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Viva o Zé Pereira! Evoé Momo! Carnaval chegou!
Queridos leitores e leitoras, alvíssaras! O carnaval chegou na Cidade Maravilhosa! Não, não é como em Salvador, que, diz a lenda, tem 20 dias de carnaval... foram apenas dois dias, mas já é um prenúncio do que vem por aí.
O carnaval começou sábado com o desfile do Imprensa que eu Gamo, já tradicional bloco dos jornalistas cariocas, e da Banda de Ipanema, ainda mais tradicional.
Teve ainda um bloco novo com o estranho nome-pergunta na língua de Barack Obama: “Do you like brazilian music?”. Eu hein... e no domingo teve outro bloco que eu desconhecia, o ‘Calma Piranha’, na Visconde de Caravelas, em Botafogo. Na Praça São Salvador, o ‘Bagunça meu Coreto’ também fez carnaval. E fechando a noite dominical a grande final do concurso de marchinhas da Fundição Progresso, que é sempre delicioso!
Pessoal, não fui em nenhum deles. Acreditem, este folião profissional que vos escreve e que nos últimos dez anos sempre se esforçou para ser onipresente no maior número de blocos de rua do Rio, participou de um único evento carnavalesco no primeiro fim de semana de folia – subi o Morro da Conceição com a patroa para ensaiar e tocar meu surdo de primeira na bateria do bloco Larga a Onça, Alfredo (LOA para os íntimos).
Esse carnaval eu estou estranho mesmo, mas não estou morto. Quer dizer, estou morto de cansaço, tenho trabalhado e viajado muito e tá faltando tempo nas minhas noites para o samba e o carnaval. Sofro, mas não morri. Por uma série de razões, fui parar no Larga a Onça, Alfredo, que domingo que vem faz seu segundo desfile saindo da Rua Ipiranga (concentra na Maracatu Brasil, que fica em frente ao restaurante Severyna) lá pelas 16h, rumo à Praça São Salvador.
Perdi o Imprensa que eu Gamo. Bloco da minha categoria profissional, tenho dezenas de amigos lá, onde sou figurinha fácil todo ano. Já concorri por duas vezes na escolha do samba – e por isso, orgulhosamente, me incluo na ala dos compositores. Não fui no concurso de marchinhas, não consegui pegar o simpático Bagunça meu Coreto, perdi tudo. Mas estive no Larga a Onça!
A história do bloco é história de bêbado. Aliás, os “líderes” da agremiação carnavalesca são deliciosos biriteiros que já estão ali entre a duas e meia e a terceira idade, todos amigos meus. O Alfredo que deu nome ao bloco já está no andar de cima, que Deus o tenha. Não tive o prazer de conhecê-lo. O que me contaram é que, certa feita, estava ele com os amigos bebendo no Cosme Velho e depois do décimo-quinto copo ele viu alguma coisa se mexendo na mata e achou que era uma onça. Mais um tempo e ele some do bar, deve ter ido ao banheiro. Mas a turma não perdoou: concluiu que estava era agarrado com a onça no meio do mato. E alguém sacramentou: “Larga a onça, Alfredo!” Daí para a história virar um bloco bastaram mais alguns copos.
O LOA já está em seu segundo ano. É um típico bloco de sujo. No primeiro ensaio da bateria, não havia mestre. Éramos menos de dez percussionistas, alguns nem sabiam tocar. Faltei o outro ensaio por motivo de força maior e sábado agora tive a grata surpresa de ver que a bateria ganhou um mestre, um mestre de verdade. E tinha gente pacas, quase 30 pessoas tocando. Mas, para desespero do Mestre Rafael, a maioria ali estava mais preocupada em brincar do que em seguir suas orientações.
Mesmo assim, o ensaio, numa pracinha da Rua Jogo da Bola, perto do Bar do Serginho, no Morro da Conceição, foi ótimo – ao menos no quesito diversão. No final, fizemos um desfile pela rua apertadíssima ladeira acima até o bar do Serginho e voltamos, triunfantes. Saiu melhor do que a encomenda.
Antes, a turma do LOA fez uma coisa bem bacana. Juntou a criançada do morro na pracinha e levou material para eles fazerem máscaras de onça e outros apetrechos para saírem no bloco.
As alegorias... eram um caso a parte, um sincretismo cultural-global espetacular. O abre-alas foi de um boi-bumbá adaptado: no lugar do boi, a onça do Alfredo, uma onça-bumbá. E lembram daqueles dragões que os chineses usam em desfiles de seu ano novo, com várias pessoas dentro serpenteando ela rua? O LOA também tem o seu, só que não era um dragão chinês, era uma onça em formato de cobra, com crianças e senhoras dentro do corpo do bicho, só a cabecinha e as pernas de fora, fazendo sua bagunça no Morro.
Esqueci de falar... vocês conhecem o Morro da Conceição? É um lugar muito especial do Rio antigo, ainda bastante preservado. Um pedaço de Ouro Preto no Rio de Janeiro, com casinhas antigas e ruas apertadas de paralelepípedos. Só não virou uma favela porque lá em cima tem um forte do glorioso Exército Brasileiro, além da seção de cartografia militar. Os moradores são de baixa classe média e boa parte deles mora ali desde que nasceu. O ambiente é super agradável, crianças brincando na rua, vielas inacreditáveis, um oásis bucólico no Centro do Rio. Para chegar lá de carro tem que pegar a Rua do Acre pela Marechal Floriano e virar à esquerda na rua do edifício garagem e subir toda vida. Vale a visita.
O lugar tinha tudo a ver com o Larga a Onça, que retoma a tradição do carnaval de rua mais puro – um bando de amigos se reúnem, arrumam uns instrumentos e saem na rua pra fazer a folia. Dessa vez tinha até um “carro de som” inacreditável. Um triciclo com rodas de bicicleta, sobre o qual foi montada uma caçamba da Comlurb, dessas laranjas, onde foi instalado um amplificador e algumas caixas acústicas... é sem motor, basta empurrar... e o som, obviamente, é fraquinho, a bateria abafa... mas ninguém se abala. Improviso, brincadeira, música, camaradagem. Tudo muito simples e muito bom!
Antes do carnaval eu volto a escrever com algumas dicas para vocês fugirem dos megablocos e se divertirem de verdade na folia de rua do Rio.
Até lá!
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para
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