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Quem paga a conta?
Uma situação bastante interessante tem marcado o modelo de relacionamento dos tempos modernos: quem paga a conta do jantar, da balada ou mesmo do motel? Ambos, ele ou ela?
Era de se esperar que devido ao movimento de liberação feminina, deflagrado há mais de 60 anos, homens e mulheres assumissem com igualdade os direitos e deveres financeiros de uma relação. Mas não é bem assim que se observa na realidade.
Independentemente da real condição financeira dos parceiros, com exceções, é claro, pode-se perceber que há uma distinção de comportamento definida pela faixa etária dos envolvidos.
Existe uma polarização bastante nítida quando se olha com cuidado o que ocorre nestas relações. Enquanto os rapazes mais jovens, na adolescência ou início da fase adulta, não têm nenhum constrangimento em dividir as despesas – seja meio a meio, seja agora paga um, depois paga o outro –, a faixa etária mais velha, aquela em torno dos 50 anos de idade ou mais, ainda mantém a velha postura de que é o homem quem tem o dever moral e social de arcar com as despesas. E isto não se discute, pois reflete o velho machismo ainda vigente.
O mais interessante, entretanto, ocorre na faixa intermediária, aquela em torno dos 30 anos de idade. Nessa faixa, as mulheres até se propõem a dividir a conta ou mesmo pagá-la, caso o parceiro esteja em dificuldades para fazê-lo, mas, no fundo, não escondem certa decepção com a situação.
Na tentativa de apresentar uma postura “politicamente correta”, as mulheres de 30/40 anos apressam-se a “sacar” de seu cartão de crédito ou do talão de cheques para, pelo menos, dividir a conta com o parceiro. Contudo, esperam, secretamente, que ele seja “cavalheiro” o bastante para recusar a oferta e que arque sozinho com as despesas.
Questionadas em relação a essa dissociação entre a atitude e o sentimento, são poucas as que confessam que ainda esperam ser tratadas como “princesas”, mantendo vivo o chamado “Complexo de Cinderela”, no qual a espera pelo príncipe encantado faz parte de crenças estruturais de sua personalidade.
Ainda que em princípio neguem, a decepção com a falta de gentileza ou com a “pobreza” e até com um interpretado “pão-durismo” do parceiro acaba sendo contabilizada em uma “caderneta de crédito e débito emocional”, que será cobrada mais cedo ou mais tarde de várias maneiras. Isto quando a decepção não é suficientemente forte a ponto de fragilizar a relação e abrir caminho para um rompimento.
Esse comportamento tende a se repetir nas relações conjugais, em que as mulheres são totalmente independentes financeiramente. Elas esperaram que, pelo menos, o pagamento da conta de luz, o condomínio, o IPVA e o seguro do carro de seu uso próprio sejam como que uma obrigação do “membro varão”.
E o que revela tudo isto? Mais uma vez, de forma inequívoca, fica evidente que a tal da “revolução sexual” é, ainda, apenas uma idealização, mas que, pouco a pouco, vem se tornando concreta nas atitudes das novas gerações.
Talvez em alguns anos, a verdadeira igualdade de direitos e deveres entre os sexos se torne uma realidade.
Será? Quem viver verá!
Eduardo Ferreira-Santos é Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica e Doutor em Ciências Médicas. Autor dos livros Ciúme - O lado amargo do amor (Ágora) e Casamento - Uma missão quase impossível (Claridade).
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