Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Livrarias, pequenos novos paraísos cariocas

Livros são uma das coisas mais deliciosas da vida. Quantas histórias, sentimentos, curiosidades, descobertas e genialidades um bom livro nos proporciona. E um bom livro já é, por si, um ato de amor e carinho de um ser para com seus semelhantes humanos – e digo humanos apenas porque cachorros, macacos, formigas, capivaras, golfinhos, tucanos e outros seres respirantes, até onde eu saiba, ainda não aprenderam a ler.

O autor de um livro se jogou de corpo e alma naquilo. Criou, inventou, virou noites, angustiou-se ao limite, fez de tudo para nos dizer alguma coisa muito importante para ele. E se o livro é bom, é importante para nós também. Não tenha dúvida.

Tenho uma relação meio angustiante com os livros, enquanto leitor. Cada vez que consigo passar da primeira página, um prazer e entusiasmo incomuns vão tomando conta de mim. Como quando peguei O nome da rosa, de mestre Umberto Eco, para ler. Saí de um plantão no finado Jornal do Brasil, lá pelas 3 da madrugada, sem a menor condição de dormir – tamanha a ansiedade e adrenalina do fechamento de mais uma edição – e passei na banca da General Osório, em Ipanema, que fica aberta 24 horas, para passar os olhos nas revistas. Deparei-me com uma versão barata do livro, comprei e fui pro Madrugada, simpático restaurante na Rua Sorocaba, em Botafogo, que abria até às 6h, e que infelizmente já entrou há muito para a categoria dos finados. Pedi uma massa e comecei a ler o livro. Não consegui parar, acho que já era umas 6h e constatei que já estava na página 64. Fui dormir em estado de graça.

Porém, uma das minhas angústias pessoais é a falta de tempo e cabeça para a leitura (sim, para ler um livro de forma decente é preciso ter cabeça, concentrar-se nele, viajar com as palavras, as idéias e as histórias. Senão, não tem graça, vira leitura de bula de remédio). Essa minha angústia só aumenta toda vez que olho para as dezenas de livros que comprei e não consegui ler. Justamente por isso, há oito anos me proíbo de ir a bienais de livro, como as que acontecem no Riocentro. Não que eu não recomende – caro leitor, por favor, vá à Bienal! É que a cada ida, não conseguia evitar uma viagem pelas estantes, capas, orelhas e resenhas e saía de lá, empolgado, com mais 10 novos livros maravilhoso debaixo do braço. E depois de algum tempo vinha a depressão: eu não conseguia ler aqueles livros e a minha biblioteca aumentava na mesma proporção da minha angústia de leitor-que-quer-ler-e-não-consegue.

Falar em livros é falar em livrarias. Já se foi o tempo em que posto de gasolina vendia apenas combustível e não havia outra coisa em livraria a não ser livros. A cultura da conveniência e a necessidade de diversificar negócios transformaram as boas livrarias cariocas em centros de lazer cultural. Lá também tem CDs, DVDs, calendários de parede importados, exposições de fotos, papelaria e uma coisa muito especial, fundamental para o que elas são hoje: bares e restaurantes.

Ir a uma boa livraria virou um programa tipicamente carioca e, até o momento, ainda uma coisa bem Zona Sul (infelizmente... Alô Vila da Penha! Alô Realengo! Alô Irajá! Vocês também têm direito a uma ótima livraria com um café gostoso!). Hoje, uma boa livraria é um dos locais onde mais gosto de tomar um café da manhã, almoçar ou jantar. Porque além de terem restaurantes charmosos, ainda fico um tempo me deliciando com livros e CDs. E testando minha força de vontade para não comprar metade da livraria.

Minha preferida é a Argumento, a original, da Rua Dias Ferreira número 400 e alguma coisa, no Leblon. Nos fundos da livraria, tem o charmoso Café Severino, que já virou quase que um puxadinho de minha residência.

Descobri a Argumento por acaso. Nos idos de 1999, fui trabalhar numa agência de comunicação que funcionava no mesmo prédio da livraria, só que no terceiro andar. E todo dia era uma tortura: lá pelas 4 horas da tarde, vinha um cheirinho inebriante de bolos, pães e outras delícias que vazava da cozinha do Severino e subia pelas paredes e se infiltrava em nossas janelas. Logo lá estava eu fazendo reuniões de trabalho com minha equipe no próprio café, regadas a capuccino, torradas, bolinhos etc. E a Argumento virou meu local preferido para o almoço.

