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A
feira que já foi hippie
Já disse aqui, tenho um carinho
especial por Ipanema. Passei toda a minha
infância lá, no quarteirão
da Barão da Torre entre a Teixeira
de Melo e a Farme de Amoedo, a meia quadra
da favela do Morro do Cantagalo. Jogava
pelada descalço na rua, quase não
passava carro. Os moleques do morro adoravam
roubar nossas bolas e quando corríamos
atrás deles tentando recuperar éramos
recebidos a pedradas no pé do morro
pelos “amigos” da galera do
roubo. Comprava botões de galalite
no Bazar Marrocos, na Rua Montenegro (atual
Vinícius de Morais), e nas férias
ia à praia em frente à Farme
todo santo dia – descascava a pele
três vezes ao longo do verão,
não precisava de protetor solar,
pois não havia buraco na camada de
ozônio. E domingo era dia de ir à
missa na Igreja N. Senhora da Paz e esticar
comendo pizza com milk-shake na Chaika.
Para mim, hoje o Leblon é o melhor
bairro para se morar no Rio – exceto
se eu ganhar na Megasena e puder, afinal,
comprar meu espaçoso apê num
daqueles prédios antigos de quatro
andares na Vieira Souto, coisa de R$ 1 milhão
pra cima. E o quarteirão aonde eu
morava agora é área de alta
periculosidade, porque a molecada malandra
do morro foi substituída por traficantes
e assaltantes bem mais barra pesada.
Mas ainda guardo esse carinho especial
por Ipanema, que renovei domingo passado,
quando tive que ir à Praça
General Osório. Quando pequeno, brincava
muito lá, era a praça mais
próxima da minha casa, e todo ano
não perdia a exposição
que o Exército montava com barracas
de campanha, canhões, tanques, vários
soldados uniformizados, um mundo militar
fascinante para um garoto que, como eu,
ignorava que o país vivia sob a ditadura
miliar, ainda começava a descobrir
os Beatles e os Rolling Stones e amava mesmo
era o National Kid na TV, na hora do almoço,
pouco antes de sair para o colégio.
Ipanema, ainda hoje, é um canto
que acolhe e lança modas. A história
cultural do bairro é rica: Banda
de Ipanema com Leila Diniz botando pra quebrar
com seu barrigão e os peitos de fora,
o Circo Voador no extremo norte do Bairro
(mais conhecido como Arpoador), o Pier e
as dunas da Gal, a tanga do Gabeira, o Simpatia
é Quase Amor com seu sensacional
grito de guerra (“Alô burguesia
de Ipanema”), os surfistas, a tanga
do Gabeira, as fracassadas tentativas de
topless, os apitaços do Posto 9 à
Garcia D’Ávila, o point do
coqueirão, a barraca do uruguaio.
E ainda hoje Ipanema cultiva uma vida cultural
com algumas ótimas livrarias (Travessa,
Letras & Expressões) e a Toca
do Vinícius, na rua que leva o nome
do poetinha, lojinha especializada em Bossa
Nova & MPB, com um pouco de tudo, de
cds a camisetas. E Ipanema concentra muitas
butiques e restaurantes chics, em especial
no trecho que vai da Praça N. S.
da Paz até o Bar 20, como era chamado
no meu tempo o largo próximo ao Jardim
de Alah e onde o César Maia instalou
um dos mais horrorosos mostrengos da arquitetura
urbanística mundial, o “pirocão”
do Paulo Cazé.
Uma das modas ipanemenses foi a Feira
Hippie da General Osório, que se
autointitula “a maior galeria de artes
e artesanato do mundo, ao ar livre”.
No início, era coisa de hippie mesmo,
uma tribo que, é claro, tinha em
Ipanema um de seus pousos prediletos. Inclusive,
deve ter sido na Ipanema dos anos 70 que
foi cunhada a expressão “hippie
de butique”, que tinha entre seus
ícones a Bibba, uma loja que eu acho
que ficava na Garcia D’Ávila
e que oferecia vestuário estilo londrino,
totalmente inspirado na ideologia Peace
& Love.
A Feira
Hippie de Ipanema começou
em 1968. E, obviamente, tinha hippies, um
punhado deles com veia artística
na pintura, artesanato e vestuário
e que, como qualquer outra pessoa normal,
precisava comer, pagar aluguel, essas coisas
que exigem algum dinheiro no bolso. Resolveram
então render-se ao bom e velho meio
capitalista de sobreviver: vendendo o fruto
de seu trabalho artístico. Naquela
época era um local alternativo, onde
se encontrava roupas diferentes e baratas.
Mas quem encontrar algum hippie na Feira
de hoje ganha um cuscuz repleto de leite
condensado.
A Feira Hippie continua um grande barato,
um programa diferente e interessante para
o dia de domingo, mas seu foco mudou. E
seus artistas também. Seu público-alvo,
neste ano da graça de 2008, não
são mais os cariocas, e sim os turistas,
estrangeiros e de outros estados brasileiros,
que lotam suas vielas repletas de barracas
todo fim de semana. O resultado disso é
uma grande salada de produtos expostos nas
quatro calçadas da Praça.
E tem muitos produtos bacanas até
para os cariocas, acredite.
Arte pintada tem um pouco de tudo, quadros,
esculturas, algumas muito boas, outras de
gosto duvidoso. Numa barraca de esculturas
de metal polido, ouvi o artista comentar
que imagens de Jesus Cristo, Buda e Don
Quixote são as mais compradas e não
podem faltar. Artigos com motivos indígenas,
supostamente legítimos e originais
de diversas tribos amazônicas, de
arcos e flechas e cocares a simples colares,
têm espaço garantido –
turista adora souvenir “exótico”
de índio. “Excrusive Brasilian
shãrti, mai fabriqueichon, only riar,
gudi praice”, diz o vendedor com seu
inglês rastaquera a um gringo que
parou em sua barraca de camisetas com temas
como capoeira, bandeira do Brasil, Pão
de Açúcar e as calçadas
de Copacabana. Há uma tenda só
de capoeira, com roupas, berimbaus etc.
Será que tem tanto turista assim
que joga capoeira? Claro que não,
mas eles compram pra levar uma lembrança
ou tirar onda de gringo capoeirista.
Roupas têm para vários gostos:
camisetas turísticas, outras com
pinturas a mão (como a da Fernanda
Bartolo, onde comprei a minha com um pandeirista
e um cavaquinista tocando), batas indianas,
ponchos bolivianos. Móveis enormes,
em madeira e couro, também estão
expostos. Pedras preciosas, bijouterias,
sandálias, soldadinhos de chumbo,
almofadas, artigos de decoração
vários, brinquedos artesanais, chapéu
de lampião, incensos, bolsas e malas
de couro, barracas de comes e bebes. Uma
verdadeira feira de achados e perdidos da
cultura carioca voltada para faturar com
turistas – e o que não falta
lá é turista, de americanos
a russos e coreanos. Mas acredite, é
também um bom programa para os cariocas.
E, nas ruas em volta, tem bons restaurantes
para se almoçar ou esticar, como
o Fazendola, o Jangadeiros, Belmiro e a
Casa da Feijoada. Até um Irish Pub
se instalou por lá.
A feira abre às 9h e vai até
19h todo santo domingo, sem exceção.
Bom programa!
Paulo Henrique de Noronha é
jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem
para
meurio@solteirosesolteiras.com.br
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