Meu Rio
PH de Noronha
 
 

Copacabana, bom apetite

Um adolescente, negro, sujo, enrolado num cobertor encardido. População de rua, coisa normal. Em plena Av. N. S. de Copacabana, entre a Souza Lima e a Sá Ferreira, Posto 5. Não estava morto não, apenas parou ali para dormir, atrapalhando a passagem dos pedestres, pois boa parte do cobertor desenrolou e se espalhou pela calçada. Em plena luz do dia, uma quinta-feira, por volta das 10h. Dormia um sono de pedra.

A uns 3 metros, outro adolescente olhava a cena, literalmente chocado. Era um turista, acompanhado dos pais, com pinta de uns 18 anos. Cabelos louros legítimos espetados pra cima num estilo punk-chic comportado, pele clara, alto, magro, roupas esportivas, banho tomado, limpeza de Primeiro Mundo. O rapaz estava boquiaberto e petrificado, olhando fixo. Em estado de choque cultural. Parecia não entender como uma vida humana ficava ali jogada, bem na frente de todo mundo, e ninguém fazia nada...

Nós, cariocas, passávamos pelo corpo dormente sem dar bola. Já estamos anestesiados com isso. Mesmo no bairro que é paraíso dos turistas e símbolo mundial da Cidade Maravilhosa. Virou rotina desviarmos de corpos dormindo na rua, em Copacabana ou qualquer outro bairro. Eu e os demais passantes driblávamos aquele obstáculo urbano, tomando cuidado para não pisar nem no rapaz, nem no cobertor. Mas o jovem turista é de outro mundo (tinha cara de europeu, ele e a família) e não entendeu nada.

Bem-vindos a Copacabana, outrora “Princesinha do Mar”. Na moda mais uma vez desde a última novela das 20h da Globo, Copacabana é o bairro mais inacreditável do país. Difícil definir uma região que mistura o esquisito com o fascinante, o lixo com o luxo, o melhor e o pior do Rio de Janeiro. Copacabana não engana: é o verdadeiro purgatório da beleza e do caos, cantado em prosa e verso por um de seus mais brilhantes poetas, o bardo Fausto Fawcett, que costuma ser encontrado em sua naturalidade ébria pelas madrugadas do balcão do Cervantes.

Como pode um hotel como o Copacabana Palace – um dos bolos de noiva arquitetônicos mais lindos do mundo, point high society por natureza, hospedaria de reis e estrelas de Hollywood – conviver na mesma rua com a algazarra farofeira da multidão suburbana que desce do metrô da Cardeal Arco Verde todo santo domingo de sol para fazer uma passeata de gritaria e sujeira rumo à democrática praia? Em Copacabana pode. Da mesma forma como podem conviver o nº 200 da Barata Ribeiro e o Edifício Máster, dois prédios vale-tudo em termos de moradores, como o Edifício Chopin, vizinho do Copa, sede de algumas das mais ricas e disputadas festas de ricos do reveillon da cidade.

Foi nessa Copacabana que morei metade da minha vida, mais de 20 anos, sempre na Rodolfo Dantas, fronteira entre os Postos 2 e 3. Hoje quase não freqüento o bairro, só vou lá com freqüência pras minhas sessões de shiatsu no Posto 5 com o professor Mário Nomi, um japonês baixinho de menos de 50 quilos que faz milagres com seus pacientes cheios de problemas de coluna, estiramentos e tendinites.

A Copacabana dos dias de hoje é bem diferente daquela que eu deixei em 1990. Virou o paraíso de várias coisas. Da terceira idade, de dois hotéis para turista a cada esquina, de ladrões de olho grande nesses mesmos turistas, das garotas da dura vida fácil no trottoir do calçadão da praia, das vans, das lan houses, das estações de metrô (três em apenas um bairro!), das mais badaladas boates gays e lésbicas do Rio, do intragável rodízio de petiscos dos bares da Atlântica e dos permanentes “eventos” com quadras e palcos na areia, de vôlei de praia aos megashows internacionais de música.

Mas eu ainda tenho alguns bons motivos para chegar em Copacabana. Semana passada, por exemplo, vi “Tropa de Elite” no Roxy, o bom e velho Cine Roxy, que agora está fatiado em três salas, Roxy 1, 2 e 3. Cinema era uma marca registrada da Copacabana dos bons tempos. Provavelmente era o bairro com mais cinemas de todo o Rio de Janeiro: Ricamar, Jóia, Copacabana, Rian, Caruso... Outra marca do bairro era o comércio de rua, ainda hoje muito forte. Mas, curiosamente, Copacabana não tem um shopping center. (Tem o da Siqueira Campos, é verdade, mas este não conta, não deu muito certo...)

