Par ou Ímpar
Dr. Eduardo Ferreira
 
 

Quando a perda é um trauma

Habitualmente, o término de uma relação afetiva costuma ser doloroso para um ou para ambos os parceiros, pois representa a quebra de uma série de expectativas que foram depositadas nesta relação. Como toda perda, gera um sentimento de frustração que, por sua vez, desencadeia na estrutura psíquica os sentimentos contraditórios de raiva e tristeza que, se bem elaborados, colaboram para o crescimento pessoal, através da elaboração do “luto” e sua incorporação ao rol de experiências vividas.

O ideal em uma relação é que, ao longo de sua permanência, os parceiros possam trocar experiências pessoais importantes para que, caso ocorra o término, cada um deles saia mais fortalecido, mais enriquecido com aquilo que aprendeu com o outro. Porém, infelizmente, não é sempre assim que ocorre. Dependendo da forma como se deu o rompimento, dos motivos que o desencadearam, da estrutura psicológica de cada um dos parceiros, a ruptura pode seguir vários caminhos.

Quando há um motivo real, a descoberta de uma traição, por exemplo, o sentimento que aparece é o de raiva, de um lado, e o de culpa ou arrependimento, do outro. De qualquer forma, há um sofrimento e isto pode se desdobrar na busca de justificativas hipotéticas. As mais comuns são os pensamentos de que “a fidelidade não tem mais valor nos dias de hoje”. Ou, no caso de quem traiu, acaba reconhecendo que “não vale a pena viver um momento de prazer e pôr tudo a perder”. Em geral, as mulheres chegam até mesmo àquela idéia extrema de que “um homem não pode ter todas as mulheres do mundo, mas é seu dever, pelo menos, tentar!”.

Há, ainda, uma questão bastante particular e especial que é a daquela pessoa que se sente como “meia pessoa”, isto é, vive em busca da “outra metade da laranja”, da “tampa da panela”. Para estas pessoas, que, na verdade, se sentem incompletas, a necessidade de um parceiro é o que faz dar sentido à sua vida e, portanto, a perda do outro significa a perda de si mesmo ou, ao menos, de parte de si mesmo. Nestes casos, à perda se segue um profundo luto, um sentimento de que a vida perdeu o sentido, de que nada mais vale a pena. Enfim, de fato, perder o outro é um verdadeiro trauma na vida, que pode produzir transtornos psicológicos importantes tais como uma depressão.

Sem dúvida, o término de uma relação afetiva, seja por que motivo for, sempre será motivo para uma reflexão sobre si mesmo e seu comportamento na vida em geral. Por que será que não vivo sem alguém ao meu lado? Por que me vejo quase que compelido a trair sem motivo aparente? Será que estou dando motivos para ser traído (a)? O que verdadeiramente estou aprendendo e ensinando ao meu parceiro nesta relação? O quanto estou crescendo (ou não) com este envolvimento?

Esses questionamentos fazem perceber que o importante é aprender com a experiência de perda e entender que esse é mais um exercício de vida. Servem para encarar como um aprendizado que vai trazer mais consciência de si mesmo e para evitar novas armadilhas. Conhecer melhor a si mesmo é o ideal para que se possa viver como dono de si, procurando num parceiro apenas os valores que vão acrescentar algo na formação pessoal. E, nessa busca, que se possa, de fato, encontrar alguém que traga felicidade.

Como disse o poeta Vinicius de Moraes é importante viver o amor “que não é eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas

Site: www.ferreira-santos.med.br

Para falar com o colunista envie mensagem para

parouimpar@solteirosesolteiras.com.br

 



© 2007- Monte Castelo Idéias ® Todos os direitos reservados.
  Criação e desenvolvimento: Café Expresso Design