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O
samba sem mistério da Velha Guarda
da Portela
Filme brasileiro sofre, coitado.
Fui ver “O Mistério do Samba”,
dirigido por Carolina Jabor e Lula Buarque
de Hollanda, e ao procurar no jornal os
cinemas onde passava vi que eram poucos.
Um contraste gritante frente a produções
importadas, como o novo Batman, disponíveis
em incontáveis salas pela cidade.
E concluí logo, por experiência,
que não iria durar muito tempo em
cartaz. Ainda bem que consegui ver na primeira
semana.
Se você ainda não viu, querido
leitor ou leitora, corra! Trata-se de uma
das produções mais belas e
emocionantes da história do cinema
brasileiro. E é um filme carioquíssimo
em todos os sentidos.
Sou mais que suspeito para falar. Adoro
samba, especialmente o que é e foi
produzido pela Velha Guarda carioca: Monarco,
Aniceto do Império, Silas de Oliveira,
Cartola, Nelson Cavaquinho, Tantinho da
Mangueira, Candeia, Argemiro Patrocínio,
Paulinho da Viola (o caçula da Velha
Guarda portelense), Wilson Moreira, Luiz
Carlos da Vila, Martinho da Vila, Dona Yvonne
Lara, Clementina, Jair do Cavaco e tantos
outros. Muitos deles estão no “Mistério
do samba”.
O título é meio hermético.
Propõe que o espectador divague sobre
como um pessoal tão humilde pode
produzir, em condições tão
precárias de vida e de arte, verdadeiras
obras-primas da música e da poesia
musical brasileira – esse seria o
tal mistério do samba.
Porém, o que vi na tela foi um
passeio delicioso conduzido por Marisa Monte
pela vida e pela música de Monarco,
Casquinha, Argemiro, Jair do Cavaco, Surica,
Manacéa e outros membros da Velha
Guarda da Portela. Com o auxílio
luxuoso de Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho,
que, além de cantar, contam histórias
ótimas do samba portelense.
“O Mistério do samba”
é apresentado como um documentário.
Confesso que, quando li isso, botei um pé
atrás. Não espallhem, mas
tenho um preconceito infantil contra documentário.
Alguns, como o “Edifício Master”
do Eduardo Coutinho, ou o “Senta a
pua”, de Erik de Castro, são
simplesmente maravilhosos. Mas acho que
de tanto ver TV a cabo fiquei achando que
documentário eu vejo com mais facilidade
num Discovery ou Nat Geo, sem precisar ir
ao cinema.
Puro preconceito, mas que quase me desanimou
de ver “O mistério”.
Só fui depois que encontrei meu grande
amigo Mário Seve – um dos maiores
músicos brasileiros e diretor do
Centro Carioca de Referência da Música
Brasileira – voltando de Brasília,
onde fora tocar seu sax com Paulinho da
Viola. Mário tinha visto o filme
na pré-estréia e foi taxativo:
“O filme é lindo, emocionante,
não deixe de ver.” Mário
entende do riscado da música brasileira
e se ele estava dizendo isso, é porque
a coisa era séria mesmo.
Em verdade “O Mistério”
tem um tanto de documentário. Parte
de um trabalho tocante da Marisa Monte empenhada
em pesquisar e preservar a música
da Velha Guarda. Ela tem antecedentes. Marisa,
poucos sabem, é filha de Paulo Monte,
portelense apaixonado e que já foi
diretor da escola. Além disso, foi
produtora de um dos discos mais lindos da
música brasileira: o “Tudo
azul”, com a Velha Guarda da Portela.E
tudo tinha a ver: o “Tudo azul”
faz parte da pesquisa que “O mistério
do samba” mostra nas telas.
A câmera acompanha Marisa em seu
papel de Indiana Jones do samba de Madureira
e Oswaldo Cruz, revelando como ela descobriu
verdadeiros tesouros esquecidos em fitas
K7 e papéis envelhecidos guardados
pelas famílias dos sambistas históricos.
Mas a verdade é que fiquei com a
sensação que essa história
da pesquisa da Marisa e de documentário
foi tudo pretexto para registrar imagens
lindíssimas – inclusive na
fotografia e enquadramento – do samba
da Velha Guarda da Portela.
O resultado final é uma colagem
de cenas antológicas, como as de
Argemiro Patrocínio – “o
velho mais safado que eu já conheci”,
segundo Zeca Pagodinho – que conta,
com seu jeito mais natural do mundo, como
descobriu o significado da palavra “copular”.
O cinema vem abaixo numa risada coletiva
gostosa, e não é a única
vez que isso acontece no filme. Sim, “O
mistério” tem histórias
hilárias, não é feito
apenas de samba.
Mesmo que você não goste
de samba, tenha preconceito contra documentário,
desconfie da qualidade do cinema brasileiro
ou tenha coisa melhor para fazer, aceite
meu conselho gratuito: largue tudo e corra
para ver “O mistério do samba”.
É um retrato de um Rio que está
indo embora e que dá saudades até
em quem não viveu aqueles tempos
da antiga. Cariocas legítimos que
fazem a gente rir, se encantar, querer estar
ao lado deles para ouvir mais histórias
e, acima de tudo, sentir uma felicidade
danada por sermos também cariocas
e brasileiros.
Minha querida amiga Lucienne me mandou
torpedo quando eu estava dentro do cinema
assistindo o “Mistério”.
Perguntou qual era a boa da noite, onde
tinha um bom samba. Respondi, claro, para
que ela visse o filme. Ela titubeou, perguntou
se não tinha coisa melhor, eu reforcei,
“veja o filme, já!”.
Ela pegou a sessão depois da minha.
Quando saiu do cinema, me ligou ao celular,
quase em lágrimas: “PH, obrigada...
só queria te dizer obrigada... muito
obrigada...”. E mais não conseguiu
dizer.
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem
para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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