 |
O
sexo e a cidade carioca (1)
Ainda não consegui ver “Sex
and the City” nos cinemas. Xexéo
disse na revista “Domingo”,
d’O Globo, que o filme está
fraco, mas conheço gente que viu
e gostou. Ainda vou ver, com certeza. Gosto
das 4 meninas quarentonas com jeito de balzacas
– curto as atrizes, as personagens
e as histórias. Adoro o humor norte-americano
que é inteligente e não descamba
para o pastelão juvenil óbvio.
Um bom exemplo em cartaz nos cinemas é
“Agente 86” – não
deixam de ver, está muito, muito
engraçado!
Semana passada peguei um daqueles livretinhos
promocionais que as editoras estão
distribuindo agora nas livrarias, com a
introdução e um capítulo
dos livros que lançam (aliás,
uma ótima idéia de marketing).
Era justamente do “Sex and the City”,
o livro original, de Candace Bushnell. Gostei
das primeiras páginas, texto inteligente,
nada espetacular, mas gostoso de ler. Curiosamente,
“Sex and the City” fala pouco
de sexo, é muito mais centrado nas
desilusões, desencontros, perdições
e anseios do amor e da paixão na
cidade de New York. Mas não é
uma história de sexo. O sexo propriamente
dito é ator coadjuvante. As meninas,
no fundo, querem é amar. A única
exceção é a Samantha,
a loura fogosa que só pensa em sexo,
cultivando um discurso meio masculino de
que uma boa trepada vale mais do que se
estressar por uma paixão. Mas ela
também é exceção,
a série trata é de amor e
paixão.
Fiquei imaginando se a autora vivesse
no Rio e se Carrie, Samantha, Charlote e
Miranda fossem cariocas. Teriam muitas,
muitas histórias super-interessantes,
só que certamente mais recheadas
de sexo do que as originais new-yorkinas.
O Rio respira e transpira sexo, por mais
igrejas evangélicas e universais
do reino de deus que se abram a cada esquina.
É uma coisa curiosa como a cidade
tornou-se assim, eu teria que pedir ajuda
aos universitários de História
e Antropologia Cultural, porque não
sei explicar. Mas fato é que o sexo
virou uma coisa do dia-a-dia do carioca,
que cada vez mais ele interpreta como uma
coisa óbvia e natural. Afinal, estamos
falando da terra do fio dental, dos programas
infantis da Xuxa que excitavam a imaginação
sexual dos pais das crianças, da
genitália mal coberta nos desfiles
das escolas de samba, da dança do
créu e de telenovelas assistidas
diariamente por toda a família onde
o que mais rola é traição
em meio a inúmeras paixões
com muito sexo sugerido.
Resgatando minhas memórias de infância,
lembro que meus primeiros contatos com sexo,
nos anos 60, já denunciavam a cultura
sexista carioca. Em verdade, quando eu era
pequeno o grande Nelson Rodrigues já
contava histórias incríveis
que ele inventava, inspirado pelo cotidiano
da cidade, onde se praticava sexo bizarro
(para a época), muitas vezes com
manchas de sangue e loucuras mis. Mas todas
elas inspiradas na tradicional dor de cotovelo.
Ou seja, alguém é apaixonado
por alguém e de repente descobre
que esse alguém não o ama
mais, ou o ama sem a devoção
esperada, buscando a satisfação
maior em aventuras sexuais. E aí
nasce um corno, ou uma corna, porque já
em 1960 ninguém conseguia ficar sossegado
apenas com o cônjuge – tinha
que transar com a vizinha, com o Ricardão,
com a cunhada, com o colega de trabalho.
Era uma inquietação e insatisfação
sexuais permanentes, atazanando a vida dos
casais.
A fixação no sexo já
era presença constante na minha infância
em Ipanema. Eram os primeiros anos após
o golpe de 64. Amiguinhos meus tentavam
transar com gatos de rua escondidos nos
fundos da vila, na varanda de uma casa vazia
que ficava na escuridão. Todos tentavam
ver irmãs, primas e tias peladas
pelo buraco das fechaduras. Também
sonhávamos em pegar as meninas mais
saidinhas ou a irmã mais gostosa
de alguém.
Mas foi no vetusto Colégio Santo
Inácio, nos tempos em que mulheres
não eram admitidas e as classes eram
repletas de meninos reprimidos, que vi minhas
primeiras imagens de sacanagem. Isso foi
ali pra 1969, 70. O tio de um colega de
turma era fotógrafo da revista “Fairplay”,
recém-lançada. Era uma revista
onde se fotografava as mulheres sem mostrar
a parte de baixo, a censura da ditadura
só permitia os seios – pelos
pubianos e a vagina propriamente dita eram
totalmente proibidas e, às vezes,
tinham que ser cobertas por tarjas pretas.
Esse colega ganhou do tio uma cópia
em xerox de uma revista dinamarquesa. Fomos
pra um dos andares do fundo do colégio,
junto ao campo de futebol, que ficava vazio
na hora do recreio, para saborear aquela
cópia em preto e branco de baixíssima
resolução. Fiquei impressionadíssimo,
tinha umas fotos de duas mulheres gostosas
fazendo sexo entre si e com um cão
pastor alemão e até com um
porco.
