Meu Rio
PH de Noronha
 
 

O BG

O Rio de Janeiro é cheio de redutos, guetos e assemelhados. O Baixo Gávea é um deles. Pode chamá-lo apenas de BG, a galera de íntimos do local vai saber na hora do que você está falando.

E quem são esses íntimos? Basicamente uma juventude classe média Zona Sul chegada a uma boemia barata e ao ar livre, altas horas na rua bebendo em pé, paquerando ou apenas trocando um dedo de prosa com os outros íntimos do lugar.

Nas devidas proporções, o BG é a Lapa da Zona Sul. Não é a única, o Baixo Leblon – que não virou BL, quem tem intimidade prefere chamá-lo apenas de Baixo – é também uma Lapa Zona Sul. Mas o Baixo não é o BG, embora muita gente freqüente os dois.

O Baixo de hoje em dia, diferente daquele dos tempos do RA (para os íntimos de então, Real Astória, restaurante na esquina do outro lado da rua da Pizzaria Guanabara que deu lugar a um prédio de escritórios) e de Cazuza, Bebel Gilberto e sua trupe de “baderneiros” de plantão. O Baixo atual recebe uma classe média mais alta, mais chic e mais Patrícia e Maurício, embora ainda preserve guetos da boemia mais intelectual e escrachada, como o Jobi

.O BG de uns 30 anos atrás, quando eu o conheci, era diferente. A praça Santos Dumont, ponto geográfico de referência do Baixo Gávea, era conhecida também como pracinha dos maconheiros. A turma gostava de apertar um madrugada adentro nos bancos e recantos da praça mal iluminada, vez em quando encarando uma blitz da PM atrás dos transviados de então. O bar da esquina chamava-se Sagres – hoje ostenta o nome óbvio e sem graça de Garota da Gávea. O Sagres era o point. Esquerda, jornalistas, entendidos, odaras, a turma da marijuana, os paqueras, as Patrícias e Maurícios da época, todo mundo se encontrava ali. O Sagres acabou fechando e reabriu como novo nome. Teve uma história braba de um garçom que matou um freguês e aí brotou um movimento para boicotar o bar. Funcionou. Rapidamente deixou de ser o point e a galera começou a ir pro Hipódromo, uma quadra a mais pra dentro da praça.

No Sagres uma grande amiga minha teve um momento de impacto. Estava recém-separada, com dois filhos adolescentes, após uns 15 de casada nos quais ela foi absolutamente fiel (o mesmo não se podia dizer do marido, músico conhecido, que ela, só na hora da separação, descobriu que ele já havia comido metade do Rio, São Paulo e outras praças por onde passava em turnê; todos sabiam menos ela, e que todos achavam que sabia...). Ela começou a freqüentar o Sagres atrás de um novo amor.

Se embonecava para sentir-se mais jovem e ainda com idade de sair conquistando por aí. Ainda iria completar 40 anos, mas tinha perdido a noção de juventude e na sua cabeça de esposa fiel estava totalmente fora do mercado. As amigas davam a maior força, a chamavam para sair: “Vamos pro Sagres”. E ela começou a ir, já mais confiante.Numa das primeiras noites, as paqueras começando a dar as caras, ela na mesa com duas amigas, posando de ainda jovem para amar, ouviu uma voz grave ao seu lado: “Mãe, me empresta 10 reais pra eu tomar um chope com a galera”. Era o filho de 18 anos dando-lhe um choque de realidade. Ela ficou furiosa, despachou o garoto, “Sai daqui! Toma, vai embora!”, e ficou arrasada, desabafou com as amigas: “Agora ferrou de vez, todo mundo viu que eu tenho um filho grande e que sou velha demais pra paquerar...”.

Felizmente, a realidade foi diferente para ela. Paquerou e transou muito até que, com quase 50 anos, reencontrou um grande amor da juventude, casaram-se e estão felizes da vida há mais de dez anosA paquera ainda é presente no BG de hoje. Mas a idade média da galera que freqüenta o local é abaixo dos 30. Eu lá me sinto um tio da garotada. E ainda nem completei 50 anos. E o Garota da Gávea, ex-Sagres, fica meio vazio em relação aos demais bares, não guarda um décimo do charme do Sagres.O grande point é a esquina do Hipódromo e do Braseiro, quando a rua dos Oitis acaba na pracinha. Hipódromo é uma pizzaria, sempre com muita gente, especialmente nas sextas e sábados. Já o Braseiro tem uma das melhores picanhas da cidade por um preço convidativo, ali na faixa dos R$ 60 e poucos para duas pessoas.

