Meu Rio
PH de Noronha
 
 

E o carnaval?

Leitores, e leitoras, o carnaval está chegando.

Esse fato, para mim, anualmente representa um sinal de alerta. Milhares de informações para buscar, planos estratégicos a serem montados, dicas para se trocar, contatos diretos do quinto grau da folia.

Sou folião de carteirinha, profissional do carnaval de rua do Rio de Janeiro. Não de todo e qualquer carnaval, mas de eventos cada vez mais selecionados, em função da transformação de agremiações geniais como Simpatia é quase Amor, Carmelitas, Escravos da Mauá e tantos outros em super-blocos onde a folia ficou para segundo lugar, o estresse tomou seu lugar. Estresse do desconforto de ser espremido por multidões, de poder ter seu celular ou carteira surrupiados a qualquer momento, de deparar-se com pitboys que, na falta de uma grande micareta na Barra da Tijuca, empesteiam nosso mais legítimo carnaval de rua.
Cada vez mais, vejo-me obrigado a buscar carnavais alternativos, sem 20 mil foliões brigando pelo espaço de um quarteirão de rua. Em outras palavras, blocos menores, menos cotados e inovadores.

Para piorar, este ano meu carnaval será reduzido à metade, por força de um trabalho novo que me atraiu para fora do Rio. Só isso já reduz minha “antenação” com o carnaval de rua do Rio a um décimo do habitual.

Posto isso, para que todos sintam o espírito reduzido que reside nessa criatura foliã que vos escreve, mando algumas dicas para um carnaval de rua gostoso e com menos riscos de chateações. Arrisca, sim, de vocês me encontrarem sem rumo por algumas delas.

Sexta-feira, dia 1º de fevereiro – Este ano vai ter um show bacana do Quizomba com bateria no Circo Voador, abrindo apresentação da bateria da Mangueira. O Quizomba é um dos melhores blocos de bateria do carnaval carioca, e o único que toca marchinhas. Mas outra boa opção é o bloco de sujo do Bip Bip, na Rua Almirante Guimarães, no Posto 5 de Copacabana. Reúne grande galera, que lota a rua, e meia-noite o bloco sai de qualquer jeito, sem carro de som, sem puxadores oficiais, sem bateria organizada. É uma zona só. Mas é uma delícia.

Sábado, dia 2 de fevereiro – De manhã cedinho, tipo 8h, vale acompanhar a saída do Céu na Terra no Largo do Curvelo, em Santa Teresa. É um dos blocos mais coloridos e bonitos do Rio. Mas quando chegar lá pra 12h, ele pode começar a ficar insuportável de cheio. Caia fora no primeiro bondinho, pare em algum lugar gostoso para almoçar e corra para pegar a saída do Empolga às 9 em Botafogo, com concentração na Casa da Matriz, casa noturna que fica numa ruazinha de um quarteirão chamada Henrique Novaes, ela começa na São João Batista e acaba na Real Grandeza. O bloco é animadíssimo, atrai muita gente bonita e segue pela Visconde de Caravelas até o bar Plebeu. De noite, se ainda houver corpo na sua criatura, dê um pulo na Rio Branco, vá de metrô mesmo, para ver o carnaval de rua mais tradicional e mais pobrinho. Acredite, é bacana.

Domingo, dia 3 de fevereiro – De novo, não esqueça de botar despertador: às 8h da matina o Cordão do Boi Tatá começará seu desfile pela Praça XV. Depois, emenda em bailão com palco na praça, mas lá pelas 10h30 fique esperto em frente ao prédio da Bolsa de Valores, porque a qualquer momento sairá o Cordão do Boi Tolo, dissidência animadérrima do Boi Tatá. De tarde, tem o Bangalafumenga no Caxinguelê, no alto da Pacheco Leão. O Banga é talvez o bloco mais sofisticado, em termos de arranjos, repertório e qualidade da bateria, além de contar com canja do Serjão Loroza, que por si só é um espetáculo à parte.

O problema é que pode encher demais, e aí fica chato. No mesmo horário, tem a Pandeirada de Carnaval do bloco É do Pandeiro!, este ano em frente ao restaurante Varandas Gourmet, na Rua do Lavradio. É bem mais light e muito gostoso, um sambinha carnavalesco regado por uma Pandeiria que reúne uns 25 pandeiros.

Segunda-feira, dia 4 de fevereiro – Bom, dá pra botar o despertador um pouco mais tarde. Chegue no largo do Curvelo lá pelas 11h, 11h30, para a saída do Songoro Cosongo, a coisa mais cucaracha do carnaval carioca. É um bloco que em vez de uma bateria tem uma charanga latino-americana com saxofones, trompetes, flautas, trombones, com músicos uruguaios, argentinos, bolivianos, paraguaios, chilenos e até brasileiros. É um negócio meio Montparnasse a la santa Cruz de La Sierra em plena Santa Teresa carioca. Entendeu? Então dê um pulo lá pra entender porque vale a pena. Depois, corra para a Cobal de Botafogo, coma alguma coisa e entre no cordão do Bloco de Segunda. Dirigido por uma galera de esquerda cuja idade média tá chegando perto dos 60 aninhos, o De Segunda é engraçadíssimo, de uma animação só, e desde que anteciparam o desfile para umas 15h, ano passado, voltou a ser um bloco civilizado, com uma multidão administrável. E é bom pra burro! Não deixe de ver a evolução de Verinha, a porta-bandeira. Curta as fantasias da turma da idade 2,5, sempre ótimas. De noite, vá até o Bip Bip que ainda deve estar rolando o baile do Flor do Sereno, que começa lá pelas 19h e acaba antes das 23h. Trata-se de uma competentíssima big band de marchinhas, ranchos, choros e outras coisas de antigamente. Arrisca a estar cheio demais, mas vale a pena conferir.

