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A Lapa está crescendo
Outro dia voltei, após mais de cinco anos, ao bar Sacrilégio, um dos pontos tradicionais de samba da Lapa. Ele fica da Mem de Sá, ao lado do Carioca da Gema e quase em frente ao Nova Capela, no quarteirão entre as ruas do Lavradio e Gomes Freire. Frequentei muito o Sacrilégio logo no início do bar, acho que ali por volta de 2004. Em seu pequeno palco, dois grandes amigos meus do samba de raiz, o veterano Seu David do Pandeiro da Velha Guarda da Portela e a cantora Simone Lial, expoente da nova geração de intérpretes de samba, fizeram shows memoráveis. A dona da casa, Ana, uma loura baixinha de cabelo curto animada toda vida, a certa hora sempre se esquecia de suas atividades gerenciais e caía no samba junto com os fregueses.
Antes de começar a frequentar o Sacrilégio eu batia ponto toda sexta no Carioca da Gema, no final dos anos 90 e início do século 21. Nem me lembro mais quem eram os músicos que lá tocavam, mas sempre tinha um bom samba de raiz. Normalmente eu chegava tarde, ainda pegava uma filinha na porta, mas lá dentro já tinha tudo esquematizado. O lugar ideal para se ficar era na janela à direita do palco (que ficava e fica até hoje de costas para a rua). Ali, tinha menos multidão do que na frente dos músicos, pegava-se o arzinho fresco da rua (a ventilação da casa era sofrível...) e ainda dava para se sentar no parapeito da janela. Tempos depois, a casa foi obrigada a fechar as janelas, acho que para reduzir a expansão do som para a vizinhança e ao mesmo tempo para ter ar condicionado. O público da casa era bacana, misturava uma classe média Zona Sul jovem e bonita com um público mais Zona Norte, classe mais para baixa do que para média, que curtia um samba de raiz e saía do trabalho direto pro happy hour da Lapa.
O Sacrilégio que eu revisitei dois sábados atrás está diferente daquele do início dos anos 90. Não vi a Ana por lá, nem sei se ela ainda é a dona do bar. Quando parei de frequentar, a Ana estava começando a perder boas atrações por problemas de relacionamento com os músicos – uma situação comum a outros bares da Lapa. Na parede lateral, onde ficava o antigo palco (o atual fica de costas para as janelas, como no Carioca), colocaram uma bela escultura colorida com o nome do bar fazendo uma brincadeira estilística com dois anjinhos barrocos. O quintal dos fundos foi arrumado e agora tem um bar bem montadinho. A casa recebeu um banho de loja.
O grupo que tocou nessa noite eu nunca tinha visto mais gordo, uma galera com cara e jeito de grupo de pagode de churrascaria de Olaria. Mas as aparências enganam. O grupo era excelente e seu repertório idem. Só precisam de um pouco de postura no palco, desenvolver mais o carisma e o sorriso, porque eles são meio tensos. O que não acontece na música, pois a turma toca muito e só samba da pesada, contando inclusive com o apoio luxuoso de uma flauta, coisa rara nos grupos de samba.
A frequencia desse novo Sacrilégio, no entanto, me desanima de voltar. Me lembrou a mesma frequencia que me fez parar de ir ao Carioca da Gema. Num aperto danado, era sábado e a casa estava lotada à meia noite, mas o que tinha era pouca gente bonita e muita breguice, parecia uma festa em churrascaria rodízio, no sentido depreciativo da expressão. Mas também é verdade que, se tinha de pouca gente interessante, sobrava animação. A turma podia ser feia e mal vestida, mas era animada pra burro. E nos intervalos o DJ ia de forró a Jorge Ben, Seu Jorge e Tim Maia e a turma não negava fogo: todos dançavam e cantavam os grandes sucessos. Mesmo assim, casa cheia com muita gente brega, não me animo a voltar...
Saímos relativamente cedo porque não tínhamos jantado ainda e a fome apertou, atravessamos a rua e fomos para o Nova Capela velho de guerra – que continua ótimo, mas com preços salgados: um bolinho de bacallhau a R$ 4 e uma porção de fritas a R$ 14 é dose. Na saída, me dei conta que a rua está apinhada de novos bares. Naquele pequeno quarteirão onde conviviam apenas o Bar Brasil e o Nova Capela do lado direito, e o Carioca da Gema, o Sacrilégio e o Dom Carlitos no outro lado da rua, contei nada menos que seis novos bares, e todos bem transadinhos, cada qual no seu estilo.
Boteco da Garrafa, Barbieri, Dom Lukas, Boêmia da Lapa, Boteko do Juca e Acaso Bar são os nomes dos novatos. Sem contar o Mofo e o Botequim Informal, que chegaram primeiro e já estão ali há alguns meses. Reparem que eu já citei, entre novos e antigos, nada menos que 13 bares em um único pequeno quarteirão. Será que todos irão sobreviver? Desconfio que sim, pois nenhum deles estava vazio, era preciso batalhar por uma mesa.
Essa pequena invasão de casas de bebericação, música e encontros apenas confirma a vocação da Lapa como grande centro de noitadas do Rio. No quarteirão anterior e no seguinte também há bares novos. Pouco mais pra frente na mesma Mem de Sá tem o Bar das Quengas, sempre cheio mesmo de madrugada e que tem uma codorna muito gostosa. E no trecho anterior tem a Lapa propriamente dita, com a Joaquim Silva sempre fervendo. E público não falta, para todos os gostos. Vale dar uma explorada, sem preconceitos, encontrar sua tribo e se divertir.
Pra terminar, continuo devendo a ida àquele sarau que citei duas crônicas atrás. Mas, como dizia Ibrahim “os cães passa e a caravana ladra” Sued, “Gigi eu chego lá”. Quem viver, lerá.
Inté!
Paulo Henrique de Noronha é jornalista
Para falar com o colunista envie mensagem para
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