Meu Rio
PH de Noronha
 
 

O sexo e a cidade carioca (4)

Como já venho dizendo nessa série de crônicas taradas, e vocês, leitores, já perceberam, sexo, no Rio, anda junto com a música, o teatro e o carnaval.


Cinco anos atrás uma amiga minha saiu do meio do desfile do bloco Imprensa que eu Gamo e foi com um cidadão recém-conhecido para o carro dele, um Fusca estacionado a algumas quadras, numa rua calma e escura de Laranjeiras, meio da noite de sábado. Consumaram o fornicamento dentro do veterano Volkswagen. Logo no início, quando o indivíduo abriu o porta-luvas, dele caíram camisinhas, que tinha às pencas... o folião já andava mais do que prevenido para o sexo-móvel.

Essa e outras amigas minhas acumulam histórias impagáveis de sexo no carnaval. Uma delas transou nas areias de Ipanema, lá pelas 23h, depois de um desfile do Simpatia é quase Amor. No mesmo bloco, outra amiga pegou um gatinho 12 anos mais jovem que era duro, estudante ainda, que a levou de ônibus para um motel barato na Rua Haddock Lobo, em plena Tijuca, a dois quarteirões da casa dela. Quando ela deixou o motel no dia seguinte, ainda de ressaca, ao botar o pé na rua se tocou que corria o risco de ser vista pela mãe, pelos vizinhos, pelo porteiro... numa manhã ensolarada de domingo saindo de um motel na hora que as pessoas voltavam da missa.

Outra amiga, já pós-balzaca, fisgou mais de um universitário no mesmo Simpatia, todos ótimos de cama, garotões fortes e bonitos, mas durango kids, ainda vivendo de mesada. Resultado: ela é que pagava o motel, o táxi, a cerveja... mas pelo menos tinha uma boa cama.

Por falar em praia, outra amiga (sim, tenho dezenas de amigas, mas não como nenhuma...) saiu de uma roda de samba no fim de semana arrastada por um dos músicos para ver o nascer do sol no Arpoador. Depois de transarem nas areias, o músico, empolgado pelo sexo e pela bebida, e já sob a primeira luz solar, tirou o que restava de sua roupa e correu para as águas, entregando-se de corpo nu a Iemanjá, às vistas dos primeiros praticantes do jogging matinal. Na descrição da minha amiga, “o barbudo magro e branquela correu pelas areias balançando tudo e jogou-se no mar como se ninguém estivesse olhando, mas a praia já tinha gari, guarda-vidas, terceira idade caminhando no calçadão...”.

Na antiga gafieira Estudantina, um lugar mágico onde o samba, o bolero e o swing dançavam em meio a inúmeras histórias de amor, vi e ouvi casos deliciosos. A Estudantina era um local que atraía, basicamente, três tipos: os que iam lá para dançar – e era um espetáculo ver aqueles homens e mulheres dançando maravilhosamente bem, felizes da vida com seu corpo suingando com a música –, os curiosos e desavisados de plantão e os que iam paquerar. E na paquera havia os profissionais, e alguns que se pretendiam assim. Como o “Ponto de interrogação”, apelido dado por um genial amigo meu que era rato de gafiera. O “Ponto”, como o chamávamos na intimidade, tinha esse apelido porque, explicava meu amigo, “sua cara não diz a que vem”. E era verdade, era daqueles rostos meio Mona Lisa, você nunca sabe se o cara está triste ou rindo da sua cara...

Pois uma vez o “Ponto” pegou uma colega minha jornalista, bela moça, e tirou-a pra dançar. Ela, que pouco ia à Estudantina, se sentiu encantada e lisonjeada por aquele dançarino simpático que a botava para rodar na pista. Sentiu-se cortejada como uma princesa. Até que, certa hora, o “Ponto” começou a apertar seu corpo contra o dela. Esse era o primeiro movimento dos paqueras em cima das moças desavisadas. E começou a acarinhar suas costas com a ponta dos dedos, pressionando num misto de I ching com shiatsu, mas com óbvias segundas intenções. Aí, ela sentiu, deu uma chegada para trás, afastando o corpo no meio da dança, fechou a cara e mandou um recado para as mãos do rapaz, que praticamente já estavam a massagear suas costas: “Olha, eu não sou massa de pão não”. Pra que... teve que ouvir a resposta do “Ponto”: “Ah, mas eu adoraria ser o seu padeiro....”. Ela não resistiu: caiu na gargalhada e deixou o “Ponto” continuar tirando uma casquinha de seu corpo bonito e desejoso.


Teve outra vez que fui com nada menos que 6 amigas. E aí um paquerador começou a tirá-las para dançar, uma a uma. Depois de ter dançado já com quatro delas, estávamos na mesa e comecei a perceber uma inquietação entre elas, que conversavam ao pé de ouvido. Uma revelou: o cara estava dançando excitado e roçando o membro nas pernas delas. Todas estavam revoltadas! Com exceção de uma, que discordou das outras, não sentiu nada e ainda disse: “Ele dança tão bem...”.


Na mesma Estudantina, esse meu amigo rato de gafieira, que era um pegador nato, bonito e charmoso, contou-me orgulhoso como ficou abraçado com duas irmãs – que ele já tinha namorado em ocasiões diferentes – e como naquele abraço ele conseguiu burilar os peitos das duas ao mesmo tempo, sem que nenhuma delas percebesse que ele também excitava a outra com a outra mão. Esse era danado: tinha uma facilidade incrível para conquistar mulheres. Nem sempre as levava para a cama, era comum ele se contentar com uma parte do corpo ou do sexo delas. Numa festa de reveillon numa cobertura em Ipanema, encantou-se de uma paulista, arrastou-a para um canto sossegado e fez o que queria fazer. Quando se satisfez, foi se retirando, não queria mais do que isso.Mas a dona reclamou, queria mais. Então, ele “permitiu” que ela o satisfizesse, pela primeira vez naquele ano novo.


Festa no Rio de Janeiro, seja de reveillon, seja de aniversário, seja de carnaval, sempre acaba com alguém saindo juntos e, muitas vezes, indo parar na alcova. Até mesmo em festas de empresas. Numa antiga companhia multinacional que já não opera mais no país, aconteceu uma engraçada. Na reunião de preparação para a próxima festa de fim de ano, um gozador da área de Comunicação, que estava à frente da organização, começou a desfilar todas as ações para viabilizar a próxima festa. Ao final, encerrou com essa: “E estamos providenciando também colchonetes para as escadas”. A maioria não entendeu nada, nem eu. Depois da reunião, fui apurar. É que na festa do ano anterior a secretária de um dos diretores, casada, empolgou-se no uísque servido na festa no refeitório da empresa e acabou nos braços de um rapaz fortudo do Jurídico, que a levou para as escadas do prédio e lá mesmo consumou o ato libidinoso. Foram vistos, por mais de um colega de trabalho. No dia seguinte, a secretária estava morta de vergonha, mas demorou um ano para que alguém brincasse com a arte que ela aprontou na festa de natal da empresa...


Bom, vou encerrar essa série e parar de falar tanto de sexo, senão vocês vão pensar que eu e todos os demais cariocas somos uns tarados que só pensam naquilo. O que é apenas meia verdade: a gente gosta sim, e se orgulha disso, mas também trabalhamos, ajudamos quem precisa, amamos o samba e o carnaval, não gostamos de dias nublados nem de filas em restaurantes. Somos uma tribo bacana, legal. E vamos em frente que atrás vem gente.

Paulo Henrique de Noronha é jornalista

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