Outro bom motivo para se ir a Copacabana é comer bem. E comer bem, para mim, significa também não pagar muito.

Meus prediletos são o Cervantes e o Baalbek. O primeiro, situado no bas-fond da Prado Júnior (uma rua com status de avenida, mas com cara de inferninho), é o rei dos deliciosos sanduíches de carnes com abacaxi. Mas meu prato predileto de lá é o picadinho com batatas fritas e ovos mexidos, que eu gosto de incrementar com uma farofinha de ovos (haja colesterol...), acompanhado de chopinho e servido pelo Paulinho, garçom histórico da casa. Um espetáculo! Tem gosto de comida caseira legítima, com um molho maravilhoso. O prato custa apenas R$ 14 (a farofa é por fora) e dá para duas pessoas comerem bem.

Já o Ballbek, que fica na quase centenária Galeria Menescal, no centrão de Copa – entre a Figueiredo Magalhães e a Santa Clara – é simplesmente o melhor boteco de comida árabe da cidade, comandado pelas minhas grandes amigas Bia e Deni Chaachaa. Quibes, esfihas, tudo lá é delicioso, feito com carinho e capricho sob o comando das duas irmãs filhas de libaneses. E, poucos sabem, a Bia é uma chef árabe da melhor qualidade: ela prepara, sob encomenda, jantares divinos feitos na hora nas casas das pessoas. O kibe cru dela é uma coisa (com todo o respeito...).
Seguindo no campo dos prazeres da boca, recomendo também a Trattoria, que fica na pequena Rua Fernando Mendes, com massas caseiras autenticamente italianas e que, às vezes, fica cheia de gays, que tentam transformá-la em um point da turma do babado. Mas atenção: não aceita cartão de crédito... (em plena Copacabana, com milhares de turistas... vá entender...)

Um local que descobri que é excelente para conversas reservadas no meio da semana, sem aquelas milhares de pessoas berrando nas mesas à sua volta, é a tradicional Fiorentina, na Praia do Leme. O lugar fica vazio, quase às moscas no almoço durante a semana, mas mantém a boa cozinha e ambiente agradável, com aquela vista fantástica da praia de Copacabana – por isso mesmo, recomendo as mesas junto às janelas.

Outros dignos de meu registro: a tradicional Polonesa, na Rua Paula Freitas; o chinês do segundo andar da Francisco Sá com a Atlântica, com sua genuína culinária de Taiwan; o Arab, na praia, perto da República do Peru; a espetacular Mariu’s de frutos do mar na Praia do Leme (de preferência com alguma pessoa jurídica pagando a conta, que nunca é pequena...); a Colombo do Forte de Copacabana; e a Marisqueira, na Barata Ribeiro em frente à Inhangá, de estilo tradicional mas com boa cozinha de peixes.

Tem ainda três lugares que nunca fui, mas que meus amigos dizem ser fantásticos, e eu acredito: o Amir, árabe da Praça do Lido; o japonês Azumi, que fica na Ministro Viveiros de Castro; e o pé-sujo Pavão, na Paula Freitas, que minha querida Deni Chaachaa assegura ser divino.

Dos meus tempos de criança, quando ainda morava em Ipanema, antes da nossa mudança para morarmos em Copacabana (em novembro de 1970), uma coisa me dá muita saudade: os deliciosos e enormes pastéis do Lopes. Tratava-se de uma lanchonete no Posto 6, que lotava nos fins de tarde de domingo, todos atrás dos pastéis de queijo quentíssimos, feitos na hora, que soltavam aquele vapor queimante à primeira e perigosa mordida. Sempre que ia ao cinema no Caruso, era obrigatório depois passar no Lopes para comer um pastel. Uma maldade: hoje, o Lopes é uma padaria e confeitaria como outra qualquer e não tem mais o pastel dos meus sonhos...

Come-se bem em Copacabana, e com cardápio variado. Mas, por favor, risque do seu caderninho o rodízio de petiscos... ô coisa intragável... é baratíssimo, mas é azia na certa...




© 2007- Monte Castelo Idéias ® Todos os direitos reservados.
  Criação e desenvolvimento: Café Expresso Design