Par ou Ímpar
Dr. Eduardo Ferreira
 
 

Cara-metade sem manual: o que eu procuro no outro sou eu!

Não é raro alguém dizer que encontrou uma pessoa que é exatamente do jeito que estava procurando. Apaixonados à primeira vista encantam-se com cada palavra, cada gesto, cada sorriso. Viajam nas divagações e chegam a acreditar que, de fato, se conhecem de “outras vidas”, tamanha é a afinidade entre ambos. Complementam-se, completam-se, sonham embriagados pelo encontro nesta vida e tentam buscar pontos em comum que possam confirmar esta percepção: “Teríamos sido ciganos? Piratas? Membros de alguma seita secreta ou, simplesmente, camponeses, cujas famílias adversárias impediram nossa união? Não...Nada importa. Importa, sim, que agora estamos juntos e assim ficaremos por todo o sempre”. Será?

Com o tempo, começam a aparecer as divergências, as frustrações, as desilusões. O que será que aconteceu com nosso encontro histórico e transcendental? Por que cada vez mais nos afastamos um do outro e percebemos o quanto estávamos enganados? Por que eu não havia percebido que determinados hábitos, determinadas ações, comportamentos e opiniões eram tão diferentes, se pareciam tão sincronizadas? Simplesmente porque na carência de cada um, no momento do encontro, deixamos que imagens de nosso inconsciente viessem à mente e se projetassem sobre o outro. Sim, cada um de nós tem dentro de si, guardada no inconsciente coletivo, o que é chamado de arquétipo, imagens idealizadas de homem e mulher que trazemos de alguma forma marcadas nas profundezas de nossa mente.

Chama-se anima a imagem ideal feminina que todo homem tem de uma mulher e animus o correspondente masculino na mulher. Algum pequeno sinal externo relativo a estas imagens pode fazer com que elas aflorem e, ao se projetar sobre a figura do outro – como uma máscara - disfarcem a real percepção da realidade. Neste primeiro momento, eu não estou vendo o outro de verdade, mas, sim, aquilo que meu inconsciente idealiza e deseja. Desprezamos, inconscientemente, o que não corresponde ao ideal e hipervalorizamos pequenos traços de similaridade. Apaixono-me não por aquela pessoa de verdade, mas, sim, pela minha anima ou animus nela projetada e decepciono-me quando, com o tempo, começo a perceber o abismo que nos separa.

Em nossa angústia de solidão, deixamo-nos ser enganados por nós mesmos e quase numa “folie à deux” (loucura a dois) nos entregamos nesta busca desesperada pela completude inexistente. O outro, que a princípio parecia ser claramente minha alma-gêmea, começa a se mostrar como é verdadeiramente e as máscaras do engano psicológico caem por terra. E, com elas, lá se vai a paixão, o encanto.

Verdade é que, mergulhados na angústia da solidão, acabamos por favorecer este encontro marcado, escondendo de si mesmo e do outro características que poderiam revelar, de imediato, a ilusão. Assumimos inconscientemente aquilo que o outro espera de nós e vice-versa; mostramo-nos apenas como um frágil espelho dos desejos do outro. Porém, passado algum tempo, o espelho fragmenta-se, revelando o engano. Aí sim, vemos o outro como ele realmente é e, geralmente, isto nos desaponta, não porque ele é quem é, mas sim porque ele não é aquilo que idealizamos. O desencanto gera a tristeza que leva à depressão que, por sua vez, amplia a real, porém camuflamada, distância que sempre existiu entre ambos.

E lá continuamos cada um de nós, desconhecedores da verdade que habita nossa mente, vagando solitários em busca de nossa alma-gêmea, ou seja, de si mesmo projetado no outro.

Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas

Site: www.ferreira-santos.med.br

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