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Choque de ordem? Que ordem nós queremos?
Queridos leitores & leitoras, em vez de dar ideias (sem acento, olha a reforma ortográfica aí gente!) para que solteiros e solteiras no Rio sejam mais felizes a dois (ou a três, a quatro, de qualquer maneira de amor que valha a pena...), permitam-me falar de algumas coisas sérias e menos agradáveis. Prometo que na próxima crônica volto a falar das delícias de ser carioca e morar no Rio.
No primeiro fim de semana do ano, vi uma cena triste na Praia de Ipanema. Um grupo musical, a Orquestra Voadora, que é uma brass band com uns dois trombones, três trompetes e uma tuba, com o auxílio luxuoso de quatro percussionistas (surdo, caixa, zabumba e agogô), surgiu no Posto 9 para fazer seu som para o grande público.
Ipanema é assim, de repente aparece um poeta, um grupo de malabaristas, uns capoeiristas, alguns atores performistas, um bloco de carnaval, um cortejo de maracatu, quatro caras tocando bateria juntos. Não à toa Ipanema é a praia das dunas do barato, da tanga do Gabeira, da Leila Diniz de peitos de fora na Banda de Ipanema, do Simpatia é Quase Amor, do verão da lata, do doce balanço da Garota de Ipanema a caminho do mar. A arte e a irreverência caminham tranqüilas de mãos dadas pela Praia de Ipanema, sempre foi assim.
Esse era mais um momento ipanemense ímpar – de uma praia onde todo ano, meia hora depois do réveillon, sai um bando de hare-krishnas animadérrimos em desfile pelo asfalto. Parece até um bloco carnavalesco e muita gente vai atrás feliz da vida entoando “hare hare, hare Krishna...” e bebendo champanhe. Talvez seja a única praia do mundo onde se bate palmas para o por do sol. E é uma praia ótima para se namorar, arrumar namorado ou namorada, com vários points de gente bonita, a começar pelo Posto 9. E bota gente bonita nisso.
Mas dessa vez algo aconteceu. Os trompetistas e trombonistas voadores começaram atraindo as pessoas graças à qualidade de sua música, que ia de Jorge Ben e Vinícius de Moraes a Michael Jackson, com arranjos bacanas e empolgantes. Logo reuniram umas 100, 200 pessoas em volta, dançando na areia felizes da vida com aquela música inusitada e cheia de empolgação e beleza. Os músicos estavam de roupa de praia, parecia que tinham acabado de sair da barraca e foram em casa pegar o instrumento para fazer um som. Tudo bem Ipanema.
Aí, o inusitado. Surgiu um camburão da PM. De dentro dele, saiu um tenente que se dirigiu aos músicos. Uma história que me remeteu aos tempos da ditadura militar. O oficial de baixa patente, dessa feita de forma educada, comunicou aos músicos que eles não poderiam fazer aquele som sem comunicação prévia ao Batalhão da Polícia Militar, para que fosse providenciado policiamento para o “evento”. Uma novidade que ninguém sabia, mas que o PM estava pronto para impor a tudo e a todos. Ele disse que, a partir de agora, qualquer manifestação que cause aglomeração tem que ser comunicada antes ao Batalhão.
Os músicos insistiram, argumentaram que estava todo mundo curtindo a música na maior paz, dia de sol, fim de tarde gostoso, um deles até se exaltou e disse que iriam tocar assim mesmo. Aí o tenente educadamente engrossou: “Se insistirem, os instrumentos serão confiscados”.
Os músicos acabaram negociando com o tenente, que os autorizou a tocar mais algumas músicas para não decepcionar a “plateia”. A Orquestra Voadora fez bonito em mais meia dúzia de composições e parou, avisando no gogó para quem quisesse ouvir: “Teremos que parar porque a Polícia Militar não deixa tocar mais, senão poderão nos confiscar os instrumentos”.
Imediatamente me passou pela cabeça: será que, numa cidade com tanto ladrão roubando e matando nas barbas da PM, esses policiais não tinham coisa melhor para fazer do que ficar ameaçando confiscar instrumento de músico que está fazendo a galera se divertir num fim de praia? Como diria Caetano, “alguma coisa está fora da ordem...”.
