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Lapa está voltando a ser a Lapa?
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Como está a Lapa hoje? Janjão
(vulgo João Pimentel, grande jornalista,
escritor, compositor e boêmio) fez
um excelente retrato em matéria de
primeira página no Segundo Caderno
do Globo no domingo que passou (13/4). Falou
dos 10 anos do Semente e entrevistou Tereza
Cristina. Vale a pena resgatar e ler, tem
tudo a ver com o que ando escrevendo por
aqui, com mais riqueza de detalhes e histórias.
A Lapa de hoje continua sendo um dos meus
cantos preferidos para a sexta e o domingo
à noite, e eventualmente outros dias.
“Vamos pra Lapa” é um
jargão comum para um programa noturno.
Mesmo que não se saiba exatamente
para onde ir, a turma vai para lá,
e lá decide o que fazer.
A Rua Joaquim Silva continua lotada toda
sexta-feira e sábado. Mas perdeu
muito daquela comunhão pacífica
de tribos, que sempre se estendia às
famosas escadas, local preferido para se
apertar um. Virou um local com uma energia
estranha, muita gente bêbada e drogada,
excesso de pessoas dificultando até
a passagem, punguistas e, de tempos em tempos,
sai até tiro. E tem sempre um camburão
da PM para tornar a energia ainda mais pesada.
Coisa impensável há 7 anos,
quando todo mundo lá se orgulhava
da paz que freqüentava nas madrugadas
da antiga “Rua do Pecado”.
Mas no domingo à noite, quando
a lotação da rua é
bem menor, a Joaquim Silva, esquina dos
Arcos, ainda mantém uma tribo curiosa
e interessante, entre o trash e o alternativo,
que se reúne em torno do sambinha
do Semente. Muitos fogem do couvert de R$
15 para homens e R$ 12 para mulheres e ficam
bebendo no bar do Noilton. Ou na rua mesmo,
com os ambulantes, atrapalhando o trânsito
e curtindo o som ambiente que vaza pela
janela sementeira, competentemente conduzido
por Elisa Adoor (voz), Edu Krieger (vioão
e voz) e a cozinha do Escangalha Maçaneta
– Rafael Santos (cavaco), Jade Perrone
(pandeiro) e Chris Mourão (percussão).
Além do domingo, o Semente tem uma
segunda-feira sensacional, com um instrumental
capitaneado por Zé Paulo Becker,
sempre com várias canjas de jovens
músicos excepcionais, de Yamandú
Costa a Niklas Krassik.
Outro bar musical muito badalado, e que
já teve seus momentos de glória,
o Carioca da Gema, eu tenho evitado. As
atrações são boas,
mas a freqüência nem tanto, uma
galera mais pra pagodão do que pra
samba de raiz. Sim, me desculpem, não
gosto de pagode comercial, que às
vezes atrai pitboys, daqueles que gostam
de puxar uma mulher bonita pelo cabelo e
dão outras cantadas de baixo nível.
Já o Circo Voador é uma
das melhores casas de shows do Rio, embora
com programação irregular.
Nos últimos tempos, vi showzaços
lá de Gilberto Gil, Chico Buarque,
Lenine, Geraldo Azevedo, Quizomba, Beth
Carvalho e muitos outros. O último
foi o do Cordel do Fogo Encantando, que
tem uma energia impressionante. E na abertura,
um dj sensacional, o MAM, que parece um
pai de santo das carrapetas, todo paramentado
e com um repertório fantástico
que inclui coco, samba de roda, capoeira,
jongo, músicas de terreiro, Caetano
Veloso, Bethânia, Jorge Benjor, Chico
Buarque e muito mais, tudo MPB.
A Fundição mantém
programação irregular, e é
desconfortável, ao contrário
do Circo. A propósito, o Circo nessa
nova fase esbanja conforto. O som dá
de 10 a 0 em seu equivalente da Fundição
e de outras casas da Lapa, o bar, os banheiros,
nem se compara. Por exemplo, quando a fome
bate no Circo eu ataco o cachorro quente
de forno, que é bem gostosinho. Os
bares da Fundição ficam a
desejar nesse quesito.
Outro palco muito freqüentado é
o Odisséia. Tem shows ótimos,
mas tenho minhas críticas à
casa, a começar pela qualidade da
aparelhagem de som, de sofrível para
ruim. Além disso, enche muito e na
hora de sair tem que se enfrentar enormes
filas para pagar. Mas se você está
procurando juventude Zona Sul no melhor
estilo patrícia-maurício para
paquerar, ali é o lugar, o que não
falta é gente bonita nessa linha,
toda sexta e sábado até depois
das 3h.
O Estrela da Lapa é estranho, me
sinto em São Paulo quando vou lá,
tenho a sensação de que é
o local mais paulistano da Lapa. E não
é muito barato (o que condiz com
seu jeito paulistano). Mas, tal como o Odisséia,
tem bons shows. Também não
é barato o Rio Scenarium, que tem
um ambiente sensacional, um antiquário
de super bom gosto, e que abusa de boas
atrações. Mas deixei de freqüentar,
em parte pelo alto custo (do couvert e dos
comes-e-bebes), em parte por ter virado
point de turistas, quase que uma Plataforma
do samba. Já vi ônibus enorme
parando o trânsito dos paralelepípedos
da pequena e apertada Rua do Lavradio para
despejar 40 turistas alemães no Rio
Scenarium, parecia até a fila do
Pão de Açúcar. Aliás,
é uma casa excelente para se levar
estrangeiros, eles ficam loucos por lá.
Já levei italiano, francês,
chileno, venezuelano, norte-americano, é
batata, todos amam o lugar de paixão.
O Democráticos, que fica na Rua
do Riachuelo, a dois quarteirões
dos Arcos, é outro bastante concorrido.
Tenho vários amigos que amam o local
e não saem de lá. E as atrações,
especialmente às sextas (quando a
Aline, do Semente, comanda a noite), são
realmente de primeira linha, do samba ao
forró. Mas eu implico com o Demo.
Acho o lugar soturno e a aparelhagem de
som horrível, uma tortura para os
ouvidos. Mas reconheço que o Demo
é um antro de juventude bonita e
alegre, um grande point da rapaziada descolada.
Mais na direção da Glória,
tem o Bar do Ernesto, que às sextas
mantém o show com o Lúcio
Sanfilippo, que é uma delicia, sempre
com uma roda de jongo com dançarinos
da Serrinha. Fica em frente à Sala
Cecília Meirelles. E um quarteirão
mais à frente, na parte inicial da
Joaquim Silva, que faz uma curva em direção
ao mar, no bloco da ACM, fica o Beco do
Rato. Um boteco pé-sujo que tem samba
toda quinta e sexta, e normalmente também
aos sábados. É lugar novo
na Lapa, ainda firmando identidade. O público
é uma grande misturada, incluindo
alguns mendigos e putas. Mas tem momentos
legais, samba de raiz animado e na paz.
Tem uma casa nova, a Mal do Século,
que ainda não conheci, mas da qual
tenho boas referências. E ainda não
consegui ir no Lapa 40 graus, do Carlinhos
de Jesus. Duas que valem conferir.
Bom, na próxima semana vou falar
um pouco dos comes e bebes da nova Lapa.
Até lá!
Paulo Henrique de Noronha é
jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem
para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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