Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Duas rodas sobre a cidade – primeira parte...

No mês de janeiro deste ano de 2007 que vai se acabando, completei uns 12 anos como urbanóide motorizado militante – isto é, um cidadão totalmente movido a 4 rodas.

Eu era assim, um homem-automóvel, ninguém que me conhecesse podia imaginar-me sem um carro próprio, indo e levando todo mundo pra lá e pra cá. Já havia perdido o hábito de andar de ônibus e metrô. E nas poucas vezes que o carro baixava oficina por alguns dias eu me dava ao luxo de andar de táxi.

Além do conforto e da mobilidade que um veículo proporciona, eu guardava lembranças meio estranhas das últimas vezes que adentrara um ônibus comum trajando terno e gravata, lá pelo final dos anos 90. Senti-me um estranho no ninho em meio a trabalhadores vestidos de maneira mais comum. Concluí rapidamente que se houvesse algum assaltante ali eu seria a primeira criatura na lista das vítimas selecionadas pelo vilão. Fiquei inseguro e concluí que ônibus não eram feitos para seres executivos engravatados.

Mas o mundo dá voltas e pela primeira vez em mais de uma década fui forçado a ficar a pé: vendi meu carro tão querido, um confortabilíssimo Honda Fit com apenas 11 mil quilômetros rodados. Tempo de vacas magras, os R$ 38 mil da venda do carro reduziram minhas dívidas e me deram uma boa sobrevida como desempregado por mais alguns meses.

Ato contínuo, tive que encarar novamente a dura realidade dos ônibus. Em especial um tal de 157 (Central-Gávea), que ostenta uma medonha cor laranja puxada pro vermelho. Eu e outros moradores desmotorizados da Av. Epitácio Pessoa, no trecho entre o Cantagalo e o Rebouças, somos totalmente dependentes do 157 – ele é a única opção de ônibus para quem se dirige a Botafogo, Flamengo, Lapa e o Centro da cidade. A alternativa, bem melhor e mais rápida, é pegar um dos ônibus que saem do Rebouças em direção a Copacabana e lá tomar o metrô do Cantagalo ou algum dos vários ônibus e vans à disposição na N.S. de Copacabana. Mas aí paga-se duas passagens...

Vencer o antigo temor de segurança foi fácil – hoje os ônibus estão cheios de engravatados e de mulheres em modelitos executivos, dá até para abrir uma “Harvard Business Review” sem que ninguém desconfie que você é um ET.

Mas logo desenvolvi outra sensação aterrorizante: aquele momento em que você chega na esquina e vê seu ônibus passando do outro lado da rua, condenando-o inapelavelmente a ficar 20 minutos em pé no ponto, qual garota de programa em exposição para seus potenciais clientes. Ninguém merece...

Paralelamente, passei a vivenciar um tanto da desordem urbana carioca, em sua versão transporte coletivo. Os motoristas do 157 parecem sentir raiva da empresa em que trabalham e se vingam dela num esforço denodado e calculado para destruir os ônibus que dirigem. Ignoram regras básicas de direção para a boa manutenção de um veículo: arrancam bruscamente, aceleram raivosamente, freiam de maneira violenta e adoram brincar de “Acelera Ayrton!!” nas curvas ao final da Fonte da Saudade e na entrada da Lagoa, no trajeto de volta. Quem estiver em pé e não se segurar muito bem, vai pro chão. E haja braço... certa vez, eu estava com tendinite no ombro e segurar-me no ferro do 157 foi uma verdadeira tortura, saí dali direto para mais uma sessão de shiatsu...

A propósito, foi um ônibus dessa mesma viação pseudo-alaranjada que atropelou algumas pessoas e matou pelo menos uma num ponto de ônibus da São Clemente meses atrás. Pior, a direção da empresa dona do veículo não procurou as vítimas para ajudá-las, ao contrário, se fez de morta... Conclusão: fiscalização dos ônibus no Rio deve ser uma daquelas coisas utópicas, pra inglês ver... não me surpreenderia se fosse movida a propinas dos ricos empresários do setor, cuja fama nunca foi das melhores.

Bom, já estava acostumado a pegar o ônibus pro Cantagalo, e de lá o metrô, quando me cansei de ficar a pé. Ir para o Centro era tranqüilo, mas a volta não. Se optasse pelo metrô e outro ônibus, ficava preso no engarrafamento disgusting da Epitácio Pessoa. Se andasse até a Cinelândia para pegar o 157 e voltar direto, caía em outro engarrafamento tão ruim quanto, o da São Clemente no início da noite.
Outro problema da minha situação sem-carro era sair de noite. Acabava morrendo numa grana de táxi. Ir e voltar da Lapa saía a quase R$ 50, quase o dobro do que eu gastaria na noite, entre couvert artístico e bebidas.

Uma vez tentei voltar de ônibus da Lapa a 1h30 da madrugada. Pegar o 157? Sonho meu... ele pára de circular às 23h. Esperei solitariamente 35 minutos, num ponto pestilento e mal cheiroso da Rua do Riachuelo, por um ônibus que me deixasse no Humaitá, onde andaria seis quarteirões até meu prédio. Nesse tempo, vi passar algumas vans com placa do 409, a maioria caindo aos pedaços. Acabei me rendendo à pirataria do transporte coletivo e peguei uma Kombi em estado qualquer coisa, rangendo por todas as latas, adernando a bombordo, com a porta ameaçando abrir-se por vontade própria, mas ainda conseguindo manter-se em movimento, sabe-se lá como.

O coletivo 409, como é público e notório, vai até o Horto. Já a van pirata com placa de 409... Quando chegamos na Praia de Botafogo e desceu o último passageiro, o motorista me perguntou aonde eu saltaria. “No final do Humaitá, na boca do Rebouças”. Qual o quê... veja, ilustre leitor, a resposta do motorista do transporte “alternativo”: “Só vou até a Cobal”. Reclamar a quem, ao vigário??

Ai, que saudades dos meus carrinhos... tinham ar condicionado, era o local onde mais ouvia meus CDs, foi no meu Hondinha que dei meu primeiro beijo na minha última namorada, tinha sempre um pandeiro no porta-malas para qualquer eventualidade sambística, era a alegria das minhas amigas que adoravam uma caroninha pra Lapa... Acho que eu não combino muito com ônibus. Coisa elitista, eu sei, mas é minha realidade de carioca Zona Sul...

Fato é que, depois de muito matutar sobre minha condição no MSC (Movimento dos Sem-Carro), parti para uma pesquisa na Internet, visitei algumas lojas, fiz um test-drive e rendi-me à conclusão de que era uma boa comprar uma lambreta.

Bom, já que chegou até aqui, aguarde mais uma semana para ler a continuação dessa eletrizante experiência de andar sobre duas rodas nas ruas do Rio de Janeiro. É tudo uma questão de logística editorial: a coluna ia ficar muito grande, e você poderia desistir de ler antes do final, não é mesmo?

Então, até lá e uma boa semana para você!

E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br






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