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Dançando
na rua
Desgraçadamente só consegui
passar um carnaval na Bahia, no ano de 1993,
quando Daniela Mercury estourava para o
Brasil e o Olodum fervia nas ruas de Salvador
com o genial samba-reggae “Avisa lá
que eu vou chegar mais tarde, mulher...”
– uma frase que sintetiza o compromisso
baiano com a preguiça e o descompromisso.
Depois de ser atropelado por uma lambreta,
no sentido gastronômico da coisa (lambreta
é uma delícia, se for a Salvador,
não deixe de comer, o problema é
que eu e o azeite de dendê temos uma
incompatibilidade de gênios fortíssima...),
passei quatro dias de carnaval baiano na
Praia do Forte, onde desfilaram dezenas
de blocos, 24 horas por dia. Lá,
uma coisa me impressionou fortemente: todo
baiano dança, no ritmo ditado pela
moda carnavalesca do ano. E naquele 1993
o ritmo era o samba-reggae do Olodum, com
sua dança-do-soco-no-olho –
que, como o nome já diz, é
melhor não ficar muito perto de um
baiano dançante pois arrisca a ficar
de olho roxo... Eu consegui não levar,
mas dancei muito com a baianada.
Quando começava a música
oloduniana, todo mundo, literalmente, dançava
aonde estivesse. Criança, velho,
pobre, rico, madame, empregada, lindas,
mocréias, machões, gays, eu
olhava para os lados e todos, sem exceção,
dançavam a mesma coreografia, ninguém
ficava parado. Olhei para um clube militar
no caminho dos trios elétricos, e
lá na sacada vi senhoras, senhores,
adolescentes e crianças dançando,
só não tinha ninguém
de farda, mas eu tenho certeza de que no
quartel a turma estava se mexendo também.
Não consegui ainda passar um carnaval
em Recife, mas dizem que lá também
a galera cai no frevo e no maracatu de rua,
sem a menor cerimônia. Já em
São Paulo acho que dança na
rua não rola não...
Senti esse espírito brasileiro
dançante bem vivo no Rio no último
sábado.
Curioso é que o carioca, musical
e dançarino até o fundo da
alma, perdeu um pouco de seu espírito
de dança de rua no carnaval. Está
difícil dançar nos blocos,
cada vez mais lotados de gente. Além
disso, o carnaval está cada vez mais
para pular de qualquer jeito, soltar os
bichos, do que para dançar. A coreografia
se perdeu, o samba no pé também.
Mas isso não significa que o Rio
não dance na rua. Pelo contrário.
O carioca não pode ouvir um ritmo
que sai rebolando e balançando o
corpo até cair na dança com
nenhuma cerimônia. Só que em
termos de coreografia padrão, acho
que a única que ainda reina por aqui
é o funk. (A propósito,
quem ainda não viu a “Dança
do Quadrado”, não perde por
esperar, veja a versão mais popular,
do Kibeloco, no Youtube, em www.youtube.com/watch?v=Ktgsn_G59os,
e também a mais recente, dos Deznecesssários,
brincando com a galera gay, em www.youtube.com/watch?v=QDPDe8gqmIE&feature=related).
Até pouco tempo rolava uma vez por
mês um baile de charme na Rua Álvaro
Alvim, aquela do Teatro Rival na Cinelândia.
Na rua mesmo, os caras botavam um sonzão,
sempre numa sexta-feira, e a turma ia lá
para swingar o corpo até altas horas,
dançando muito, esbanjando sensualidade
a céu aberto. Em Madureira, no calçadão,
dizem que rolam bailes direto na rua, do
pagode ao funk, passando pelo charme. E
de 15 em 15 dias, irregularmente, agora
tem o Samba da Calçada, na Rua Vicente
de Souza, nas tardes de sábado, onde
moradores de Botafogo e arredores praticam
o legítimo samba no pé em
torno de uma roda deliciosa, regada a churrasquinho
de R$ 2 feito pelo boteco do Seu Manoel,
que também fornece o combustível
alcoólico da turma.
Sábado passado teve novo arrastão
do Rio Maracatu pela Lapa e foi simplesmente
sensacional: a bateria e as dançarinas
cariocas que adotaram esse ritmo pernambucano
literalmente arrastaram uma pequena multidão
dançante. Tinha de tudo: turistas,
cariocas da noite, muitas crianças
de rua, mendigos, bêbados, gente pobre
da região, classe média passando
por lá, suburbanos curtindo a Lapa.
E a maioria caiu no embalo macumbeiro do
maracatu sem medo de ser feliz.
É muito engraçado. As mulheres,
mais desinibidas, foram as primeiras a começar
a dançar, juntamente com a criançada
e os mendigos da rua. Ninguém convidou,
as pessoas simplesmente viram a dança,
deixaram o ritmo das alfaias e do gonguê
(um agogô enorme) invadir sua alma
e saíram acompanhando os passos das
lindas dançarinas do Rio Maracatu,
comandadas dessa vez pelo mestre Marquinhos
– que tem um jeitão mais para
reggae baiano do que para o tradicional
maracatu de Pernambuco.
O Rio Maracatu sai sem carro de som, totalmente
acústico, com uma poderosa bateria,
que tem um batuque tão forte que
chega a disparar o alarme de alguns carros
estacionados em seu caminho. À frente,
as dançarinas da turma de alunas
que o bloco mantém na Fundição
Progresso. Elas vão de tênis
mesmo, calça ou bermuda, mas com
lindas e coloridas saias que, quando rodam,
são um espetáculo para os
olhos (sem contar que as mocinhas dentro
das saias, várias delas, são
outro espetáculo...). Quando entrou
na rua da Sala Cecília Meirelles,
já tinha uma pequena multidão
atrás das dançarinas. E todo
mundo seguia a coreografia direitinho, muito
embora alguns preferissem apenas soltar
o bicho dançante que tinham dentro
de sua alma inquieta, ignorando os passos
e até mesmo o ritmo. O importante
era chacoalhar o corpo e o espírito.
O arrastão do Rio Maracatu é
um um cortejo informal, que “arrasta”
as pessoas na rua e acontece ao longo do
ano. Foi programado para que os alunos possam
praticar tocando e dançando na rua
fora do carnaval, quando acontecem os cortejos
“oficiais” do bloco, em Santa
Teresa e na Praia de Ipanema. Costuma acontecer,
de forma irregular, de 15 em 15 dias nas
sextas-feiras. A concentração
(etílica) começa umas 20h,
em frente à Fundição
Progresso, e pouco antes das 22h sai o arrastão.
Vai em direção à Glória,
pela praça e calçadão
da Lapa, entra na rua da Sala Cecília
Meirelles, pega a Rua Joaquim Silva e segue
até os Arcos, quando então
volta ao ponto de partida.
É um belíssimo espetáculo
de cultura popular, gratuito, ótimo
para servir como “esquenta”
para a noite na Lapa. Para saber quando
vai acontecer, acompanhe a comunidade do
Rio Maracatu no Orkut. Quando chove não
rola, porque o couro das alfaias não
resiste à água. E tem também
a página do bloco na Internet, em
www.riomaracatu.com.
Para ter uma idéia do que estou falando,
veja as fotos que fiz do último cortejo
(seguido de show no Parada da Lapa) em picasaweb.google.com/phnoronha/RioMaracatuParadaDaLapa31052008?authkey=CEH08TDJRhY
Bom arrastão para todos!
Paulo Henrique de Noronha é
jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem
para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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