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Ainda procurando príncipes...
Há poucos dias, atendi em meu consultório de psicoterapia uma mulher de 45 anos, divorciada, mãe de dois filhos adolescentes, com formação universitária e pós-graduação. Ela adepta da versão do “poder da mente” dos anos 60 – na sua nova versão “peça e será atendido” do apelativo “O Segredo”, da suposta Física Quântica – me fez uma revelação que me deixou surpreso.
Embora com traços jovens e bem bonitos, ela, que se julga uma pessoa madura e bem “resolvida”, entre uma crise de “pânico” e outra, contou-me sobre a sua decepção em relação aos homens por causa de repetidas e frustradas experiências amorosas.
Em meio a uma chorosa sessão, em que me relatava mais uma tentativa fracassada de estabelecer um relacionamento afetivo, procurou e encontrou em sua bolsa um caderninho que ela mesma chamava de seu “livro de desejos”. Embalada nos apelos de “O Segredo”, revelou-me seu desejo mais profundo, que transcrevo literalmente:
“O recebimento de um marido bem sucedido e alegre é fundamental para a minha realização pessoal; que seja sincero, amante, compreensivo, cuidadoso, fiel, que compartilhe todas suas coisas, que dialogue bastante, que me encha de presentes e trate-me como uma princesa...”
Confesso que fiquei olhando aquele escrito e, por alguns instantes, tive que conter um sorriso, não sei se de deboche ou de compaixão. Como alguém, em pleno século XXI, com a plena liberação e emancipação da mulher, pode ainda querer um príncipe encantado?
Será que ninguém contou para ela e para inúmeras mulheres (e alguns homens, também) que os “contos de fadas” são apenas fábulas românticas? Que no “mundo real” a vida não obedece tais idealizações fantasiosas? Não! Ninguém contou. Muitos ainda acreditam e apostam no velho “complexo de cinderela”, que fatalmente leva a enormes desencontros pela vida afora.
Seres humanos, homens e mulheres, são apenas humanos, com virtudes e defeitos e, certamente, o modelo ideal de pessoa não existe. Pode sim apresentar-se no início de um relacionamento, quando as artimanhas da sedução pregam peças enganosas em ambos, mas com pouco tempo de convivência a verdade vem logo à tona e cada um revela sua verdadeira identidade falível.
Há casos excepcionais, alguns relatados em pesquisas norte-americanas recentes, de casais que mantém acesa a paixão por muitos anos, mas sua excepcionalidade apenas revela a possibilidade que renova as esperanças dos mais incautos.
Não quero aqui decretar a falência geral de todos os relacionamentos, mas, simplesmente, alertar o leitor e a leitora que é preciso viver efetivamente com “os pés no chão”. Não há nada contra os sonhos de carruagens, princesas e abóboras, mas o último destes contos de fadas que vimos ao vivo e a cores espatifou-se contra um muro de um túnel em Paris... Lady Di, princesa como nos sonhos, anorética e infeliz como na realidade!
Acredito, mesmo assim, que é possível estabelecer-se uma verdadeira parceria entre homens e mulheres, mas longe das fantasias oníricas da adolescência e muito mais próxima da realidade do cotidiano, que implicam em seriedade comprometida com a formação de vínculos profundos e de entrega mútua. Além disso, exigem força de caráter e maturidade emocional para enfrentar as inúmeras dificuldades do “viver a dois”.
Enquanto sonharmos com príncipes e princesas, certamente nos frustraremos cada vez mais. E, ainda, corremos o risco de terminarmos nossos dias, se não em um túnel em Paris, em uma profunda vala da solidão!
Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas. Autor dos livros Ciúme - O lado amargo do amor (Ágora) e Casamento - Uma missão quase impossível (Claridade).
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