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Cara-metade
sem manual: o que eu procuro no outro sou
eu!
Não é raro
alguém dizer que encontrou uma pessoa
que é exatamente do jeito que estava
procurando. Apaixonados à primeira
vista encantam-se com cada palavra, cada
gesto, cada sorriso. Viajam nas divagações
e chegam a acreditar que, de fato, se conhecem
de “outras vidas”, tamanha é
a afinidade entre ambos. Complementam-se,
completam-se, sonham embriagados pelo encontro
nesta vida e tentam buscar pontos em comum
que possam confirmar esta percepção:
“Teríamos sido ciganos? Piratas?
Membros de alguma seita secreta ou, simplesmente,
camponeses, cujas famílias adversárias
impediram nossa união? Não...Nada
importa. Importa, sim, que agora estamos
juntos e assim ficaremos por todo o sempre”.
Será?
Com o tempo, começam
a aparecer as divergências, as frustrações,
as desilusões. O que será
que aconteceu com nosso encontro histórico
e transcendental? Por que cada vez mais
nos afastamos um do outro e percebemos o
quanto estávamos enganados? Por que
eu não havia percebido que determinados
hábitos, determinadas ações,
comportamentos e opiniões eram tão
diferentes, se pareciam tão sincronizadas?
Simplesmente porque na carência de
cada um, no momento do encontro, deixamos
que imagens de nosso inconsciente viessem
à mente e se projetassem sobre o
outro. Sim, cada um de nós tem dentro
de si, guardada no inconsciente coletivo,
o que é chamado de arquétipo,
imagens idealizadas de homem e mulher que
trazemos de alguma forma marcadas nas profundezas
de nossa mente.
Chama-se anima
a imagem ideal feminina que todo homem tem
de uma mulher e animus o correspondente
masculino na mulher. Algum pequeno sinal
externo relativo a estas imagens pode fazer
com que elas aflorem e, ao se projetar sobre
a figura do outro – como uma máscara
- disfarcem a real percepção
da realidade. Neste primeiro momento, eu
não estou vendo o outro de verdade,
mas, sim, aquilo que meu inconsciente idealiza
e deseja. Desprezamos, inconscientemente,
o que não corresponde ao ideal e
hipervalorizamos pequenos traços
de similaridade. Apaixono-me não
por aquela pessoa de verdade, mas, sim,
pela minha anima ou animus nela projetada
e decepciono-me quando, com o tempo, começo
a perceber o abismo que nos separa.
Em nossa angústia
de solidão, deixamo-nos ser enganados
por nós mesmos e quase numa “folie
à deux” (loucura a dois)
nos entregamos nesta busca desesperada pela
completude inexistente. O outro, que a princípio
parecia ser claramente minha alma-gêmea,
começa a se mostrar como é
verdadeiramente e as máscaras do
engano psicológico caem por terra.
E, com elas, lá se vai a paixão,
o encanto.
Verdade é que, mergulhados
na angústia da solidão, acabamos
por favorecer este encontro marcado, escondendo
de si mesmo e do outro características
que poderiam revelar, de imediato, a ilusão.
Assumimos inconscientemente aquilo que o
outro espera de nós e vice-versa;
mostramo-nos apenas como um frágil
espelho dos desejos do outro. Porém,
passado algum tempo, o espelho fragmenta-se,
revelando o engano. Aí sim, vemos
o outro como ele realmente é e, geralmente,
isto nos desaponta, não porque ele
é quem é, mas sim porque ele
não é aquilo que idealizamos.
O desencanto gera a tristeza que leva à
depressão que, por sua vez, amplia
a real, porém camuflamada, distância
que sempre existiu entre ambos.
E lá continuamos
cada um de nós, desconhecedores da
verdade que habita nossa mente, vagando
solitários em busca de nossa alma-gêmea,
ou seja, de si mesmo projetado no outro.
Eduardo Ferreira-Santos é
Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia
Clínica e Doutor em Ciências
Médicas
Site: www.ferreira-santos.med.br
Para falar com o colunista envie mensagem
para
parouimpar@solteirosesolteiras.com.br
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