Meu Rio
PH de Noronha
 
 

A cidade dos batuqueiros

Em mais de 2,5 mil municípios brasileiros a população não chega a 10 mil habitantes.

Mas no Rio de Janeiro, não é absurdo dizer que existem mais de 10 mil batuqueiros no município. Ou seja, temos uma cidade de batuqueiros. Se bobear, mais de uma. Provavelmente nenhuma outra cidade brasileira, nem mesmo Salvador, possui tantos batuqueiros.

É preciso explicar: batuqueiro é todo cidadão ou cidadã que toca em alguma bateria de escola de samba, bloco, oficina de percussão ou grupo de samba ou pagode.

(Ora, direis, samba e pagode não são a mesma coisa? Um ex-chefe meu gostava de citar uma frase de um sábio diretor de banco, já falecido: “Há que se distinguir entre o ser humano e a criatura”. E não vamos nos desviar para prolongar essa pendenga samba x pagode.)

Chegar a essa conta de mais de 10 mil batuqueiros é fácil. Só no grupo especial do desfile oficial do carnaval do Rio, há 12 escolas de samba. Em média, cada uma tem uma bateria com pelo menos 250 componentes – 12 vezes 250 e só aí já são 3 mil percussionistas. Nos grupos A, B e C, são mais 38 escolas, e o número médio de componentes da bateria cai para 200. Feita a conta, mais 7,6 mil batuqueiros, totalizando, até agora, 10,6 mil seres percussionistas. A isso somamos 22 escolas dos grupos de acesso D e E, com pelo menos 100 integrantes na bateria, e chegamos a quase 13 mil batuqueiros.

Temos ainda escolas de samba mirins, rodas de batucadas várias, blocos de rua e uma categoria muito específica, da qual eu faço parte, que são os blocos de carnaval que possuem bateria própria, normalmente com oficinas de maio a fevereiro, onde os batuqueiros aprendem a tocar para o carnaval.

Esses últimos são uma típica invenção carioca. Os pioneiros foram Pedro Luís e Celso Alvim, com o Monobloco, e Rodrigo Maranhão, André Moreno, Dudu Fuentes, Thiago di Sabbato e André Bava com o Bangalafumenga. Isso lá pro final dos anos 90.

A idéia é simples: pega-se a formação tradicional de uma bateria de escola de samba – com surdos de 1ª, 2ª e 3ª, repique, caixa, rocar, tamborim, agogô e cuíca – e cria-se arranjos para tocar não apenas samba, mas também coco, reggae, ciranda, frevo, maracatu, jongo, mangue beat, funk. Uma verdadeira bateria pop, tocando música brasileira popular de artistas consagrados – como Chico Science, Alceu Valença, Lenine, Geraldo Azevedo, Tim Maia, Jorge Benjor, Ultraje a Rigor, até Roberto Carlos – e de novos grupos e compositores, como Pedro Luís, Rodrigo Maranhão e Edu Krieger.

Para formar a bateria, o Monobloco primeiro, e logo depois o Banga, montaram oficinas de percussão. Passam vários meses ensinando e treinando a garotada (e alguns não tão garotos assim) a tocar seu instrumento e a aprender os arranjos de cada um. O resultado é um sucesso só, quem ouve não fica parado. Vejam as músicas mais votadas numa enquete em uma das comunidades do Bangalafumenga no Orkut: “São Gonça”, do Farofa Carioca; “Ciranda do Mundo”, do Edu Krieger; “Maracatu atômico”, de Gilberto Gil, popularizada por Chico Science & Nação Zumbi; “Anunciação”, de Alceu Valença; e “Santa Clara”, de Jorge Benjor.
Monobloco e Banga são os pais de um estilo que está para ganhar um nome específico – ainda não foi categorizado. Deles, nasceram o Empolga às 9, que reúne alguns ex-batuqueiros do Monobloco e faz do teatro Odisséia sua principal base de shows; e o Quizomba, que ensaia no Circo Voador e tem como mestre de bateria André Schmidt, um dos principais mestres também do Monobloco. Mais recentemente, temos as Mulheres de Chico, que só tocam repertório de Chico Buarque com uma bateria formada só por mocinhas, boa parte delas oriunda de blocos como o Mono e o Banga.

Saindo da linha Mono-Banga, temos blocos-oficinas que tocam basicamente samba, como o Fina Batucada (só de mulheres) e o Escangalha, que fará sua estréia este ano. Há outros específicos, como o É do Pandeiro!, que toca com uma bateria formada só por pandeiros (a Pandeiria) e que já vai para seu sexto carnaval; e o Bloco dos Tamborins, de quem ando com poucas notícias, mas que me parece que continua na ativa.

Já em Santa Teresa surgiu esse ano o primeiro bloco latino-americano de carnaval, o Songoro Cosongo, que tem sopros que muitas vezes lembram uma charanga boliviana. E Robertinho Silva – um gigante da bateria brasileira, um dos maiores percussionistas do mundo – continua à frente de seu projeto Batucadas, que forma adolescentes pobres da Gamboa em percussionistas.

Vale registrar também o trabalho do Afro-Reggae, recrutando adolescentes de grandes favelas cariocas para o mundo percussivo, e o Rio Maracatu, que juntamente com seu filhote, o Maracutaia, cultiva a versão carioca do tradicional ritmo de Pernambuco, realizando cortejos na Praia de Ipanema e em Santa Teresa e “arrastões” (cortejos mais simples, para os alunos das oficinas treinarem tocando na rua) a cada 15 dias na Lapa. Ano passado, o Lapada, grupo-show do Rio Maracatu, lançou seu primeiro disco e já ganhou o Prêmio TIM de Música de Melhor CD na categoria Regional. O CD é muito bom mesmo, não me canso de ouvir.

O batuque carioca tem origem nos terreiros de macumba, nos morros da Saúde e Gamboa, na antiga Praça Onze, no Estácio de Sá, e nos subúrbios de Oswaldo Cruz, Madureira, Bento Ribeiro. Fortaleceu-se na famosa bateria de Mestre André da Mocidade Independente de Padre Miguel, nos malabarismos de Seu David do Pandeiro, da Velha Guarda da Portela, no ritmo afro-brasileiro de Carlos Negreiros, nas mãos de Marcos Esguleba, uma fera em todos os batuques, na arte de Marcos Suzano, que revolucionou o pandeiro na MPB, e nas caixinhas de fósforos batidas de forma sensacional por craques como Cyro Monteiro e Elton Medeiros.

E tome batucadas.

“O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada...”
“Batuque na cozinha que sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé...”
“Bum-bum-paticumbum-prugurundum, o nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí...”


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