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A música dos apartamentos
Lembram-se do CD, aquele negócio que ninguém mais compra porque todo mundo baixa de graça na Internet? Pois eu ainda compro...
Esta semana, passando na Livraria Travessa para comprar um presente de aniversário, não resisti e adquiri um CD. Um primo da minha mulher já disse na minha cara que “quem compra cd hoje em dia é um idiota!”. Sou eu, presente, o idiota sou eu, eu ainda compro CDs... Eu ainda acho que CD é uma obra única, como os antigos LPs. Não é uma falsificação, uma cópia xerox. Tem o conceito visual, que faz parte da obra, não é apenas a música. Por isso, ainda compro CDs. Quero a obra completa e prefiro continuar idiota.
Na Travessa, comprei um que vi em exposição no caixa, da Biscoito Fino. Foi uma intuição, o CD tava lacrado, não dava para ver direito o interior e não havia quase nenhuma informação na capa. Mas meu sexto sentido me disse: “Não sei por que, mas tenho que comprar”. Não me arrependi.
O CD é “Dolores Duran entre amigos”. Conheço pouco da Dolores, a imagem que tinha dela era de música de fossa dos anos 50, cantada em tom dolente, “hojeeeee eu quero a rosa mais linda que houveeeeer...”. Mas esse CD é ímpar. Trata-se de uma série de gravações de Dolores feitas em um apartamento, com acompanhamentos luxuosíssimos de Baden Powell, Manoel da Conceição (o popular Mão de Vaca, um dos grandes violonistas do samba e da MPB) e Chiquinho do Acordeom. Só fera. E o resultado é um espetáculo.
Mas tive que ler o texto do livrinho que acompanha o CD para entrar no clima e apreciar direito. (Viu? Se não tivesse comprado não saberia da missa a metade...). Ele conta que Dolores ficou mais conhecida como intérprete do que como cantora. E que os amigos diziam que, se quisesse ouvir a verdadeira Dolores, tinha que ser no fim da noite, nos bar-clubs da época, naquela hora em que o público começava a ir embora e a casa ficava mais intimista. E que ela cantava no improviso, grandes clássicos da canção americana e francesa e da música brasileira.
Bom, o CD é lindo, uma delícia de se ouvir. Ela canta “How high the moon”, “Cry me a river”, o “Hymne a l'Amour” de Piaf, “Mocinho bonito” e “Eu sem você”, do Billy Blanco e muitas outras. Em algumas faixas se ouve o som das pessoas falando no apartamento. A gravação é razoável, um pouco tosca, mas perfeitamente audível. E a versão informal de Dolores para “Cheek to cheek”, classicão de Irving Berlin – e uma de minhas preferidas –, é simplesmente uma das melhores que já ouvi!
E tudo registrado na informalidade de um apartamento. Da mesma forma que Nara Leão cantou e tocou seu violão tantas vezes. E da mesma forma que Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, João Gilberto, João Donato e tantos outros.
Antigamente, o apartamento de algumas pessoas sensíveis (e geralmente de posses) era o palco ideal para a turma musical se mostrar, se soltar e criar. Essa é uma tradição que chegou até os anos 80, mas que se perdeu. Hoje a coisa é complicada. Para começar, logo terá um vizinho que irá reclamar do som alto e ameaçar ligar pra polícia. Parece que antigamente os vizinhos eram mais condescendentes com a música brasileira...
Algumas poucas vezes nos últimos anos eu revivi esse clima em festas na casa da minha grande amiga Juliana. Ela tem um piano de cauda na sala, que é da mãe, concertista profissional. E quando a mãe viaja vez em quando ela reúne os amigos e pede para que levem os instrumentos. A Diana, amigona dela e filha de músico, senta no piano e arrasa com composições próprias e improvisos. Isso aos 22 anos de idade, um talento de menina.
Mas festas assim são cada vez mais raras. Infelizmente. Ano passado estive numa em Santa Teresa, choro, samba e forró instrumental, genial. Às vezes outra amiga minha, a Cris, reúne os músicos amigos em casa, sempre é bom. Mas são ocasiões cada vez mais raras.
Sorte a minha ser amigo da Juliana. Porque ela vai me levar no próximo fim de semana a um sarau do gênero que revive os grandes momentos dos apartamentos dos anos 50 e 60. É também num apartamento, num prédio tradicional da Praia de Copacabana e, claro, tem patrono... É para convidados apenas. Mas vários músicos de diferentes gêneros e gerações se apresentam lá. E é uma turma da pesada.
Depois que eu for eu conto como é. Mas quem quiser pode ter uma palhinha nesse vídeo no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=dWK1I4R5yZE
Até a próxima!
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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