Espelho
Fernanda Machado
 
 

Os retratos de uma exposição

Nas últimas décadas, uma tendência interessante passou a mudar o cenário da moda brasileira: estilistas nacionais começaram a promover o “Made in Brasil”. Ganhamos reconhecimento no cenário mundial e passamos a ser respeitados como referência de design, como criadores de tendências e não copiadores de nomes famosos do exterior. Mais do que um esforço dos protagonistas da moda atual, os elementos do nosso passado cultural foram fundamentais para essa “caracterização” diferenciada.

Há poucas semanas, fui visitar a exposição “Mulheres Reais – Modas e Modos no Rio de Dom João VI”, na Casa França-Brasil. A mostra era um verdadeiro retrato sobre a moda no Rio de Janeiro quando a cidade era capital do império português. Na exposição, a moda foi abordada como peça importante da manifestação cultural e social do Rio de Janeiro, tecida por uma narrativa lúdica do cotidiano do universo feminino. Como um dos principais objetivos da exposição foi a realização de uma ação educativa direcionada aos alunos da rede municipal de ensino, fiquei empolgada de dividir também com vocês, solteiros dos mais diversos lugares do país, um pouco dessa história, que fez das ruas do Rio de Janeiro, a primeira passarela de moda do Brasil. Confira!

Um pouco de história

Com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, houve uma grande mudança cultural e política em nosso país. Segundo o historiador Laurentino Gomes, “o Brasil foi descoberto em 1500, mas só foi inventado a partir de 1808”. Dom João chegou e criou várias instituições nacionais. Portanto, o que comemoramos em 2008 não são apenas os 200 anos da chegada da corte. O Brasil inteiro está comemorando 200 anos: a imprensa, a indústria, o comércio...
Antes de 1808, o Rio era uma cidade muito atrasada. As filhas e esposas dos senhores brancos viviam a maior parte do tempo dentro de casa e vestiam-se com simplicidade. Para suportar o calor, usavam um camisolão fresco e largo. Elas não tinham permissão de sair na rua sozinhas, e, quando saíam, era quase sempre para ir à missa. Nessa ocasião, cobriam-se dos pés à cabeça com uma mantilha pesada e escura. O uso dessa mantilha nas ruas protegia-as do olhar alheio e lhes permitia ver sem serem vistas.

As únicas mulheres vistas do lado de fora eram as escravas. Os diferentes trabalhos que realizavam refletiam-se no seu modo de vestir: lavadeiras, vendedoras, carregadoras; distinguiam-se umas das outras por sua “moda” própria.

As escravas vestiam trajes simples de algodão, tingidos de azul, o corante mais barato da época. Como recebiam roupas usadas nem sempre do tamanho de seu corpo, tinham de amarrar as pontas, arregaçar as blusas ou subir a barra das saias para ter a liberdade de movimento que o trabalho exigia. Com partes do corpo a mostra, elas mostravam que, como na África, a roupa servia apenas para enfeitar ou proteger, e não para esconder como faziam as mulheres brancas.

Transformação - A chegada da Corte mudou a rotina dos habitantes da cidade, que passaram a freqüentar as ruas e as festas . As mulheres, que antes raramente saíam, passaram a ter vida social. E a influência da moda trazida pelas damas da nobreza logo fez com que a mantilha deixasse de ser usada.

Com a abertura dos portos ao comércio estrangeiro, as lojas do centro passaram a expor novos artigos de luxo importados da Inglaterra e da França. Casimiras, musselinas, rendas e plumas, chapéus e outros acessórios passaram a fazer parte do guarda-roupa das senhoras da terra que agora copiavam o modo de vestir das damas da nobreza e das européias “civilizadas”. Porém, o desejo de ostentar a riqueza gerou combinações extravagantes, e o exagero tornou-se um padrão de elegância.

Enquanto quase todas as escravas andavam descalças, as mucamas de casa podiam sair às ruas de sapatos. O traje dessas escravas refletia a riqueza das senhoras que elas serviam. As mulheres brancas da elite copiavam as modas européias para se diferenciarem de suas escravas, porém vestiam suas mucamas com o mesmo luxo, para fazer delas o espelho de seu status.

As escravas de ganho e algumas negras alforriadas vendiam quitandas em um cesto pela cidade. De turbante na cabeça, essas escravas usavam saias de algodão cru, chalés vindos da Europa e da Àfrica e tecidos com estampas alegres. Os cestos eram equilibrados na cabeça ou amarrados com uma faixa na cintura deixando os braços livres. Seus trajes eram adaptados às exigências de trabalho e tinham uma beleza original porque combinavam com improviso criativo, panos de origens e texturas variadas.

Como as escravas não podiam ter bens próprios, as jóias de ouro e prata que elas usavam no corpo representava ao mesmo tempo seus enfeites e suas economias. Cada Balangandã que carregavam na cintura tinham em média de 20 a 50 objetos, todos com um significado simbólico. Essas jóias eram mais que amuletos de proteção: elas simbolizavam uma cultura que resistia à escravidão através da força e da beleza de sua arte.

Fernanda Machado é personal stylist

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