Meu Rio
PH de Noronha
 
 

E mande botar água no feijão!

Um dos bairros mais deliciosos do Rio é o Horto. Pudera, metade de sua rua principal, a Pacheco Leão, é um verde só, formado pela vegetação belíssima do Jardim Botânico, um dos patrimônios da privilegiada natureza carioca. E na outra margem, detrás de não mais que um ou dois quarteirões de casas, tem toda a mata da Floresta da Tijuca, subindo até as barbas do Cristo Redentor, com riachos e quedas d’águas de público cativo. Um programa cultuado por muita gente é fechar um domingão de praia tomando uma ducha natural na chamada cachoeirinha do Horto, aonde se chega por trilhas conhecidas apenas pelos iniciados.

Outro dia me levaram no Caxinguelê, um bairrinho escondido com casinhas simpáticas e um pequeno clube rodeado do verde botânico. Se chega lá por uma estrada de terra batida mal conservada. Como o clima é muito mais ameno do que as redondezas da Zona Sul, faz a gente pensar que está entrando em algum recanto de Itaipava ou São Pedro da Serra. Na entrada, tem uma placa de serviço grande, acho que é do Serpro, que não tem nada a ver com o lugar.

Perto dali fica a Estrada Dona Castorina, que é a primeira rua depois da pracinha onde os ônibus 409 e 410 fazem ponto final. Subindo-se alguns metros, à direita, dá-se de cara com um prédio funcional de porte. É o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Quando eu era adolescente e ainda não sabia o que queria ser da vida, gostava de Matemática e cheguei a pensar: “Ah, vou ser matemático e trabalhar como pesquisador no Impa”. Ainda bem que aos domingos o Impa não funciona, porque ia ser difícil fazer qualquer conta de 2+2 ali com a tentação que mora do outro lado da rua, um pouco mais embaixo, no número 105 – a Feijoada da Tia Elza.

Tia Elza, uma fofa, é uma tia portelense que, não sei por que cargas d’água, foi parar no Horto. Procurei no Google a história dela, mas achei apenas uma referência de que ela deve estar agora com 78 anos e que veio do Morro do Querosene. É devota de Santa Anastácia e criou a feijoada porque constatou que faltava um pagode de fundo de quintal na Zona Sul.

Santa Tia Elza, faltava mesmo esse pagode. E é samba de raiz dos bons, altíssima qualidade. O Grupo, que se chama algo do tipo “União e Força de Jacarepaguá”, tem um shape de pagodeiros comerciais do subúrbio. Mas é só a galera começar a tocar que lá vem Candeia, Zeca Pagodinho, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Luiz Carlos da Vila, Clara Nunes, Martinho da Vila, Aniceto, o repertório é da pesada!

O ambiente não podia ser melhor. Uma pequena mistura de Zona Sul com Zona Norte, com mulheres bonitas e gente que adora um samba de primeira. E que curte também uma belíssima feijoada, como a que a equipe da Tia Elza faz. Custa R$ 25 (couvert + feijoada), com direito a quantas repetições a criatura agüentar.

A última vez que fui lá, tinha duas figuras ilustres na platéia: a atriz Beth Mendes e Vó Maria, viúva de Donga, nada menos que um dos autores do “Pelo telefone”, e que deu uma rápida canja. Outra canja maravilhosa foi a que eu vi do Moyseis Marques alguns meses atrás, quando estava lançando seu disco: cantou nada menos que 8 músicas e levou a galera ao delírio.

O esquema lá é o seguinte. A casa – que lembra mesmo um fundo de quintal, com telhado de palha – funciona apenas aos domingos, e mesmo assim somente de 15 em 15 dias. Tem um site com pouquíssimas informações, mas que divulga as datas: http://www.feijoadadatiaelza.blogger.com.br/. As próximas serão nos dias 2 e 16 de março.

Abre às 14h, com a feijoada já na mesa. A turma que quer comer com calma, e sentada, é que chega nesse horário, antes das 15h30. Depois, fica difícil conseguir mesa e aí o jeito é comer a feijoada em pé, pedir um cantinho de mesa pra alguém ou ficar no balcão ou em um sofazinho que tem junto à parede. Tudo bem informal. Tem gente que vem direto da praia, em roupas de banho, e tem gente que vai toda arrumada. A faixa etária vai dos 18 aos 68. E é comum se comemorar aniversário lá.

Alguns nem comem a feijoada, pagam só o couvert de R$ 15 e não ganham a pulseirinha que dá acesso à varanda onde o feijão é fartamente servido. Mas isso é um pecado: a feijoada é maravilhosa! Feijãozinho bem temperado, carnes deliciosas, tem até Romeu e Julieta na sobremesa (goiabada de lata com catupiry).

No bar, recomendo, assim que pegar seu prato de feijão, encomendar uma batida de gengibre. Basta pedir ao atendente “aquele leite safado que vocês têm aí” que ele vai entender direitinho. Tem outras opções, mas, sabe como é, o gengibre faz bem pra garganta...

O samba começa por volta das 16h30 e quando chega umas 18h a equipe da casa recolhe as mesas em frente ao palco, para dar espaço pra turma dançar. Pronto, virou um quintal de samba. Sempre tem umas neguinhas e umas branquinhas que dão show de samba no pé, estremecendo a saúde de qualquer cristão. Vejam essa no Youtube: www.youtube.com/watch?v=XKGdUhXJP-o. Um espetáculo! Tia Elza não se faz de rogada e cai no samba também, com seu sorrisão simpático. O pagode tá formado e vai até 22h, com apenas um intervalo, ali por volta das 19h e tal. Ah, e em dias de jogo, tem uma TV na salinha da casa onde os freqüentadores podem sofrer com seu time do coração.

Feijoada com samba é uma mistura dos deuses. Monarco e os portelenses da antiga até hoje falam no feijãozinho maravilhoso feito pela Comadre Vicentina. E os encontros da Velha Guarda da Portela com seu público acontecem todo primeiro sábado de cada mês, na quadra da escola, regados por uma feijoada feita pelas tias portelenses, sob o olhar atento da Surica.

Essa combinação inspirou um samba genial de Paulinho da Viola, que todos devem conhecer e que relembro aqui em alguns trechos para fechar essa crônica:

“Domingo lá na casa do Vavá

Teve um tremendo pagode que você não pode imaginar
Provei do famoso feijão da Vicentina
Só quem é da Portela é que sabe que a coisa é divina...

Nego tirava o sapato, ficava à vontade, comia com a mão,
Uma batida gostosa que tinha o nome de Doce Ilusão
Vi muita nega bonita fazer partideiro ficar esquecido
Mas apesar do ciúme nenhuma mulher ficou sem o marido... no domingo...”

E-mails para o colunista: phdenoronha@yahoo.com.br








© 2007- Monte Castelo Idéias ® Todos os direitos reservados.
  Criação e desenvolvimento: Café Expresso Design