Par ou Ímpar
Dr. Eduardo Ferreira
 
 

O veneno das relações afetivas

O discutido e complexo sentimento de amor é invariavelmente acompanhado de outro, o sentimento de cuidado, de zelo com a pessoa amada. Quem verdadeiramente ama, quem quer bem, cuida para que a pessoa amada se sinta realmente bem, acolhida, querida, respeitada. É um sentimento de alteridade, isto é, voltado para o outro (alter) e não para si mesmo. É querer o bem do outro, pelo outro e para o outro. Uma distorção deste zelo é o ciúme, que leva muita gente a cultivar esse desagradável sentimento, chegando até mesmo a encará-lo como uma prova de amor.

Mas, se analisarmos mais detalhadamente o ciúme, podemos perceber, logo de início, que não se trata de um sentimento voltado para o outro, mas sim voltado para si mesmo, para quem o sente, pois é, na verdade, o medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele. É um sentimento egocentrado, que pode muito bem ser associado à terrível sensação de ser excluído de uma relação. O normal é a pessoa sentir-se enciumada em situações eventuais, nas quais, de alguma forma, se veja excluída ou ameaçada de exclusão na relação com o outro.

Em um grau maior de comprometimento emocional, quando há uma instabilidade neurótica ou de auto-afirmação, a pessoa pode apresentar-se como ciumenta. Neste caso, a sensação constante de angústia e instabilidade, de insegurança em relação a si mesmo e ao outro, além da fragilidade da relação afetiva, podem levar a pessoa a manter um permanente “estado de tensão”, temendo ser traído ou abandonado. Qualquer sinal pode significar algo “errado” e a angústia da dúvida corrói a alma de quem é ciumento.

Numa terceira situação, ainda mais grave sob o ponto de vista de comprometimento do psiquismo, podem ocorrer situações delirantes em que a desconfiança do ciumento cede lugar a uma certeza infundada de que está mesmo sendo traído ou abandonado. Muitas vezes, o pensamento delirante toma conta de todo o psiquismo e atinge níveis insuportáveis de tensão interna.
Paralelamente ao sentir ciúme, podemos avaliar a forma de reagir perante a este sentimento.

A pessoa supostamente saudável, que se sente enciumada, se questiona e pode até compartilhar com o outro o sentimento, extraindo de um episódio algumas conclusões importantes sobre sua forma de ser.

Já o ciumento, que pode até não ter muita ciência do seu sentimento, permanece em vigília o tempo todo, tenso, aflito, tomando atitudes algo destemperadas, sempre procurando uma forma de confirmar suas suspeitas. Esse destempero pode representar um soturno ato de vasculhar bolsas e bolsos, checar ligações telefônicas e até seguir ou mandar seguir o outro pelas ruas em busca de provas de sua infidelidade. No dia-a-dia, as reações são geralmente agressivas, acusadoras, desconfiadas, causando um grande mal-estar na relação.

O terceiro tipo, o chamado ciúme patológico, também conhecido como “Síndrome de Otelo”, em referência ao personagem shakespeariano que sofria deste mal, pode levar a pessoa a cometer atos de extrema agressividade física, configurando aqueles casos que recheiam as crônicas policiais de suicídios e homicídios passionais.

Os casos mais brandos de ciúme podem ser uma manifestação de má estruturação da auto-estima e os intermediários refletem estados neuróticos. Já os casos da “Síndrome de Otelo” são, indiscutivelmente, causados por patologias psiquiátricas graves, as chamadas psicoses ou, ainda, por problemas neuro-psiquiátricos, como os diversos tipos de disritmia cerebral descritas na medicina.

De qualquer forma, o complexo sentimento de ciúme, longe de ser aquele “condimento” que torna a relação amorosa mais “apetitosa”, é um sentimento que leva, em geral, ao sofrimento de quem o sente e, principalmente, de quem padece nas mãos de um ciumento desconfiado e agressivo.

O ciúme é, em última análise, um sinal de alerta! É uma “luz vermelha” que se acende no painel da vida, indicando que algo está falhando. Quanto mais intenso e menos controlável, maior o problema. Quanto maior a intensidade do sentimento, mais se ultrapassa os limites da normalidade. E, aos poucos, as pessoas são devoradas por uma obsessão capaz de destruir qualquer relacionamento.

Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas

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