Terça-feira, dia 5 de fevereiro – Não sei por que, mas a terça-feira virou o dia mais sensacional do carnaval, tamanha a quantidade e a qualidade das opções. Este ano, reza a lenda, não sairá o Se Melhorar Afunda, que ano passado entupiu três barcas em seu trajeto de Niterói até o Centro do Rio. Aí dá pra dormir, porque tinha que pegar a barca das 8h para pegar a saída do bloco em Nikiti City... De tarde, estarei tocando meu surdo de primeira na bateria do Quizomba na Lapa, concentrando no Circo Voador, saindo umas 16h30 e seguindo em direção ao Passeio Público. Parece que este ano o roteiro vai mudar e vamos até a Cinelândia. Na mesma hora, tem o Bloco da Ansiedade no Mercadinho São José, em Laranjeiras, o único bloco de frevos da Zona Sul; tem o Zoobloco na Praça XV, com todo mundo fantasiado de bicho e cantando só músicas de animais; e tem o Rio Maracatu na Praia de Ipanema, do Arpoador ao Posto 9, um pedaço lindo de Pernambuco em pleno Rio de Janeiro, com suas alfaias poderosas e belíssimas dançarinas. É uma macumba sensacional! Depois, tem o Último Gole, bloquinho da juventude dourada do Jardim Botânico, na Praça Pio X, ali perto do Hospital da Lagoa, que reúne uma galera simpática e bonita com um samba de qualidade. E depois ainda tem a Av. Rio Branco, onde lá pras 23h desfila o Cacique de Ramos. Imperdível!

Quarta-feira de Cinzas, dia 6 de fevereiro – Tenho por hábito acompanhar a apuração do desfile das escolas de samba do Rio. Vejo pela TV mesmo. Adoro a expectativa de ver qual escola vai ganhando mais pontos à medida que os envelopes são abertos. Depois, é rumar para as ruas de Santa Teresa. Deve ter sambinha da turma da Troça no Largo do Curvelo e outros sambas e blocos improvisados no caminho entre o Curvelo e o Largo das Neves. É bater perna e ir descobrindo. Vale a pena, é muito gostoso e sempre tem surpresas.

Quinta-feira, dia 7 de fevereiro – Já voltou a trabalhar? Mas de noite tem mais: o sensacional Voltar pra que?, bloco que se concentra no Beco da Cirrose, na Rua Álvaro Alvim, em frente ao teatro Rival, e dá a volta na Cinelândia, tomando a rua mais engravatada do Rio. Aliás, sempre tem uns engravatados que saem do trabalho direto pra folia do Voltar pra que? E é uma oportunidade única de se brincar nas escadarias do Teatro Municipal, um ícone da cultura de elite do carioca.
Sexta-feira, dia 8 de fevereiro – Ah, sei lá o que tem de bom, cansei, que tal comer um japa no Samurai San, na Barão do Flamengo, e depois dar uma esticada na Lapa pra ver o movimento? Ou então tomar uma saideira no Jobí?

Sábado, dia 9 de fevereiro – Alô povão, agora é sério. É dia das Mulheres de Chico na Praça Antero de Quental, no Leblon. I-m-p-e-r-d-í-v-e-l!!! Uma bateria só de mulheres, tocando só músicas de Chico Buarque em plena praça. É de arrepiar, todo mundo canta junto, “Quem é você? Advinha se gosta de mim...”, “Não existe pecado do lado de baixo do Equador...”, “Não é por estar na sua presença, meu prezado rapaz, mas você vai mal, mas vai mal demais...”, “Vai passar nessa avenida um samba popular...”. As meninas são lindas, animadíssimas, estão tocando cada vez melhor e é um inusitado ouvir “Construção” tocada por uma bateria de escola de samba. Tente chegar cedo (elas devem começar a tocar umas 17h) para ficar perto da bateria e ver as Mulheres de perto.

Domingo, dia 10 de fevereiro – Tem o Monobloco de manhã cedinho, 9h, na Praia de Copacabana, Posto 6. Mas não sei se vou não... a bateria é ótima mas enche demais... melhor descansar e pegar uma praia de tarde.
E para ficar antenado com os blocos, não deixe de ler o blog da Ju, o grande guia online em real time do carnaval de rua: http://oglobo.globo.com/blogs/blognarua/
Boa folia para todos!


E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br








© 2007- Monte Castelo Idéias ® Todos os direitos reservados.
  Criação e desenvolvimento: Café Expresso Design