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No escurinho do animado Cine Santa Teresa
Há uns quatro anos, pelo menos, a Semana Santa tornou-se sagrada para mim, um não-católico e não-religioso convicto – que, entretanto, continua entoando mantras como “Salve Jorge!” e “Odoyá Iemanjá!”. Acho que estou na linha dos “Sou ateu, graças a Deus”.
Desde que descobri a programação da Semana Cultural de Santa Teresa esse feriadão passou a ter outro significado para mim. Nos últimos anos, virou uma deliciosa obrigação de não perder de jeito nenhum o Auto da Paixão do pessoal do Céu na Terra na sexta-feira santa. O Céu na Terra, misto de bloco de carnaval, orquestra popular, grupo de teatro e resgatador de coisas bonitas do folclore brasileiro, criou um Auto diferente, inspirado na procissão católica, mas recheado de referências da cultura popular do nosso querido Brasil e com algumas passagens que estimulavam a platéia andante a se questionar e se posicionar sobre as injustiças sociais.
Um dos quadros era sensacional: os atores, um deles com roupa de romano dos tempos de Cesar, citavam casos do nosso mundo cão – violência, corrupção, desigualdade social etc. Aí o arauto, incorporando Pôncio Pilatos, dizia, aos berros: “Eu lavo as minhas mãos!”. Uma bacia com água era passada de mão em mão pela platéia, que era convidada também a lavar as mãos e gritar alto: “Eu lavo as minhas mãos!”. Todos lavavam, entre risinhos de constrangimento. Uma cena super inteligente e bem humorada.
Além disso, esse Auto diferente entoava músicas folclóricas e populares, todas com alguma coisa relacionada à religião. Sempre me emocionava poder cantar uma das músicas mais bonitas do repertório de Milton Nascimento (de autoria de Fernando Brant e Tavinho Moura), “Paixão e Fé”. Num dos momentos finais do Auto, os músicos do Céu na Terra entoavam junto com o público, batendo palmas ritmadas, o refrão da música: “Velejar, velejei, no mar do Senhor, lá eu vi a fé e a paixão, lá eu vi a agonia na barca dos homens”.
Além desse momento cultural-religioso, Santa Teresa na Semana Santa virava um gueto de exposições de quadros, fotos e artesanatos, apresentações de poetas em bares e performances artísticas ao ar livre. E na noite de sexta as ruas eram pintadas, tal como se faz em Ouro Preto e outras cidades mineiras, sempre com temas clássicos. No sábado de Aleluia ainda rolava um carnaval, com desfile do Céu na Terra e outros blocos. E, para quem fosse chegado, tem uma igreja católica em Santa Teresa, que também faz sua procissão religiosa, modesta, pelas ruas do bairro.
De sexta a domingo, o grande programa era subir para Santa Teresa na hora do almoço e lá ficar até de noite. Sempre tinha alguma novidade, alguma atração popular. E tudo de graça, nas ruas. Um banho de cultura popular, recheada de sincretismo religioso, pois muitas coisas faziam referências à Paixão católica pascoal.
Este ano, uma semana antes, comecei a procurar na Internet, todo empolgado, o site de uma tal de Clan Design que sempre trazia a programação. Essa Clan era a produtora da Semana Cultural. Achei a programação dos anos anteriores, mas deste ano de 2009, nada... Foi chegando mais perto, e nada nos jornais também. Comecei a ficar intrigado, e preocupado. Achei a resposta das minhas inquietações na comunidade do Céu na Terra no Orkut: este ano não conseguiram patrocínio e não haveria nem o Auto, nem a Semana Cultural, nada.
Mesmo assim, não me conformei e na sexta-feira santa, depois de comer um bacalhau na casa da sogra, subi para Santa Teresa. O bairro estava quase deserto, comparado com seus momentos de glória cultural. Não tinha procissão do Céu na Terra, mas tinha a dos católicos da igreja do bairro. Uma procissão bonita, pequena, mas simpática. Acompanhamos um pouco e, já que estávamos lá, “vamos andando e ver o que rola”. Santa Teresa, entre o Curvelo e o Largo das Neves, é uma delícia para se andar num fim de tarde, com o único inconveniente do piso irregular e das calçadas apertadíssimas.