Isso acontece em meio à posse do novo Prefeito do Rio, Eduardo Paes, que já chegou ameaçando com vários “choques de ordem”. E saiu posando para a imprensa rebocando carros, recolhendo mendigos, atacando camelôs. Uma coisa é fato: o Rio precisa de ordem, muita ordem. Mas seria interessante que a população fosse consultada sobre o tipo de ordem que precisa e deseja.
Por exemplo, ambulantes que vendem garrafas de vidro em meio aos blocos de carnaval deveriam ser imediatamente presos. Aliás, é preciso botar muita ordem nos ambulantes durante o Carnaval. E aí é preciso criatividade. Porque não existe bloco que sobreviva sem cerveja e água para beber no calorão da folia em pleno fevereiro. Mas também é impossível brincar e evoluir com a agressividade e falta de ordem dos ambulantes, que empurram seus isopores enormes e fedidos no meio da multidão sem a menor cerimônia. É um vale-tudo, ninguém fiscaliza ambulante, eles fazem o que bem entendem.
A questão da ordem no carnaval é um desafio para as autoridades, que se omitem e deixam a coisa sobrar para foliões e moradores. Por exemplo, um bloco como o Suvaco de Cristo, que é genial, quando ele fecha a Rua Jardim Botânico por algumas horas causa um transtorno enorme aos moradores e a quem precisa transitar por lá. Muita gente fica super desconfortável dentro de um veículo num engarrafamento monstro e demorado.
Não dá para proibir o bloco, que é uma manifestação cultural e social fantástica, mas é preciso que se arrume uma maneira de o trânsito fluir. Vai que tem alguém tendo um ataque do coração em um apartamento com um bloco gigantesco passando na porta. Essa pessoa vai acabar morrendo por falta de acesso das equipes de socorro ao local.
Ordem pela ordem pode ser bonito para as câmeras de TV e fotos de primeira página. Mas pode nos levar de volta a um estado policialesco. Pode virar sinônimo de repressão a tudo o que o Prefeito acha que é errado – independentemente do que o restante da população acha que é certo ou errado.
Vou citar um exemplo, que é muito caro para mim: as motos. Logo nos primeiros dias, carros-guincho da Prefeitura andaram recolhendo motos estacionadas nas calçadas do Centro. Não estacionadas de qualquer maneira, mas sim agrupadas entre pilotis de prédios, de forma que não atrapalham a passagem de pedestres. Ora, a moto ocupa menos espaço que o carro, polui menos, ajuda a reduzir o número de carros nas ruas, deveriam ser tratadas com estímulo. Em vez disso, os taxistas cariocas, super mal-educados, não gostam muito de motos e adoram dar fechadas e andar grudados na roda traseira das motocicletas e lambretas. Uma coisa perigosíssima. Mas nunca vi um guarda de trânsito punindo eles por essa prática hostil e gratuita. Porém, para rebocar moto, não faltam recursos da Prefeitura.
Por fim, na noite passada, 21 de janeiro, choveu por dez horas seguidas sem parar no Rio. Às 21h, estava eu chegando na Lapa e o trânsito era um caos completo. Ninguém andava, o sinal abria de um lado e os carros não passavam porque os veículos da outra pista fechavam a rua. Demorei 40 minutos, de moto, para ir do Passeio até a Praça Tiradentes, num caminho que normalmente levaria uns 7 minutos. E na Praça Tiradentes estava o mesmo caos. Encontrei um casal amigo meu que mora no Méier e trabalha por ali procurando um hotel para dormir, pois era inviável pensar em chegar em casa sem passar por umas três horas de engarrafamento.
Não vi, nem ali nem nas horas anteriores, em Copacabana e nas Praias de Botafogo e do Flamengo, nenhum guarda municipal ou polícia militar para ajudar o trânsito a fluir. Ali, sim, a população carioca precisava de um choque de ordem para ajudá-la a vencer o caos das ruas inundadas, do trânsito parado e confuso. Prefeitura e Governo estadual deveriam ter planos de emergência para essas horas. Mas parece que os guardas municipais já estavam no conforto de casa e os PMs no quartel, onde não se molham na chuva.
Senhor prefeito e senhor governador, que falta de ordem, hein...
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para
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