Par ou Ímpar
Dr. Eduardo Ferreira
 
 

Homem também chora!

Eu não sei muito bem explicar o por quê. Provavelmente mais um sinal inversão de valores da humanidade. Mas tenho observado uma mudança radical no comportamento de homens e mulheres em relação à expressão de sentimentos. Hoje em dia, parece que as mulheres se assustam quanto um homem “abre o coração” para elas e fala de seus sentimentos, dúvidas e angústias mais profundas. A resposta das mulheres, na maioria das vezes, é de incredibilidade, isto é, duvidam que o homem esteja sendo sincero... Muitas chegam a achar que possa ser ironia, cinismo ou, mesmo, apenas um golpe para conquistá-las e depois cair fora!

Mas, assim mesmo, os homens vêm mudando seu comportamento nos últimos tempos. Já vai longe aquela velha anedota em que a mulher chega aflita para o marido executivo e diz:

__ A empregada vai embora!
__ Problema seu! – responde ele.
__ Mas, ela está grávida! – insiste angustiada a mulher.
__ Problema dela! – responde o marido, ligando a televisão.
__ E ela diz que o filho é seu!!! – berra a mulher desesperada.
E ele, impassível, completa:
__ Problema meu! –

Hoje, os homens também querem encontrar um espaço para, conversar e para poderem falar de seus pequenos problemas do cotidiano. Se antes, era a mulher que queria esticar o papo e entrar em detalhes minuciosos de uma determinada questão e ouvia do marido uma resposta seca e prática, muitos homens têm enfrentado esta mesma situação, agora invertida, em seus relacionamentos.
Aquela famosa frase paterna do “Homem não chora!”, foi nestes últimos anos perdendo a força e mudando de figura. Até houve, há algum tempo atrás, uma campanha institucional de uma rede de televisão que, ao mostrar uma cena realmente emocionante, apresentava a mensagem: “Seja homem: chore!”.

E o homem passou a chorar... O homem passou a reconhecer que tinha sentimentos... O homem passou a demonstrar estes sentimentos! Aí, a mulher entrou em pânico! Como lidar agora com este indivíduo que, por vezes, se mostra fragilizado? Como entender as angústias surgidas nas oscilações das bolsas da Ásia, mergulhando em perdas e lutos antigos? Como trocar a conversinha à toa sobre o tempo no fim de semana por uma série de questionamentos sobre a relação e os projetos de vida?

Como encarar este antigo senhor, que, inconscientemente, trazia a força da segurança e da estabilidade, por uma simples pessoa, igualzinha a ela, com medos, angústias, dúvidas e aspirações? Como, até, nestes dias de instabilidade, encarar um homem desempregado, ansioso, atordoado pelos acontecimentos sócio-políticos e ter de assumir as rédeas de sua própria vida?

Enfim, os homens estão aprendendo aquilo que antes era uma característica feminina: a sensibilidade. Sentir, chorar, sofrer, amar deixou de ser coisa de mulheres para se tornar o que verdadeiramente é: um componente essencial da estrutura humana. Cada dia fica mais claro que represar os sentimentos, escondê-los debaixo do tapete da racionalidade não leva a lugar nenhum ou, como já dizia o saudoso poeta Vinícius de Moraes, acaba levando sim a um lugar: “ao cardiologista ou, pior, ao psiquiatra!”

A doença psicológica da atualidade, chamada síndrome do pânico, que, claro tem lá seus componentes biológicos, é a maior manifestação desta explosão repentina e descontrolada daquelas emoções que estão encondidinhas lá no fundo da alma.
Enfim, homens e mulheres, indiscutivelmente sentem! Sentem alegrias e tristezas, sucessos e frustrações, medos e ousadias, insegurança e aflição. Saber expressar isso tudo para um companheiro, para a companheira é como desnudar-se de alma perante o outro. É aquela entrega que, para muitos, supera a intimidade sexual, pois é a verdadeira intimidade pessoal, a cumplicidade do espírito que leva ao encontro e ao crescimento das pessoas e da relação.

A banalização da exposição do corpo acabou por tirar aquele ar de mistério, de descoberta, de investigação que cerca o espírito humano. Investigar a alma do outro, da outra, penetrar pelos seus labirintos secretos das emoções presentes e passadas, faz ressurgir a essência da relação humana. Não ter medo de se expor e apreciar a exposição do outro! Não se encabular perante a luz acessa sobre seu coração!

Ser, de fato, Homem é sentir! Sincera, verdadeira e profundamente!

Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas

Site: www.ferreira-santos.med.br

Para falar com o colunista envie mensagem para

parouimpar@solteirosesolteiras.com.br

 



© 2007- Monte Castelo Idéias ® Todos os direitos reservados.
  Criação e desenvolvimento: Café Expresso Design