E aí percebemos que, além da agitação cultural que desapareceu, alguma coisa mudou no bairro. As lojas de artesanato no entorno do Largo dos Guimarães, que é o centrão de Santa Teresa, pareciam ter mais produtos e coisas interessantes. E havia muitos turistas nelas e nas ruas. Turistas em família: pai, mãe, filhos adolescentes e pequenos, com outros casais da mesma língua, norte-americanos, italianos, argentinos. Não eram os tradicionais mochileiros atrás de capoeira e samba. E eram de outro nível social, visivelmente mais alto, uma classe média mais alta de primeiro mundo. Os restaurantes estavam fazendo a festa com eles.
O que está trazendo essa novidade é o Hotel Santa Teresa, o famoso hotel dos descasados que foi comprado por um grupo estrangeiro (inglês, dizem) e virou um cinco estrelas simpático e modesto que já está mexendo com os hábitos do bairro. Na sua portaria, na rua da feira, por exemplo, agora tem porteiro até tarde com “vallet”, aquele manobreiro caro, outro hábito importado, só que este de São Paulo, aquela cidade meio esquisita ao Sul do Rio de Janeiro.
Mesmo com esses novos turistas e sem a Semana Cultural, Santa Teresa estava uma delícia naquela tarde da paixão. Depois de andarmos bastante, pensávamos em sentar em algum bar quando nos deparamos com o Cine Santa Teresa, o único do bairro, e deu vontade de ver um bom filme – e lá a programação sempre é excelente, é um cinema tipo cineclube e nada comercial.
Essa sim foi uma experiência surpreendente nessa Semana Santa. Compramos ingresso para “Che”, que já queríamos ver e era o próximo no horário. Na bilheteria, a primeira surpresa: morador do bairro paga apenas R$ 6! Eu e minha mulher pagamos R$ 14... A fila estava grande, casa cheia. Claro, a grande maioria era de moradores aproveitando o cinema a R$ 6. Mas a sala só comportava 45 lugares. Justinha, tela pequena, poltronas novas, mas um pouco apertadas.
Porém, o melhor estava por vir. Quando estavam quase todos sentados, surgiram os animadíssimos gerentes da casa, um casal no melhor estilo alternativo Santa Teresa, e começaram a falar na frente das cadeiras: “Super obrigado pela presença de todos...”; “Obrigado Jorge Salomão, grande poeta, aqui presente, obrigado fulana, obrigado sicrano... e aí querida, que bom que você veio...”; “Hoje nós vamos ter sorteio!! Nem o Artplex tem sorteio, mas nós temos!”; “Vamos sortear um delicioso pão natural feito por nosso colega fulano de tal e um kit do ‘Che’, com camiseta e boné!”; “Mas está faltando gente na platéia, tem que estar todos aqui para fazermos o sorteio, cadê fulana, foi ao banheiro?”; “Para ganhar, tem que procurar uma filipeta escondida na cadeira!!”.
O pré-início da sessão era um verdadeiro programa de auditório! Nós, que entramos lá apenas para ver o filme, éramos totalmente ET em meio à comunidade dos R$ 6, a grande maioria do cinema, tão animados quanto os gerentes da casa, e ficamos de boca aberta, rindo muito, achando aquilo tudo simplesmente sensacional! E a platéia era pra lá de participativa: “Aqui dentro da cadeira só tem resto de pipoca velha!”, “É marmelada, é marmelada!”. Uma diversão só.
Agora, escrevendo esta história, estou visitando o site do Cine (www.cinesanta.com.br) e descobrindo que aquilo não é apenas um cinema ou um cineclube. É um projeto sócio-cultural com várias pernas e filhotes. Tem sessão de graça pra crianças, estudantes e idosos, trabalhos em parceria com ONGs que usam o cinema como elemento educativo e integrador, tem o Clube dos Amigos do Cine Santa Teresa com mais de 6 mil sócios que podem dar palpites na programação de filmes e em 2008 eles ganharam da Ancine o título de “Maior Exibidor de Cinema Brasileiro no País”. Como diria o presidente Lula (“o cara”), “Não é chic?”.
O cinema, fisicamente falando, é da prefeitura, apoiadora do projeto. Mas o Cine Santa Teresa é do povo daquele bairro tão legal e surpreendente. Vale conferir. Além de “Che”, estão em cartaz “Milk – A voz da igualdade”, “Entre os muros da escola” e “Palavra (des)encantada”. Só filmaço.
Bom filme!
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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