E ali a 20 passos fica o Guimas, ideal para quem tem uma conta bancária pra lá de saudável, point do high society mais descolado.Sexta e sábado à noite a esquina fica intransitável, seja na calçada ou no asfalto. é o momento Lapa do BG. Carro só passa ali com muita dificuldade. Em compensação, tem gente bonita de montão. A maioria rapazes e mocinhas malhados de academias e queimados de praia. Mas também tem a turma jovem mais descolada de teatro, música e cinema. Aliás, foi no BG que surgiu o bloco ‘Me beija que eu sou cineasta’, um dos mais animados da Zona Sul. Mas o que não falta é juventude sadia e bonita, de vários matizes.Domingo à tarde, a freqüência muda um pouco. Mas só um pouco. A noite enfraquece de gente, mas o fim de tarde reúne a galera da saída de praia. O Braseiro fica impossível. Já virou programa ir para o Braseiro ficar quase uma hora bebericando e beliscando em pé ou sentado, do lado de fora, esperando uma mesa.

Uma coisa assim meio paulista, mas que os cariocas do BG estão absorvendo bem. Por duas vezes tentei uma mesa no Braseiro no fim de tarde de domingo para comer a sua deliciosa picanha e desisti. Muita fila para minha alma carioca. Fui pro Hipódromo, onde a picanha é boa, mas nem tanto, mas lá rapidamente se arruma uma mesa.Ali do lado do Braseiro, a uns 20 passos em direção à Rua Marquês de São Vicente, tem um novo micro-point. É o B.G. Bar, um boteco simpatiquinho que anda reunindo uma pequena multidão na calçada à sua frente. Uma turma que não se preocupa muito com o conforto: ficam bebendo em pé, sentado no único banco da rua ou no próprio chão.

É barato, não se paga gorjeta, a cerveja tem preço de botequim.Andando-se mais um pouco na mesma direção tem o Bacalhau do Rei, na Marquês de São Vicente. Prato cheio para quem gosta de um bolinho de bacalhau com chopinho gelado. Tem gente que fica horas ali em pé, no balcão, tal como faz o bardo poeta carioca Fausto Fawcett no balcão do Cervantes (que, por estes dias, anda fechado para reformas...).

E se subir uns 10 metros na Marquês de São Vicente, passando de um vistoso bar estilo americano de hamburguers (acho que se chama Gula Burguer’s) chegamos ao Shopping da Gávea, um centro comercial chic que muito e pouco tem a ver com o BG. Muito porque tem um tanto do astral do lugar, inclusive reunindo vários teatros – acho que é a maior concentração de teatros por metro quadrado do Rio de Janeiro, tem o Teatro dos Quatro, o Clara Nunes, o das Artes e o Vanucci. Mas o Shopping da Gávea, além de chic, é um lugar família. Família alta classe média Zona Sul, diga-se de passagem. Vive cheio de mães, crianças, tios, avós.

E tem lojas de fino gosto, tanto para roupas quanto para decoração e outras coisas do lar. O que atrai moças ricas bonitas, de todas as idades. Anyway, é um lugar muito agradável. Tem ótimos restaurantes e cafeterias, quase todos em estilo shopping, com mesinhas pra fora, no meio do corredor. E conta com um novo cinema com cinco salas, o Estação Vivo, meio escondido no último piso, mas que é charmosérrimo e muito confortável. No último domingo que lá estive, dia da criança, fiz todo esse circuito: tentei o Braseiro, desisti da fila, peguei a picanha do Hipódromo (que estava saborosa, bem melhor que da vez anterior que comi lá), fui tomar um café com uma torta deliciosa de chocobaba no Chez Anne, dentro do shopping.

Aproveitei para comprar um presente de aniversário para uma amiga minha numa loja deliciosa de coisas de decoração e bijouterias chamada Santa Cor, e na saída ainda fui ao supermercado Zona Sul da pracinha fazer umas compras rápidas pra semana.E já ia esquecendo de contar, aos domingos, à tarde, a pracinha é tomada por uma feira de antiquários bem bacana, com mais de 20 barraquinhas. Adoro ver a barraca de fotos antigas, dos anos 20, 30, 40 etc., e outras com brinquedos de antes de eu nascer. Um passeio bucólico bem gostoso pra dar ânimo de encarar a fila do Braseiro.

Paulo Henrique de Noronha é jornalista

Para falar com o colunista envie mensagem para meurio@solteirosesolteiras.com.br





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