Par ou Ímpar
Dr. Eduardo Ferreira
 
 

A Timidez

"Conta uma antiga lenda árabe que certa vez se dirigia a Peste a Bagdá.
Um viajante pergunta-lhe no caminho:
- Para onde vais?
-Vou a Bagdá matar 5000 pessoas, respondeu a Peste.
Dias depois, novo encontro...
Pergunta o mesmo peregrino:
-Por que me disseste que irias matar 5000 pessoas, ó Peste?
Morreram 50.000 criaturas em Bagdá...
- O que disse isso fiz. Só matei 5000.
 O resto morreu de medo - respondeu a Peste, com um gesto significativo."

O medo é um sentimento natural cuja função é nos proteger daquilo que realmente oferece perigo à nossa integridade física ou psíquica. No entanto, não é incomum que muitas pessoas sintam um medo inexplicável, até mesmo paralisante, particularmente nas situações de abordagem interpessoal. Escondido atrás do estigma de timidez está o medo que leva muita gente a evitar encontros e fugir de relações afetivas. Mas medo de quê?

O medo inconsciente pode ter suas origens na infância, principalmente se a pessoa foi criada num meio muito agressivo, onde foi vítima de castigos ou testemunha de brigas violentas entre os pais. Há também os casos de crianças que, por um motivo ou outro, ou mesmo sem motivo algum, foram vítimas do que hoje se chama bulling, que é aquela terrível situação de se ver encurralada por seus colegas de escola, sofrendo com ameaças ou chacotas, resultando na exclusão dos grupos formados.

Nesses casos, a criança cresce acreditando que o mundo lhe é particularmente hostil e teme que, em um novo encontro, possa ser mais uma vez vítima da agressão e da humilhação. Torna-se um adulto com autoestima baixa e, portanto, sente-se vulnerável a um simples “não”, que é sentido como a mais profunda rejeição, fazendo eco em seu psiquismo com aquele passado sombrio. Antes mesmo de se aproximar de alguém, soa em sua mente um alarme, avisando que há perigo à frente. A reação, entretanto, é de evitar essas situações, fugir e, consequentemente, se isolar.

A crença inconsciente de que será sempre rejeitado ou agredido pode, por outro lado, levar a pessoa a se tornar arrogante e agressiva (afinal, há quem acredite que “a melhor defesa é o ataque”), e assim receber como resposta outras atitudes de hostilidade perante seu comportamento. Isso gera um círculo vicioso, confirmando e cristalizando mais ainda a postura de que será sempre hostilizado.

Muitos tímidos acabam passando por arrogantes, quando, na verdade, estão apenas se protegendo desses fantasmas do passado projetados na situação atual. Assim, é importante para quem sofre com o medo de chegar numa abordagem interpessoal fazer uma profunda reflexão sobre os reais motivos que dificultam a aproximação. Só se vence o medo fantasioso enfrentando a realidade e correndo o risco da frustração, que, por sua vez, se bem trabalhada e entendida, poderá trazer à tona os verdadeiros motivos do fracasso.

Ouvir um “não” pode representar uma bomba no psiquismo, mas pode também abrir as portas para o autoconhecimento e a reformulação da postura perante a vida e as pessoas. O mundo, de fato, não é um mar de rosas que estará sempre de braços abertos para acolher quem quer que chegue. Mas é preciso tentar, enfrentar, insistir. Afinal, não é preciso ter medo, basta ter cautela e saber avaliar cada situação a cada momento e viver o jogo da vida, em que se ganha e se perde, mas é por demais importante nunca perder por “W.O.”*.

Não é fácil vencer uma timidez, mas é fundamental não se fazer refém dela. Libertar-se do medo, respeitando os limites do ponderável, permitirá ao tímido, o intimidado, aprender a agir na vida como um ser humano, e não como um rato acovardado!

*Abreviação em inglês para “walk over”, expressão usada no meio esportivo que explica a ausência de oponente na disputa.

Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas. Autor dos livros Ciúme - O lado amargo do amor (Ágora) e Casamento - Uma missão quase impossível (Claridade).

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