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Eu te amo
Nossa cultura latina vive mergulhada em paradoxos, em contradições, que geram tanto desencontro entre as pessoas. No plano afetivo, por exemplo, embora sejamos extremamente calorosos no sentir, somos, ao mesmo tempo, bastante econômicos na manifestação clara destes sentimentos. Homens e mulheres, nos dias de hoje, sentem-se igualmente solitários e carentes em suas relações interpessoais, parece que com muito medo de manifestar aquilo que, de fato, toma conta de seu coração.
Para os homens, principalmente, a verbalização dos sentimentos, sejam eles de qualquer espécie, é de extrema dificuldade, pois ainda existem resquícios do velho “machismo”. O conceito é ultrapassado, mas encontra eco na forma como os meninos são educados, desde cedo. Ainda hoje, são ensinados que não devem chorar, pois “homem não chora”!
E, ao não chorar, aprende-se também a manter reprimidas todas aquelas emoções naturais do ser humano que, para muitos, não chegam nem a se tornar conscientes, enquanto para outros, simplesmente mantém-se entaladas na garganta e no peito, pois a manifestação pode ser compreendida como sinal de fragilidade e, até mesmo, de feminilidade.
As mulheres, por sua vez, expressam mais seus sentimentos e isto parece ser não só permitido como também exigido na estruturação da personalidade feminina. E ainda aprendem a valorizar homens “fortes”, capazes de protegê-las neste mundo tão hostil.
Na nova posição da manifestação da feminilidade, por outro lado, o mundo atual também vem apresentando a moderna “versão” da mulher forte, capaz de enfrentar tudo e todos, em uma total e muitas vezes falsa independência, que quer torná-las réplica da postura masculina.
Assim, calados e isolados, homens e mulheres perdem a maravilhosa oportunidade de realizarem o verdadeiro encontro, a real fusão temporal de almas que se amam e trocam, entre si, o que há de melhor em cada um. E a manifestação verbal deste amor, na simples expressão “eu te amo”, acaba por perder-se no cotidiano afoito e reprimido, abrindo um vazio enorme na relação.
Na ambigüidade prevalente neste momento, que acredito seja de transição para uma nova apresentação de seres humanos mais abertos, mais iguais, mais fraternos e que saibam efetivamente compartilhar seus afetos, há um outro lado da moeda, que é o da banalização na manifestação de sentimentos nem sempre profundos nem verdadeiros. O “eu te amo” pode surgir nos lábios de homens e mulheres em momentos de intensa emoção, mas cuja fugacidade foge completamente da essência de um sentimento duradouro, profundo, anímico.
Calados ou prolíxicos, verdadeiros ou falsos, abertos ou fechados, estamos vivendo momentos de grande desconforto e desconfiança em relação aos outros e suas reais intenções.
Perdidos e muitas vezes embotados nas “baladas” da vida ou quietos em nossos cantos, lamentando a solidão que nós mesmos criamos, homens e mulheres ainda sonham com o “amor verdadeiro”, aquele que virá, talvez travestido de príncipe e princesa, mas que, na realidade, nos mantêm prisioneiros deste brejo cheio de sapos, ensurdecidos pelo coaxar sem sentido de um mundo marcado mais pela violência do que pelo amor!
Eduardo Ferreira-Santos é
Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia
Clínica e Doutor em Ciências
Médicas
Site: www.ferreira-santos.med.br
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