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Homem também
chora!
Eu não sei muito
bem explicar o por quê. Provavelmente
mais um sinal inversão de valores
da humanidade. Mas tenho observado uma mudança
radical no comportamento de homens e mulheres
em relação à expressão
de sentimentos. Hoje em dia, parece que
as mulheres se assustam quanto um homem
“abre o coração”
para elas e fala de seus sentimentos, dúvidas
e angústias mais profundas. A resposta
das mulheres, na maioria das vezes, é
de incredibilidade, isto é, duvidam
que o homem esteja sendo sincero... Muitas
chegam a achar que possa ser ironia, cinismo
ou, mesmo, apenas um golpe para conquistá-las
e depois cair fora!
Mas, assim mesmo, os homens
vêm mudando seu comportamento nos
últimos tempos. Já vai longe
aquela velha anedota em que a mulher chega
aflita para o marido executivo e diz:
__ A empregada vai embora!
__ Problema seu! – responde ele.
__ Mas, ela está grávida!
– insiste angustiada a mulher.
__ Problema dela! – responde o marido,
ligando a televisão.
__ E ela diz que o filho é seu!!!
– berra a mulher desesperada.
E ele, impassível, completa:
__ Problema meu! –
Hoje, os homens também querem encontrar
um espaço para, conversar e para
poderem falar de seus pequenos problemas
do cotidiano. Se antes, era a mulher que
queria esticar o papo e entrar em detalhes
minuciosos de uma determinada questão
e ouvia do marido uma resposta seca e prática,
muitos homens têm enfrentado esta
mesma situação, agora invertida,
em seus relacionamentos.
Aquela famosa frase paterna do “Homem
não chora!”, foi nestes últimos
anos perdendo a força e mudando de
figura. Até houve, há algum
tempo atrás, uma campanha institucional
de uma rede de televisão que, ao
mostrar uma cena realmente emocionante,
apresentava a mensagem: “Seja homem:
chore!”.
E o homem passou a chorar... O homem passou
a reconhecer que tinha sentimentos... O
homem passou a demonstrar estes sentimentos!
Aí, a mulher entrou em pânico!
Como lidar agora com este indivíduo
que, por vezes, se mostra fragilizado? Como
entender as angústias surgidas nas
oscilações das bolsas da Ásia,
mergulhando em perdas e lutos antigos? Como
trocar a conversinha à toa sobre
o tempo no fim de semana por uma série
de questionamentos sobre a relação
e os projetos de vida?
Como encarar este antigo senhor, que,
inconscientemente, trazia a força
da segurança e da estabilidade, por
uma simples pessoa, igualzinha a ela, com
medos, angústias, dúvidas
e aspirações? Como, até,
nestes dias de instabilidade, encarar um
homem desempregado, ansioso, atordoado pelos
acontecimentos sócio-políticos
e ter de assumir as rédeas de sua
própria vida?
Enfim, os homens estão aprendendo
aquilo que antes era uma característica
feminina: a sensibilidade. Sentir, chorar,
sofrer, amar deixou de ser coisa de mulheres
para se tornar o que verdadeiramente é:
um componente essencial da estrutura humana.
Cada dia fica mais claro que represar os
sentimentos, escondê-los debaixo do
tapete da racionalidade não leva
a lugar nenhum ou, como já dizia
o saudoso poeta Vinícius de Moraes,
acaba levando sim a um lugar: “ao
cardiologista ou, pior, ao psiquiatra!”
A doença psicológica da
atualidade, chamada síndrome do pânico,
que, claro tem lá seus componentes
biológicos, é a maior manifestação
desta explosão repentina e descontrolada
daquelas emoções que estão
encondidinhas lá no fundo da alma.
Enfim, homens e mulheres, indiscutivelmente
sentem! Sentem alegrias e tristezas, sucessos
e frustrações, medos e ousadias,
insegurança e aflição.
Saber expressar isso tudo para um companheiro,
para a companheira é como desnudar-se
de alma perante o outro. É aquela
entrega que, para muitos, supera a intimidade
sexual, pois é a verdadeira intimidade
pessoal, a cumplicidade do espírito
que leva ao encontro e ao crescimento das
pessoas e da relação.
A banalização da exposição
do corpo acabou por tirar aquele ar de mistério,
de descoberta, de investigação
que cerca o espírito humano. Investigar
a alma do outro, da outra, penetrar pelos
seus labirintos secretos das emoções
presentes e passadas, faz ressurgir a essência
da relação humana. Não
ter medo de se expor e apreciar a exposição
do outro! Não se encabular perante
a luz acessa sobre seu coração!
Ser, de fato, Homem é sentir! Sincera,
verdadeira e profundamente!
Eduardo Ferreira-Santos é
Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia
Clínica e Doutor em Ciências
Médicas
Site: www.ferreira-santos.med.br
Para falar com o colunista envie mensagem
para
parouimpar@solteirosesolteiras.com.br
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