Par ou Ímpar
Dr. Eduardo Ferreira
 
 

No limite da frustração

Ao longo do processo de formação de nossa personalidade, desde os primeiros momentos de vida, defrontamo-nos com duas sensações básicas: prazer (satisfação) e desprazer (insatisfação).

A ação natural de um bebê a qualquer privação de suas necessidades básicas (como comer, estar limpo, dormir, silêncio) leva, obviamente à sensação de desprazer generalizado, pois o sistema nervoso, ainda em formação, não é capaz de distinguir a fonte, a origem, deste desconforto, isto é, se o problema é fome, sono, fraldas suja, etc.

Com o desenvolvimento, a criança começa a se reconhecer no mundo por meio da forma como é cuidada, ou não, pela figura principal de sua vida, geralmente a mãe (ou substituta em muitos casos), e por todos aqueles que lhes servem de modelo como numa imagem refletida no espelho.

Durante toda a infância e a adolescência, e mesmo na fase adulta, vai-se incorporando experiências de vida através das quais se agregam valores, conceitos, atitudes até que, por volta dos 40/45 anos de idade a pessoa possa realmente chegar, em geral, ao chamado estado de “individuação”.

Neste momento, o perceber, o sentir, o pensar e o agir podem atingir um grau tamanho de maturidade que possibilite à pessoa um real reconhecimento de si mesma.Estas experiências vividas sejam elas boas ou ruins, alegres ou tristes, satisfatórias ou frustrantes, todas podem (e devem) trazer algo a mais para ser incorporado na personalidade e permitir seu correto e amplo desenvolvimento.

Há quem acredite que as experiências de frustração, de perda, por serem de grande intensidade, são as de melhor valia neste longo processo de aprendizagem. Porém repetidas situações de fracasso acabam por tornar a personalidade frágil, fria, vazia, intolerante e propensa a desenvolver raiva de tudo e de todos os que podem ameaçá-la.

Todos nós considerados psicologicamente normais (embora Caetano Veloso tenha dito, com bastante propriedade, que “de perto, ninguém é normal”) apresentamos uma reação emocional bastante comum perante uma frustração: sentimos raiva, depressão e, depois, reequilibrados, podemos elaborar o resultado da perda e crescemos com ela.

Mas, infelizmente, esse não é um padrão estabelecido para todos. Devido às características genéticas herdadas e à forma como se deram os primeiros anos de vida da pessoa, alguns ficam como que presos nesta fase depressiva pós-frustração e chegam mesmo a desenvolver transtornos psicológicos. Sofrem com as características de depressão, em que se sentem sempre culpadas pelos fracassos.

Podem até mesmo, vir a desenvolver doenças psicossomáticas nas quais angústia e tristeza se manifestam no corpo desde uma “simples” tireoidite até mesmo um câncer devastador.Outras pessoas, por outro lado, eximem-se totalmente de qualquer responsabilidade pela falha, atribuindo-a a fatores externos ou a alguém, e se fixam na raiva, apresentando um comportamento agressivo, violento, de baixa tolerância à frustração.

Enfim, são pessoas que não sabem ouvir um não como resposta e estão sempre prontos para se vingar daqueles que acreditam serem os causadores de sua infelicidade.Portanto, para não ser refém de seu auto-desconhecimento, duas atitudes são absolutamente necessárias: Em primeiro lugar “Conhece-te a ti mesmo”, isto é, tenha clareza suficiente sobre quem você é e quais são seus verdadeiros valores.

Depois, ao conhecer alguém, antes de se atirar cegamente em um relacionamento, procure conhecer o outro, assim como você mesmo se conhece. Tenha cuidado com as possíveis “projeções e transferências”, mecanismos psicológicos que fazem ver no outro aquilo que queremos ou tememos ver, inconscientemente, e não o que realmente é.Muita infelicidade e mesmo tragédias do cotidiano poderiam muito bem ser evitadas se estas observações fossem respeitadas.

Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas

Site: www.ferreira-santos.med.br

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