Em verdade, todos nós queríamos
saber mais sobre sexo e, principalmente
começar logo a viver aquela coisa
proibida e cheia de mistérios. E
isso entre meninos das mais respeitadas
famílias cariocas, que iam à
missa todo domingo e tinham aula de catequese,
nos seus “inocentes” 10, 11
anos de idade. Depois de algum tempo comecei
a descobrir muita hipocrisia naquele colégio
tão moralista. O ápice aconteceu
quando eu já estava nos 16 anos e
um inspetor descobriu o filho de um dos
maiores empresários imobiliários
da cidade, um louro riquinho, transando
com a menina da biblioteca atrás
da estante de livros. A funcionária
foi sumariamente demitida, mas o aluno rico
ganhou um mês de suspensão,
que ele passou folgadamente na casa da família
em Cabo Frio...
Naquela época, aí já
início dos anos 70, o sexo era um
dos motores de nossa vida carioca Zona Sul,
dentro e fora do Santo Inácio, embora
eu ainda não transasse com ninguém.
Os primeiros filmes pornôs, meus colegas
assistiam semanalmente (eu nunca tive coragem
de ir...) num cinema poeirento e desconfortável
chamado Jussara, na Rua Jardim Botânico,
onde os (ir)responsáveis deixavam
entrar qualquer adolescente de 13 anos que
tivesse dinheiro para a entrada. A programação
da casa eram os filmes pornográficos
mais trash da época. E o pessoal
contava que na platéia se via homens
se masturbando nas cadeiras, gays transando
e coisas do gênero.
Outros já começavam a partir
para as vias de fato no sexo, mesmo tendo
ainda 15, 16 anos. Um colega, grande figura,
me contou recentemente detalhes de como
ele conseguiu comer várias empregadas
domésticas e outras meninas pobres
que freqüentavam os cursos noturnos
do Santo Inácio. Esses cursos são
tradicionais, e super importantes para os
adolescentes pobres do Morro Dona Marta
e outras comunidades carentes da Zona Sul.
São cursos de primeiro e segundo
graus que ocupam as salas do Santo Inácio
à noite, quando não tem mais
criança rica por lá. Alguns
alunos e professores são voluntários
para dar aula lá. E as turmas são
cheias, até hoje, pois os cursos
têm qualidade e são gratuitos.
Pois esse meu amigo, que morava bem perto
do colégio, me contou que ia lá
várias noites na semana e ficava
rondando as meninas na saída do curso.
Puxava papo e quando dizia que era aluno
do Santo Inácio dos ricos, do turno
da manhã, os olhinhos das garotas
logo brilhavam e, papo vai, papo vem, depois
de alguns dias começava a sair e
já levava a menina para a cama. Feito
raríssimo entre nós, que morríamos
de inveja...
Numa dessas, quando a mãe estava
viajando, levou a garota para sua própria
casa e lá aconteceu uma cena digna
de Nelson Rodrigues: a menina acabou se
empolgando no fuque-fuque e, de repente,
a dentadura dela foi parar debaixo do sofá,
que ele teve que arrastar com dificuldade
para recuperar a peça dentária
e acabou quebrando algum vaso que a mãe
gostava.
Noutra feita, levou a moça para
transar num terreno baldio atrás
de um muro que existia naquela curva no
final da Eduardo Guinle, hoje tomada de
prédios. Aquele pedaço de
chão era seu motel barato particular,
várias garotas do cursinho sucumbiram
ali aos seus encantos. Até que um
dia, no auge da coisa com uma estudante
fogosa, de repente o muro desabou, uma grande
barulhada, pedras voando pra todo lado,
poeira à bessa, uma coisa violenta
e inesperada. Um carro desgovernado saiu
pela tangente da curva e entrou muro adentro
destruindo tudo. Os escombros caíram
a uns dois metros de meu amigo, pegando-o
literalmente de calça arriada, quando
fazia sexo gostoso com a menina. Foi o maior
susto da vida dele. Brochou na hora. Saiu
correndo para colocar a roupa e dar o fora
rapidamente da cena do “crime”.
Uma coisa que era comum entre os alunos
do Santo Inácio naquela época
era o pai dar dinheiro para que eles tivessem
sua primeira experiência sexual no
puteiro da Casa Rosa da Rua Alice –
que hoje é concorrida casa de música
freqüentada por outra garotada. Já
soube também de alguns que conseguiram
a primeira transa com empregadas domésticas
e de um caso, incrível, em que o
pai ofereceu dinheiro para a empregadinha
da casa dar para o filhão perder
seu cabaço. E ela deu, inundando
nossa imaginação com a idéia
de que as moças pobres davam mais
facilmente que as ricas.
O sexo, mais do que o amor, sempre esteve
no ar da infância e adolescência
Zona Sul naqueles anos 60 e 70. E tenho
certeza de que o mesmo acontecia, de forma
diferente, na Zona Norte e nas favelas da
cidade. O Rio respira e transpira sexo,
e não é de hoje.
Na próxima crônica vou continuar
nessa tese e falar de um equipamento essencial
nesse jogo sexo-amoroso do carioca –
o carro. E vou tentar ver o filme. Até
lá!
Paulo Henrique de Noronha é
jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem
para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
|
 |