Refém do próprio instinto


O que significa compulsão sexual? Existe um padrão correto para expressar a sexualidade? Até que ponto a perda do controle do próprio instinto é prejudicial? A psicóloga especialista em sexualidade humana, Ana Paula Veiga, responde a essa e outras perguntas sobre o tema.

Solteiros e Solteiras – Quais são as principais características de um compulsivo sexual?

Ana Paula - Os padrões de promiscuidade são variados. Podem envolver vários parceiros, estarem relacionados ao exibicionismo ou voyerismo, além de masturbação compulsiva e vontade compulsiva de sedução amorosa ou dependência extrema de uma ou várias pessoas. Normalmente, uma pessoa relata uma ou duas áreas principais de 'atuação da compulsão', mas pode envolver tudo o que foi mencionado. Tal padrão leva a um desmoronamento da vida profissional e familiar e do significado de amor próprio.

SS - Como funcionam as terapias? Quais os aspectos trabalhados?

Ana Paula - Os aspectos trabalhados baseiam-se na conquista do respeito pela autonomia e no entendimento do sofrimento relacionado a tal comportamento. A compulsão sexual revela uma perda do controle da própria sexualidade. A pessoa se encontra refém dos seus instintos. Esquece-se significados de palavras como amor, respeito e cuidado. Por conta disso, quando a pessoa chega ao consultório do profissional, muitas vezes sua auto-estima está muito baixa (normalmente, essas pessoas se consideram pervertidas e/ou fracas). A perda do controle do próprio comportamento, considerado por alguns até mesmo como destrutivo, provoca conseqüências negativas que pioram com o tempo caso uma ajuda não for procurada o quanto antes.

SS – Existe cura para esse tipo de compulsão?

Ana Paula - Não sei se podemos falar em cura, mas podemos deter a compulsão. A pessoa pode aprender novas formas de se relacionar consigo e com o meio. A idéia é estimular a busca de um espaço onde ela reconheça a importância de desenvolver uma sexualidade saudável e a dignidade pessoal, gerando relacionamentos de satisfação.

SS - Existe padrão correto para expressar a sexualidade?

Ana Paula - O correto sempre é muito relativo. O pensamento do que é correto envolve aspectos sociais. Quando se trata de sexualidade pensamos que o correto é aquele que não inflige nem um dos parceiros. Porém nossa sociedade é rodeada de tabus e preconceitos relacionados à sexualidade que podam mais do que libertam os seres humanos de desfrutar plenamente a sexualidade saudável. Além de tudo isso, ainda há muita informação errada a respeito da sexualidade que levam aos conflitos, confusões e pré-julgamentos. Podemos dizer que não existe padrão “correto”, mas existem vários padrões. Ainda assim, algumas pessoas agem de acordo com padrões, sim. Por exemplo, um cara que sai pra paquerar e passa a agir num "modus operandi", sempre igual, como se fosse um método correto e seguro, transforma-se num padrão. Mesmo existindo outras formas, ele se 'especializou' em determinado padrão sem nem se dar conta do que acontece com ele ou ter a percepção de que pode agir de forma diferente.

SS - Até que ponto a compulsão é saudável?

Ana Paula – A compulsão em si já não retrata algo que possa ser considerado como saudável. Compulsão é perda do controle. Sexualidade saudável é aquela que não gera prejuízo para si ou para o outro.

SS – É comum as pessoas não se acharem "normais" por sentirem alguns desejos sexuais que acham que não deveriam existir. Qual orientação nestes casos?

Ana Paula - Eu diria que essas pessoas têm duas opções: ou assumem esses desejos e passam a encará-los de maneira consciente e normal (para elas próprias) ou então rejeitem esses desejos (ou ao menos se esforçam pra isso). Quando eu falo de encarar o desejo de maneira consciente, estou dizendo sobre olhar para essa questão de uma forma singular: "Eu gosto disso assim, mas existem pessoas que não curtem e tal". Só que aí, me pergunto: “Se eu sinto é porque existe?”. Percebo isso na minha prática clínica: são muitas as pessoas que acreditam que tem algum sentimento relacionado à sexualidade que só elas têm. E quando são ouvidas, acolhidas, entendidas e não criticadas (como elas próprias, muitas vezes, fazem consigo) admitem uma estrutura diferente e menos 'anormal' para si próprio.

SS - Sentimentos de culpa, desconforto e angústia. Isto é comum?

Ana Paula - Sim. E a sociedade colabora muito para isso. O sexo é muito falado, comentado, estigmatizado, dissecado, problematizado. O sexo, algo que podia fluir normalmente, é vigiado por pessoas e instituições. Por isso que costumo dizer que quando se vai para a cama com um parceiro, estão presentes bem mais do que duas pessoas. Leva-se junto toda a educação recebida com os pais, com a escola, com a família, toda a experiência 'acumulada'. Além disso, as pessoas acabam associando a sexualidade a outros aspectos da vida humana, como as religiosidades, por exemplo. A grande questão são os julgamentos que podem vir de si, do parceiro, da sociedade. As cobranças controlam a sexualidade.

SS - As pessoas resistem muito antes de procurarem a ajuda de um profissional?


Ana Paula - Muitas pessoas sim. Percebo na minha prática clínica que quando uma pessoa resolve procurar pela ajuda de um profissional especializado ela está altamente motivada, sedenta de mudança. Outras, não menos motivadas, se sentem amedrontadas com tal possibilidade. Estão acostumadas com um ambiente onde há muita hipocrisia, pouco espaço para colocar a sexualidade de forma aberta e sem julgamentos.

Ana Paula Veiga
Terapeuta sexual
CRP 05/ 28.440
www.sobrepsicologia.com



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