Meu Rio
PH Noronha
 
 

O dia que descobri o Belmonte

Tenho um grande amigo, ex-comunista, ótima figura, que é um purista radical em algumas coisas – umas saudáveis, outras xiitas demais para meu gosto. Por exemplo, ele se recusa a frequentar botecos de franquia, como Devassa, Botequim Informal, Conversa Fiada e tantos outros. Ele gosta, e muito, daqueles botequins e bares originais, como o Jobí, que ainda não caiu nessa tentação franqueadora de marcas, chopes e petiscos. Meu temor é que daqui a pouco ele não tenha mais boteco para frequentar, porque realmente as franquias ameaçam acabar com as chances de sobrevivência dos tradicionais (os não-franqueados), da mesma forma que os shopping-centers fulminaram milhares de lojas de rua. É a lei do mais forte aplicada ao comércio, coisas do capitalismo.

Eu nunca fui freqüentador do Belmonte até uns quatro anos atrás. Já tinha ouvido falar da fama do boteco original, na Praia do Flamengo, havia reparado que estava sempre cheio com gente em pé na calçada, mas não era uma área que eu frequentasse muito. Acabei indo parar lá depois de uma noite de samba no Semente, na madrugada de domingo para segunda, porque me toquei que ele ficava no caminho de casa. Gostei, logo de cara. Em primeiro lugar porque às 2h da madrugada ele não fica tão cheio e é fácil conseguir uma mesinha para se comer. Some-se a isso uma descoberta ótima: o Belmonte tem bom cardápio de sopas, baratinhas e deliciosas, e que são servidas em quantidade pequena, ideais para se forrar o estômago sem pesar, garantindo melhores horas de sono depois da noitada.

Virei freguês e em várias idas, experimentei o caldo verde, a minestrone, a de camarão com gengibre (essa o dobro do preço das demais), a de palmito, mas minha predileta continua sendo a canja de galinha com hortelã. Ela é bem feita e deliciosa. Quando comecei a frequentar, lá pra 2005, custava módicos R$ 6. A sopinha inflacionou e hoje está em torno de R$ 10. Ainda bem em conta. Outra coisa que curto lá é o pudim de leite, com aquela indefectível ameixa no topo. Não é o mais gostoso que já comi (o da Fiorentina dá de dez a zero...) mas é bom.

Depois passei por outros Belmontes. O da General Osório parece ser um pouco mais descuidado que os outros, não me agradou muito. O da Dias Ferreira, no Leblon, está sempre cheio, não me atrai. E lá tive uma experiência ruim na primeira vez, logo depois que inaugurou. Estava sozinho, pedalando por lá, pedi um estrogonofe de camarão, alguns chopinhos, a sobremesa e o cafezinho, a conta saiu um pouco salgada, R$ 66, e ao pagar descobri que eles não aceitavam cartão e eu estava sem cheque. Resultado, foi-se todo o dinheiro que eu tinha na carteira, obrigando-me a passar num caixa 24 horas, quase tive que lavar pratos... Nada grave, mas gerou um desconforto. Afinal, todo restaurante que se preze aceita cartão de crédito – com exceção da Trattoria da Rua Fernando Mendes, em Copacabana, uma típica cantina italiana que vale a pena o sacrifício, as massas de lá são ótimas. Mas nunca mais voltei nesse Belmonte do Leblon.

Não sei por que cargas d’águas, acabei demorando para descobrir o Belmonte mais perto da minha casa, o do Jardim Botânico. Sempre passava por lá, mas nunca parava. Até que há uns três meses resolvi tomar uma canja lá. Antes de mais nada, tive a grata constatação de que o sabor é o mesmo da canja do Belmonte da Praia do Flamengo. Além disso, a franquia do Jardim Botânico é muito agradável, é grande e tem várias mesas junto da rua. E não fica tão cheio quanto os outros – exceto, claro, nas noites de badalação, como sexta e sábado.

Passei a frequentar mais e experimentar outros pratos. Pedimos um peixinho com molho de camarão e veio um prato muito honesto. Experimentamos o risoto de camarão e estava excelente, deu pra duas pessoas e ainda sobrou uma quentinha pro jantar. Os preços são justos, é possível pedir pratos para duas pessoas entre R$ 40 e R$ 60 e o cardápio tem uma variedade enorme de opções. Ontem fui lá ver o jogo do Fluminense contra o Corinthians e perguntei ao maitre se eles tinham vinho tinho em meia garrafa. Em 1 minuto ele me aparece na mesa trazendo nada menos que sete vinhos portugueses em meia garrafa para eu escolher, todos resfriados na pequena adega eletrônica do lugar. Aliás, os garçons de lá são atenciosos e rápidos, gosto do serviço deles.

Para ver jogo, esse Belmonte do Jardim Botânico também é boa opção. Tem duas TVs e às vezes, como ontem, passa um jogo diferente em cada uma: o do Fluminense estava na TV da frente, que tem pay-per-view, e o do Flamengo na LCD dos fundos.

Outra coisa bacana que me atrai para lá é que no horário que eu costumo almoçar nos fins de semana, entre 14h e 17h, ele está sempre vazio, com pouca gente e muitas mesas disponíveis. Só tivemos problema nesse horário uma única vez. É que, por azar, tinha três mesas com fumantes estrategicamente sentados junto à rua, que é o lugar mais agradável para se sentar, e fomos obrigados a ir para o fundo, pois o futum tabacoso da “esquadrilha da fumaça” estava demais para nossos olfatos sensíveis de não-fumantes.

A propósito, quando é que vão proibir de vez o fumo em restaurantes, mesmo naqueles abertos? A fumaça de cigarro não combina nadinha com um bom prato de comida. É muito desagradável. Acho até que dá para se criar áreas de fumantes em alguns restaurantes. Desde que a fumaça não invada a mesa dos não-fumantes. Esse papo de proibição do cigarro é chato mesmo, fica uma coisa repressora. Odeio cigarro, mas respeito o direito de o cara fumar o que ele quiser – desde que, por favor, não jogue fumaça na minha cara. Já temos proibições demais, com muito choque e pouca ordem. Mas eu também tenho direito de respirar um ar sem fumaça de cigarro.

Então, enquanto cada um fica no seu quadrado, vou catando meu cantinho sem fumaça no Belmonte do Jardim Botânico pra tomar minha canja com hortelã. Como dizia o Fittipaldi naquele anúncio, “eu recomendo”...

Ah, na última crônica eu prometi que iria no sarau e contaria para vocês. Pois é, ainda não consegui ir, vários contratempos... mas um dia eu chego lá e conto tudo. Promessa é dívida.


Paulo Henrique de Noronha é jornalista

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