Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Carnaval: não esqueça de colocar o despertador...

O Suvaco de Cristo, domingo passado, estava ótimo! E melhor ainda para quem, como eu, madrugou e conseguiu pegar o bloco desde seus inicialmentes.
Uma passarinha me contou que ele sairia às 8h. Atrasei-me e quando subia a Jardim Botânico a pé, como faço todo ano, ali na altura do Parque Lage, dei-me conta que o trânsito ainda estava fluindo. “Se não fecharam a rua, então o Suvaco não saiu ainda, claro!” Cheguei no concentra do Bar Jóia às 8h35 em ponto. Tinha uma bandinha acordando os poucos foliões que lá já estavam, mas realmente 8h era boato. Subi a Rua Faro e fui na concentração da bateria, essa sim com bastante gente.

O resto eu resumo assim: o bloco foi ótimo, o samba estava uma delícia (um dos melhores de todos os anos), Cynthia Hewlett estava linda e simpaticíssima como sempre, as baianas uma gracinha, mil fantasias em todos os cantos, a galera caprichou na originalidade este ano.
A bateria desceu a Rua Faro lá pelas 9h30 e 10h o bloco já estava formado, sem uma multidão de milhares e com muita civilidade. Só saí umas 12h30 e consegui curtir muito. Carnaval de rua da melhor qualidade, como nos bons tempos.
Gente, de uns tempos pra cá, com a infestação de blocos por todas as esquinas da cidade, para se encontrar um carnaval de rua decente é preciso paciência, informação e... um bom despertador!

Aí vai minha primeira receita para você curtir muito o carnaval de rua do Rio de Janeiro, super espontâneo, sem abadá e este ano com mais banheiros químicos pelas ruas: não se atrase nem relaxe com o horário. Chegue na hora, ou um pouco antes do início dos blocos. A saída é sempre emocionante. Rola um frisson coletivo, é hora de pegar na mão da sua gata (ou do seu gato, dependendo da preferência), olhar olhos-nos-olhos, sorrir, dar um beijo gostoso e desejar: “Um bom carnaval, meu amor!”. Depois, olhe em volta, veja a bateria começando a bater no couro, com seu mestre, nervoso, apitando e gesticulando com sinais para tudo dar certo.

Esse e os momentos seguintes são os melhores de cada bloco. Tem sido assim há alguns anos e a fórmula vem se repetindo. Por uma razão simples: os pitboys e suas cachorras, aquela gente chata que entra no bloco só para se dar bem e se divertir torrando o saco alheio com brincadeiras de mau gosto e agressividades gratuitas, não são lá muito pontuais. Quase sempre chegam na metade final do bloco. Eles não têm compromisso com a folia, sentem-se soberanos para chegar no horário que bem entenderem. Por isso, só costumam aparecer, em bandos, depois que o bloco já cumpriu seu primeiríssimo tempo de desfile.

Além disso, justamente para fugir da pitboyzada, cada vez mais blocos vem antecipando seus desfiles, seguindo exemplo criado pelo Suvaco há uns 5 anos. Assim, para se pegar o melhor da festa no sábado e no domingo de carnaval, tem que colocar o despertador e madrugar mesmo. No sábado, por conta do Céu na Terra, que sai lá pelas 9h e duas horas depois já fica insuportável de cheio nas ruas de Santa Teresa.

Já no domingo, é a vez do Cordão do Boi Tatá, que faz um bailão ao ar livre na Praça XV, começando lá pelas 9h30, 10h. Só que antes, umas 7h30 da manhã – hora de missa... – o Boi Tatá sai em desfile pelas ruas do entorno da Praça XV. E esse desfile, típico de bloco de sujo, mas que conta com vários músicos tocando trompete, trombone e percussões várias, é simplesmente emocionante! Pra piorar, umas 10h30 sai o desfile do Cordão do Boi Tolo, dissidência do Tatá que a cada ano ganha corpo. Ou seja, curta o bailão do Boi Tatá, mas fique de olho no relógio para não perder a saída do Boi Tolo, que se concentra em frente ao prédio da antiga Bolsa de Valores.

Segunda-feira de carnaval, o bom despertador tem que tocar de novo para não se perder a saída do Songoro Cosongo no Largo do Curvelo, Santa Teresa, lá pelas 11h. É um bloco que reúne músicos latino-americanos radicados em Santa e na Lapa. Ao longo do ano, fazem shows regulares e no carnaval, botam o bloco na rua. Mais parece uma charanga boliviana, as músicas são do repertório do grupo e muita gente nunca ouviu, tem um ritmo diferente, mais pro latino, mas atrai uma galera bonita e fantasiada que faz a festa sobre os trilhos de Santa Teresa. E todo mundo se contagia rapidinho.

Na terças de carnaval tem que ter é relógio de pulso pra acompanhar tantas coisas boas. O problema é que é quase tudo no mesmo horário.... Bloco da Ansiedade às 15h tocando frevos em Laranjeiras, saindo do Mercadinho São José; no mesmo horário o Rio Maracatu está se concentrando no Arpoador; uma hora depois é o concentra do Quizomba em frente ao Circo Voador, no mesmo horário já começou a bagunça gostosa e criativa do Zoobloco na Praça XV. Lá pelas 19h, é hora de pular para o Último Gole, bloquinho super gostoso na Praça Pio X, no Jardim Botânico, e quando der 22h é o momento de correr à Av. Rio Branco para ver e pular com o Cacique de Ramos.

Quarta-feira de cinzas, muita gente tem que trabalhar às 12h. Os servidores públicos federais, por orientação do Ministério do Planejamento, só começam às 14h. Mas às 15h tem a apuração do desfile das escolas de samba. É um programa imperdível em frente à TV. Todo ano dou um jeito de ver. A disputa fica emocionante à medida que as notas vão sendo anunciadas, até se chegar ao nome da grande vencedora.

Da quarta, pulamos para o sábado: é bom chegar cedo, tipo 15h, pra ver as Mulheres de Chico na Praça Antero que Quental, no Leblon. O que acontece é o seguinte. Como não tem palco, a bateria feminina toca no chão e aí quem não estiver nas primeiras filas em frente às batuqueiras não verá nada e perderá quase duas horas de alegria, simpatia e uma animação danada em torno das músicas de mestre Chico Buarque de Holanda.

Por fim, domingo pós-carnaval, é mais um dia para se madrugar para ver o concentra e a saída do Monobloco no Posto 6 de Copacabana. E aí é basicamente a saída, porque depois de meia hora de desfile, o Monobloco já estará totalmente cercado de gente por todos os buracos. E aí eu pulo fora para tomar meu gostoso café da manhã na Argumento, no Leblon. Mas a saída do Mono é muito, muito legal!

E chega de carnaval! Aí nem precisa mais de relógio, é hora de descansar....
Bom carnaval a todos!

Paulo Henrique de Noronha é jornalista
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