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Os
retratos de uma exposição
Nas últimas décadas,
uma tendência interessante passou
a mudar o cenário da moda brasileira:
estilistas nacionais começaram a
promover o “Made in Brasil”.
Ganhamos reconhecimento no cenário
mundial e passamos a ser respeitados como
referência de design, como criadores
de tendências e não copiadores
de nomes famosos do exterior. Mais do que
um esforço dos protagonistas da moda
atual, os elementos do nosso passado cultural
foram fundamentais para essa “caracterização”
diferenciada.
Há poucas semanas,
fui visitar a exposição “Mulheres
Reais – Modas e Modos no Rio de Dom
João VI”, na Casa França-Brasil.
A mostra era um verdadeiro retrato sobre
a moda no Rio de Janeiro quando a cidade
era capital do império português.
Na exposição, a moda foi abordada
como peça importante da manifestação
cultural e social do Rio de Janeiro, tecida
por uma narrativa lúdica do cotidiano
do universo feminino. Como um dos principais
objetivos da exposição foi
a realização de uma ação
educativa direcionada aos alunos da rede
municipal de ensino, fiquei empolgada de
dividir também com vocês, solteiros
dos mais diversos lugares do país,
um pouco dessa história, que fez
das ruas do Rio de Janeiro, a primeira passarela
de moda do Brasil. Confira!
Um pouco de
história
Com a mudança
da corte portuguesa para o Rio de Janeiro,
em 1808, houve uma grande mudança
cultural e política em nosso país.
Segundo o historiador Laurentino Gomes,
“o Brasil foi descoberto em 1500,
mas só foi inventado a partir de
1808”. Dom João chegou e criou
várias instituições
nacionais. Portanto, o que comemoramos em
2008 não são apenas os 200
anos da chegada da corte. O Brasil inteiro
está comemorando 200 anos: a imprensa,
a indústria, o comércio...
Antes de 1808, o Rio era uma cidade muito
atrasada. As filhas e esposas dos senhores
brancos viviam a maior parte do tempo dentro
de casa e vestiam-se com simplicidade. Para
suportar o calor, usavam um camisolão
fresco e largo. Elas não tinham permissão
de sair na rua sozinhas, e, quando saíam,
era quase sempre para ir à missa.
Nessa ocasião, cobriam-se dos pés
à cabeça com uma mantilha
pesada e escura. O uso dessa mantilha nas
ruas protegia-as do olhar alheio e lhes
permitia ver sem serem vistas.
As únicas mulheres
vistas do lado de fora eram as escravas.
Os diferentes trabalhos que realizavam refletiam-se
no seu modo de vestir: lavadeiras, vendedoras,
carregadoras; distinguiam-se umas das outras
por sua “moda” própria.
As escravas vestiam
trajes simples de algodão, tingidos
de azul, o corante mais barato da época.
Como recebiam roupas usadas nem sempre do
tamanho de seu corpo, tinham de amarrar
as pontas, arregaçar as blusas ou
subir a barra das saias para ter a liberdade
de movimento que o trabalho exigia. Com
partes do corpo a mostra, elas mostravam
que, como na África, a roupa servia
apenas para enfeitar ou proteger, e não
para esconder como faziam as mulheres brancas.
Transformação
- A chegada da Corte mudou a rotina
dos habitantes da cidade, que passaram a
freqüentar as ruas e as festas . As
mulheres, que antes raramente saíam,
passaram a ter vida social. E a influência
da moda trazida pelas damas da nobreza logo
fez com que a mantilha deixasse de ser usada.
Com a abertura dos
portos ao comércio estrangeiro, as
lojas do centro passaram a expor novos artigos
de luxo importados da Inglaterra e da França.
Casimiras, musselinas, rendas e plumas,
chapéus e outros acessórios
passaram a fazer parte do guarda-roupa das
senhoras da terra que agora copiavam o modo
de vestir das damas da nobreza e das européias
“civilizadas”. Porém,
o desejo de ostentar a riqueza gerou combinações
extravagantes, e o exagero tornou-se um
padrão de elegância.
Enquanto quase todas
as escravas andavam descalças, as
mucamas de casa podiam sair às ruas
de sapatos. O traje dessas escravas refletia
a riqueza das senhoras que elas serviam.
As mulheres brancas da elite copiavam as
modas européias para se diferenciarem
de suas escravas, porém vestiam suas
mucamas com o mesmo luxo, para fazer delas
o espelho de seu status.
As escravas de ganho
e algumas negras alforriadas vendiam quitandas
em um cesto pela cidade. De turbante na
cabeça, essas escravas usavam saias
de algodão cru, chalés vindos
da Europa e da Àfrica e tecidos com
estampas alegres. Os cestos eram equilibrados
na cabeça ou amarrados com uma faixa
na cintura deixando os braços livres.
Seus trajes eram adaptados às exigências
de trabalho e tinham uma beleza original
porque combinavam com improviso criativo,
panos de origens e texturas variadas.
Como as escravas não
podiam ter bens próprios, as jóias
de ouro e prata que elas usavam no corpo
representava ao mesmo tempo seus enfeites
e suas economias. Cada Balangandã
que carregavam na cintura tinham em média
de 20 a 50 objetos, todos com um significado
simbólico. Essas jóias eram
mais que amuletos de proteção:
elas simbolizavam uma cultura que resistia
à escravidão através
da força e da beleza de sua arte.
Fernanda
Machado é personal stylist
Para falar com
a colunista envie mensagem para
espelho@solteirosesolteiras.com.br
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