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No limite da frustração
Ao longo do processo de
formação de nossa personalidade,
desde os primeiros momentos de vida, defrontamo-nos
com duas sensações básicas:
prazer (satisfação) e desprazer
(insatisfação).
A ação natural
de um bebê a qualquer privação
de suas necessidades básicas (como
comer, estar limpo, dormir, silêncio)
leva, obviamente à sensação
de desprazer generalizado, pois o sistema
nervoso, ainda em formação,
não é capaz de distinguir
a fonte, a origem, deste desconforto, isto
é, se o problema é fome, sono,
fraldas suja, etc.
Com o desenvolvimento, a
criança começa a se reconhecer
no mundo por meio da forma como é
cuidada, ou não, pela figura principal
de sua vida, geralmente a mãe (ou
substituta em muitos casos), e por todos
aqueles que lhes servem de modelo como numa
imagem refletida no espelho.
Durante toda a infância
e a adolescência, e mesmo na fase
adulta, vai-se incorporando experiências
de vida através das quais se agregam
valores, conceitos, atitudes até
que, por volta dos 40/45 anos de idade a
pessoa possa realmente chegar, em geral,
ao chamado estado de “individuação”.
Neste momento, o perceber,
o sentir, o pensar e o agir podem atingir
um grau tamanho de maturidade que possibilite
à pessoa um real reconhecimento de
si mesma.Estas experiências vividas
sejam elas boas ou ruins, alegres ou tristes,
satisfatórias ou frustrantes, todas
podem (e devem) trazer algo a mais para
ser incorporado na personalidade e permitir
seu correto e amplo desenvolvimento.
Há quem acredite que
as experiências de frustração,
de perda, por serem de grande intensidade,
são as de melhor valia neste longo
processo de aprendizagem. Porém repetidas
situações de fracasso acabam
por tornar a personalidade frágil,
fria, vazia, intolerante e propensa a desenvolver
raiva de tudo e de todos os que podem ameaçá-la.
Todos nós considerados
psicologicamente normais (embora Caetano
Veloso tenha dito, com bastante propriedade,
que “de perto, ninguém é
normal”) apresentamos uma reação
emocional bastante comum perante uma frustração:
sentimos raiva, depressão e, depois,
reequilibrados, podemos elaborar o resultado
da perda e crescemos com ela.
Mas, infelizmente, esse não
é um padrão estabelecido para
todos. Devido às características
genéticas herdadas e à forma
como se deram os primeiros anos de vida
da pessoa, alguns ficam como que presos
nesta fase depressiva pós-frustração
e chegam mesmo a desenvolver transtornos
psicológicos. Sofrem com as características
de depressão, em que se sentem sempre
culpadas pelos fracassos.
Podem até mesmo,
vir a desenvolver doenças psicossomáticas
nas quais angústia e tristeza se
manifestam no corpo desde uma “simples”
tireoidite até mesmo um câncer
devastador.Outras pessoas, por outro lado,
eximem-se totalmente de qualquer responsabilidade
pela falha, atribuindo-a a fatores externos
ou a alguém, e se fixam na raiva,
apresentando um comportamento agressivo,
violento, de baixa tolerância à
frustração.
Enfim, são pessoas
que não sabem ouvir um não
como resposta e estão sempre prontos
para se vingar daqueles que acreditam serem
os causadores de sua infelicidade.Portanto,
para não ser refém de seu
auto-desconhecimento, duas atitudes são
absolutamente necessárias: Em primeiro
lugar “Conhece-te a ti mesmo”,
isto é, tenha clareza suficiente
sobre quem você é e quais são
seus verdadeiros valores.
Depois, ao conhecer alguém,
antes de se atirar cegamente em um relacionamento,
procure conhecer o outro, assim como você
mesmo se conhece. Tenha cuidado com as possíveis
“projeções e transferências”,
mecanismos psicológicos que fazem
ver no outro aquilo que queremos ou tememos
ver, inconscientemente, e não o que
realmente é.Muita infelicidade e
mesmo tragédias do cotidiano poderiam
muito bem ser evitadas se estas observações
fossem respeitadas.
Eduardo Ferreira-Santos é
Psiquiatra e Psicoterapeuta, Mestre em Psicologia
Clínica e Doutor em Ciências
Médicas
Site: www.ferreira-santos.med.br
Para falar com o colunista envie mensagem
para
parouimpar@solteirosesolteiras.com.br
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