Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Um samba em Paquetá

Já bloqueei agenda para o próximo 24 de novembro: vou passar o dia em Paquetá.

Nessa data, um sábado, Cristina Buarque estará lançando um CD gravado ao vivo com o grupo Terreiro Grande. E o lançamento será na bucólica ilha movida a bicicletas, que fica a 70 minutos de barca da Praça XV. Vai ser no Tia Leleta Bar (também conhecido como Bar do Zarur), na Rua Dr. Lacerda 18, em frente à Telemar (que já virou Oi, mas na referência popular continua Telemar, antiga Telerj).

Não conheço Tia Leleta, muito menos o Zarur, e tenho uma vaga lembrança de onde fica o prédio da telefônica – acho que é na rua de trás, perto das barcas. Mas cultivo uma memória afetiva fortíssima com a Ilha de Paquetá, hoje relegada a ser um ponto turístico menor e quase esquecido dos cariocas e das agências de viagens.

Quando eu era pequeno, não sei por que cargas d’águas minha avó Ruth, mãe de papai, morou em Paquetá por uns dois anos, numa casa simples e pequena de frente para a Praia dos Tamoios. Acho que eu tinha apenas 8 anos de idade. Era ali por volta de 1966. No primeiro fim de ano depois que vovó foi para a ilha, a família decidiu que eu passaria minhas férias em Paquetá, na casa de vovó, onde já estavam Tia Sandra e meu primo Maurício, que tinha mais ou menos a minha idade. Dito e feito: comemorei o Natal no Rio e no dia 26 segui para passar o reveillon em Paquetá.

Eu ainda não sabia andar de bicicleta. Em Paquetá, o aprendizado foi rápido. E o que não faltava na casa de vovó Ruth era bicicleta pra criançada andar. A grande fascinação de Paquetá, para garotos da cidade como eu, era de que se tratava de um lugar onde não havia carros nas ruas, apenas bicicletas, velocípedes e charretes! Na minha imaginação, era quase que uma cidade de brinquedo, feita para crianças. E eu não estava de todo errado.

Já no reveillon andei muito de bicicleta depois da meia noite, indo até longe da casa da vovó e voltando. Risco de assalto? Violência? Que nada, isso não existia na Paquetá daquela época. Um menino de menos de 10 anos de idade podia andar de bicicleta de madrugada que o único risco que corria era o de ficar com medo de fantasma e bicho-papão em alguma rua menos iluminada.

A viagem de barca para Paquetá já era uma jornada do outro mundo para mim. Eram duas horas sobre as águas, sentado com as pernas balançando para fora e acompanhando os golfinhos que sempre apareciam pulando perto da barca. E na chegada havia uma tradição: alguns valentes não esperavam a atracação, pulavam da barca atleticamente n’água e iam nadando até a praia. Para mim, Paquetá era uma Disney World cabocla ao meu alcance, ali perto de casa e dentro das posses da mamãe.

Aquele meu verão em Paquetá foi inesquecível. Fiquei até às vésperas do carnaval, coisa de quase dois meses. Minha rotina, de segunda a domingo, era andar de bicicleta, ir à praia, jogar futebol na areia, brincar na rua perto da casa da vovó.

Sempre de pé no chão, descalço, e queimando o corpo até o ponto delicioso de se arrancar a pele queimada. Filtro solar? Nem pensar, não precisava. Não havia buraco na cama de ozônio, o sol era saudável. Até em dia de chuva havia o que fazer: íamos à praia, a água ficava mais quentinha, achava o máximo desafiar o bom senso adulto e ficar na praia em meio à chuva. E na volta ainda fazíamos guerra de lama – pois as ruas eram, em grande parte, de terra batida, fornecendo vasta matéria-prima para nossa diversão. Uma farra só.

De tanto andar de bicicleta, acabei me machucando. Eu sempre tive pé meio torto, até hoje uso palmilha ortopédica. Criança sagitariana afoita e cheia de energia, eu andava de bicicleta de qualquer jeito, quase sempre descalço, e com o tempo fui batendo direto com a parte de dentro da canela nos ferros de bicicleta enferrujada. Doía, mas eu estava mais preocupado era em pedalar e brincar.

Quando voltei ao Rio, ostentava duas pequenas crateras cheias de sangue e pus, uma em cada canela. Minha mãe, escandalizada, me levou na pequena clínica da esquina da Barão da Torre com a Farme de Amoedo, em Ipanema, onde morávamos. O médico, sádico, jogou nos ferimentos algum líquido desinfetante que ardia pacas e fez uma raspagem com uma espátula fina de metal para retirar a sujeira e o pus por cima da carne viva. Ao final, mertiolate para arder bastante. E tudo isso com minha me segurando com força para eu não fugir da maca. Acho que a rua inteira ouviu meus gritos, doía muito...

Mais crescido, adolescente, voltei algumas vezes com amigos a Paquetá. Era um grande programa: a barca, as praias, andar de bicicleta pra lá e pra cá com a rua só para nós. Íamos de manhã cedinho e voltávamos no início da noite. Uma vez, derrapei numa descida ousada, a ladeira era de terra batida, minha perna ralou por cima de um trecho de brita e ficou toda ensangüentada. Fui pro precário posto médico local. Me deram uma barra de sabão de coco e me mandaram para o tanque. O tratamento: “Lave bem com água e sabão que depois passamos mercúrio cromo”.

Já adulto, levei meus filhos a Paquetá umas duas vezes para andarmos de barca e de bicicleta. Eles amaram! Numa dessas, vi uma das cenas mais emocionantes de minha vida. Estávamos em um dos lados da ilha e o sol se punha, uma bola vermelha linda descendo sobre o mar. Seguimos para o outro lado da ilha e após uns dez minutos de pedalada demos de cara com a lua cheia nascendo, grande, branca e poderosa sobre as águas da outra praia. Quase que dava para ver sol e lua ao mesmo tempo, um de cada lado da ilha. Foi de arrepiar...

Ainda no século passado, virei a noite em um luau de aniversário na Praia da Moreninha e passei um fim de semana delicioso numa casa de arquitetura premiada da família da Paula Saldanha. Mas numa das últimas idas, Paquetá me decepcionou. As bicicletas para alugar estavam caquéticas, velhas e em mau estado de conservação. A comida oferecida pelos poucos bares e restaurantes era abaixo da crítica. E a ilha, de maneira geral, estava mal conservada, decadente, pobre e já com histórias de roubos.

Em 2004, o pessoal do bloco Escravos da Mauá, que mensalmente oferece uma das melhores rodas de samba da cidade, resolveu fazer uma excursão sambística à ilha, com batucada na barca e desfile de carnaval pelas ruas da ilha, até um centro cultural novo, onde o samba continuou noite adentro. Levei meu pandeiro e toquei muito, foi uma delícia.

Agora, me surge esse motivo maravilhoso para reencontrar Paquetá. Cristina Buarque, que começou carreira uns 30 anos atrás com uma voz chatinha e desafinada, firmou-se como um dos grandes nomes do samba de raiz e tudo que ela faz tem que ser visto e ouvido com especial atenção, porque dali sai coisa boa.
A quem interessar possa, a Barcas S.A. tem saídas para Paquetá aos sábados às 7h10, 10h30, e 13h30. O show da Cristina Buarque está marcado para as 15h. Pra voltar, tem a barca das 19h15, mas depois dela só às 23h. E aí você perde o show do Quizomba no Teatro Odisséia, que começa lá pra meia-noite. Ideal para se fechar esse sábado diferente.




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