas ruas de Olaria e Madureira para comprovar que elas são muito mais esburacadas que as da Zona Sul.

Se não tem dinheiro para ir numa boate ou num show para a classe média, onde se paga R$ 30 ou R$ 40 só para entrar, cria-se um baile funk, monta-se uma roda de samba no boteco, inventa-se um bloco de sujo, leva-se a família para um passeio na Quinta da Boa Vista, ou vai todo mundo à Candelária para ver as exposições, shows e peças teatrais do Centro Cultural do Banco do Brasil – nosso querido CCBB, que começou como um point da elite intelectualizada e hoje está repleto de povão. Como já dizia Arnaldo Antunes, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Nossa gente carioca assina embaixo.

Que o diga o Afroreggae, outra expressão desse Rio de Janeiro lindo. Um grupo cultural, de ação social e integração da juventude pobre de Vigário Geral que usa a arte para afastar adolescentes pobres da violência e do crime e já está exportando sua “tecnologia” de combater a falta de opções de felicidade através da música, da dança, do teatro e, das artes plásticas.

Falar na beleza geográfica e urbana do Rio é até covardia. Praias, montanhas, os Arcos da Lapa, Santa Teresa, o caminho do Alto da Boa Vista, o Largo do Boticário, o Copacabana Palace, os cartões postais do Corcovado e do Pão de Açúcar, a Lagoa, a Igreja da Penha, o Maracanã, o Aterro do Flamengo, o Teatro Municipal, a quadra da Portela. Até o pôr-de-sol da Barra (aquele bairro que ainda não decidiu se quer ser Miami, Brasília, Tijuca ou São Paulo) é lindo de se ver.

Tem a beleza humana também. Como tem mulher bonita no Rio, até algumas feias são lindas... Deve ter homens bonitos também, mas confesso que não reparo muito, eles estão fora de meu target. As mulheres cariocas, porém, são tudo de bom. Vivem reclamando dos homens, e da falta deles, mas são lindas, gostosas, interessantes, rebolantes, charmosas e tudo mais. Sou defensor da poligamia a la Arábia Saudita, adoraria ter quatro mulheres cariocas só para mim.

Infelizmente, o Rio de Janeiro tem muitos pesares e quem vem de fora morar aqui ou apenas passear precisa, com certeza, de alguns conselhos de cariocas do bem para não cair numa roubada. Mas com um mínimo de orientação, a grande maioria dos paulistanos, mineiros, gaúchos, baianos, capixabas, paraibanos, italianos, norte-americanos, franceses, chineses, japoneses, argentinos, bolivianos e tantos outros “anos” acaba se apaixonando pela cidade e pelo seu jeito bermuda, camiseta e sandália havaiana de ser.

Tom Jobim, que nos deixou de herança uma das músicas mais lindas, o “Samba do Avião” (“Minha alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudades...”) encontrou uma forma enviesada e carioquíssima de explicar a tese de que o Rio de Janeiro continua lindo, apesar de tudo. Quando lhe pediram para comparar o Rio com New York, onde ele já morava metade do ano no final de sua vida, nosso Tom maior respondeu: “New York é bom, mas é uma merda. O Rio é uma merda, mas é bom”.

Entendeu? Não? Então é sinal de que você ainda precisa de mais algum tempo na Cidade Maravilhosa. Porque é simples como a música: “Rio de Janeiro, gosto de você, gosto de quem gosta desse céu, desse mar, dessa gente feliz...”.

E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br








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