O cardápio não tem muitas opções de pratos, embora para sanduíches (todos bem servidos, valem por uma refeição) o que não falte é variedade. Meu filho Miguel malabarista uma vez me disse num restaurante que sou “muito previsível” pois sempre peço os mesmos pratos, as mesmas sobremesas. E é verdade, é meu lado conservador. Na Argumento, meus preferidos são o penne com molho do dia, normalmente de presunto parma com tomate seco, e o crepe de frango ao molho normando, que custa uns R$ 25. Vem com saladinha e é uma delícia. E não me peça para descrever o molho normando, tem que experimentar e se surpreender. Gosto de pedir uma taça de vinho para acompanhar, que sai por quase metade do preço do prato, na faixa de R$ 10, mas com opções bem decentes, ao nível de um chileno Tarapacá.

Na hora da sobremesa... ah, depende do dia. Normalmente é o bolo de laranja, quentinho, com glacê por cima, acompanhado de um café pingado ou um chá inglês. Mas pode ser também a taça de sorvete de creme com calda de chocolate quente por cima. Parece uma escolha banal, mas a calda de chocolate quente da Argumento é qualquer coisa de divina. E peça um chorinho, as meninas sempre atendem. Mas tem outra opção que veio direta do paraíso: o milk-shake de chocolate com café, que é um manjar do Olimpo das gulas. A propósito, ouvi dizer que Fernanda Montenegro, nossa grande musa, certa vez comentou que a gula é o pior dos pecados capitais. Porque além de ser pecado, engorda. Mas se estiver com esse tipo de problema, é só pedir o strudel diet de banana. Gostosinho e light.

Mas o Severino não é apenas gula e charme. É meu local preferido de leitura. Já levo meu próprio livro ou revista debaixo do braço e vou lendo enquanto a comida não chega e continuo na hora do cafezinho. Para mim, é um ambiente ideal, o clima está todo ali para se enfiar a cabeça numa boa história impressa em dezenas de páginas. Nos fins de semana, tem a opção do café da manhã, que agora virou um self-service que custa uns R$ 18. Tudo coisa boa, os pãezinhos são deliciosos. Mas recomendo chegar cedo, às 10h, quando a livraria abre, porque enche rápido, já virou mania da Zona Sul.

A Argumento não é a única livraria com restaurante que vale a pena. A Travessa é outra. Tem a da Travessa do Ouvidor, no Centro, num clima mais executivo de meio de semana, com quiches com saladas e alguns pratos interessantes no cardápio, todos ótimos. Tem a de Ipanema, a mais badalada de todas, na Visconde Pirajá (entre a Henrique Dumont e a Aníbal de Mendonça), que oferece, junto ao café, no segundo andar, uma enorme bancada de CDs e DVDs nacionais e importados que é um convite para se ficar horas viajando músicas e filmes gravados. Seu bar é meio moderninho, com uma decoração mais pro high-tech. Tem uma sopa de tomates deliciosa e boa variedade de tortas e doces. A outra Travessa, do Shopping Leblon, é mais nova e ainda não consegui testar. Mas dizem (amigos e críticos de O Globo) que o restaurante de lá é maravilhoso.

Uma livraria que já foi tudo isso e mais um pouco é a Letras & Expressões. Freqüentei muito a de Ipanema, mas o local agora fecha cedo, medo de assaltos. A do Leblon tem um café pequeno e apertado. Mas no entorno, pleno Baixo Leblon, o que não faltam são boas opções de bares e restaurantes: Cafeína, Pizzaria Guanabara, Jobí, Diagonal, Togú, Café do Armazém, BB Lanches e até McDonalds. E quando estou por lá, altas horas, depois do chope ou da comidinha derradeira da noite, é inevitável: não resisto a dar uma folheada nas revistas importadas e livros da Letras & Expressões, que fica aberta a noite toda, para alegria da boemia. E, se tiver lugar pra sentar, fecho a noite no bistrô da livraria, com um cafezinho e alguma torta gostosa.

Um dos meus sonhos de consumo é algum dia ser condenado a passar dois anos na cadeia. Mas não em um xilindró pestilento de algum subúrbio carioca, com 50 desesperados por metro quadrado. Estou falando numa cadeia norte-americana, de estilo, com cela individual e um mínimo de conforto, coisa de Primeiro Mundo. Aí, sabe o que farei? Levarei minha biblioteca particular para o presídio e, juro por deus e pela minha mãe mortinha, lerei todos os livros que algum dia comprei em minha vil existência.

Aí, sim, serei um homem feliz.

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