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O
veneno das relações afetivas
O discutido e complexo sentimento
de amor é invariavelmente acompanhado
de outro, o sentimento de cuidado, de zelo
com a pessoa amada. Quem verdadeiramente
ama, quem quer bem, cuida para que a pessoa
amada se sinta realmente bem, acolhida,
querida, respeitada. É um sentimento
de alteridade, isto é, voltado para
o outro (alter) e não para
si mesmo. É querer o bem do outro,
pelo outro e para o outro. Uma distorção
deste zelo é o ciúme, que
leva muita gente a cultivar esse desagradável
sentimento, chegando até mesmo a
encará-lo como uma prova de amor.
Mas, se analisarmos mais
detalhadamente o ciúme, podemos perceber,
logo de início, que não se
trata de um sentimento voltado para o outro,
mas sim voltado para si mesmo, para quem
o sente, pois é, na verdade, o medo
que alguém sente de perder o outro
ou sua exclusividade sobre ele. É
um sentimento egocentrado, que pode muito
bem ser associado à terrível
sensação de ser excluído
de uma relação. O normal é
a pessoa sentir-se enciumada em situações
eventuais, nas quais, de alguma forma, se
veja excluída ou ameaçada
de exclusão na relação
com o outro.
Em um grau maior de comprometimento
emocional, quando há uma instabilidade
neurótica ou de auto-afirmação,
a pessoa pode apresentar-se como ciumenta.
Neste caso, a sensação constante
de angústia e instabilidade, de insegurança
em relação a si mesmo e ao
outro, além da fragilidade da relação
afetiva, podem levar a pessoa a manter um
permanente “estado de tensão”,
temendo ser traído ou abandonado.
Qualquer sinal pode significar algo “errado”
e a angústia da dúvida corrói
a alma de quem é ciumento.
Numa terceira situação,
ainda mais grave sob o ponto de vista de
comprometimento do psiquismo, podem ocorrer
situações delirantes em que
a desconfiança do ciumento cede lugar
a uma certeza infundada de que está
mesmo sendo traído ou abandonado.
Muitas vezes, o pensamento delirante toma
conta de todo o psiquismo e atinge níveis
insuportáveis de tensão interna.
Paralelamente ao sentir ciúme, podemos
avaliar a forma de reagir perante a este
sentimento.
A pessoa supostamente saudável,
que se sente enciumada, se questiona e pode
até compartilhar com o outro o sentimento,
extraindo de um episódio algumas
conclusões importantes sobre sua
forma de ser.
Já o ciumento, que
pode até não ter muita ciência
do seu sentimento, permanece em vigília
o tempo todo, tenso, aflito, tomando atitudes
algo destemperadas, sempre procurando uma
forma de confirmar suas suspeitas. Esse
destempero pode representar um soturno ato
de vasculhar bolsas e bolsos, checar ligações
telefônicas e até seguir ou
mandar seguir o outro pelas ruas em busca
de provas de sua infidelidade. No dia-a-dia,
as reações são geralmente
agressivas, acusadoras, desconfiadas, causando
um grande mal-estar na relação.
O terceiro tipo, o chamado
ciúme patológico, também
conhecido como “Síndrome de
Otelo”, em referência ao personagem
shakespeariano que sofria deste mal, pode
levar a pessoa a cometer atos de extrema
agressividade física, configurando
aqueles casos que recheiam as crônicas
policiais de suicídios e homicídios
passionais.
Os casos mais brandos de
ciúme podem ser uma manifestação
de má estruturação
da auto-estima e os intermediários
refletem estados neuróticos. Já
os casos da “Síndrome de Otelo”
são, indiscutivelmente, causados
por patologias psiquiátricas graves,
as chamadas psicoses ou, ainda, por problemas
neuro-psiquiátricos, como os diversos
tipos de disritmia cerebral descritas na
medicina.
De qualquer forma, o complexo
sentimento de ciúme, longe de ser
aquele “condimento” que torna
a relação amorosa mais “apetitosa”,
é um sentimento que leva, em geral,
ao sofrimento de quem o sente e, principalmente,
de quem padece nas mãos de um ciumento
desconfiado e agressivo.
O ciúme é,
em última análise, um sinal
de alerta! É uma “luz vermelha”
que se acende no painel da vida, indicando
que algo está falhando. Quanto mais
intenso e menos controlável, maior
o problema. Quanto maior a intensidade do
sentimento, mais se ultrapassa os limites
da normalidade. E, aos poucos, as pessoas
são devoradas por uma obsessão
capaz de destruir qualquer relacionamento.
Eduardo Ferreira-Santos é
Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia
Clínica e Doutor em Ciências
Médicas
Site: www.ferreira-santos.med.br
Para falar com o colunista envie mensagem
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parouimpar@solteirosesolteiras.com.br
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