Tristeza que não tem fim

Segundo um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças emocionais são responsáveis por cinco das dez principais causas de afastamento do trabalho no país - sendo a primeira delas, a depressão. Muitos demoram a procurar o acompanhamento de um profissional, convivendo com os sintomas durante longo tempo. Solteiros e Solteiras conversou com a psicóloga Iara Brandão para saber quais os principais sintomas e tratamentos da depressão. A profissional revela que o sentimento de insatisfação afetiva que caracteriza muitos solteiros é um dos fatores que podem desencadear a doença.

SS – Quais são as principais causas da depressão?

IB – As causas variam muito. Pode ser uma insatisfação amorosa, um casamento malsucedido ou uma decepção muito grande, como uma traição, por exemplo. Dificuldades no mercado de trabalho, o não-reconhecimento da qualificação profissional, a perda de alguém muito querido. As causas podem ser muitas, mas todas essas, normalmente, são apenas um fator para “cair” na depressão. Mas os fatores principais estão atrelados à infância e adolescência do indivíduo. E isso só poderá ser trabalhado na terapia psicológica.

SS - Quais são os principais sintomas?

IB - Sentimentos de tristeza e vazio. Muita insônia ou excesso de sono – a pessoa dorme muito como mecanismo de fuga – ou, simplesmente, não dorme. São sempre extremos. Come demais, depositando na comida toda ansiedade e insatisfação, como forma de tentar preencher algum vazio com a comida – de forma inconsciente, claro. Perda de energia ou interesse, humor deprimido, dificuldade de concentração e lentidão nas atividades físicas e mentais. Outros sintomas são: pessimismo, dificuldade de tomar decisões, dificuldade para começar a fazer suas tarefas, irritabilidade ou impaciência, inquietação, desejo de morrer, chorar à toa, dificuldade de terminar atividades já iniciadas, sentimento de pena de si mesmo, persistência de pensamentos negativos, queixas freqüentes, sentimentos de culpa injustificáveis, boca ressecada e perda do desejo sexual.

SS – Como é possível identificar a doença?

IB – Através das alterações no comportamento, nas conversas e nas variações de humor. A pessoa com depressão não tem muito ânimo para realizar as suas tarefas, fica mais lenta e chora com mais facilidade. O semblante muitas vezes revela tudo. Gostaria de ressaltar que a depressão se manifesta muitas vezes através de síndromes associadas, como a síndrome do pânico, por exemplo. A síndrome do pânico é um quadro depressivo manifestado através do medo. Cada caso deve ser analisado e diagnosticado pelos profissionais da área – o psicólogo e/ou o psiquiatra.

SS – Em pessoas solteiras, como se caracteriza normalmente?

IB - Geralmente as pessoas chegam ao consultório com queixa de insatisfação. Essa insatisfação pode ser profissional, amorosa, afetiva ou familiar. A insatisfação afetiva, presente em homens e mulheres que não encontraram sua cara-metade, interfere na auto-estima. Com a auto-estima baixa, eles passam a se achar desinteressantes, não ter vaidade, vontade de se cuidar e se vestir bem. Passa a achar que não têm uma boa conversa para paquerar. Tudo isso desencadeia sentimentos de vazio, que caracteriza um quadro de depressão.

SS – Como a depressão pode interferir na vida de solteiros e solteiras, especialmente, no momento da paquera?

IB – Com o sentimento de que “ninguém vai se interessar por mim”, o solteiro acaba se fechando para essa vida social, onde o mundo da paquera acontece, não deixando que o outro se aproxime. Consequentemente, a doença dificulta sua socialização de um modo geral.

SS – Qual o tratamento adequado?

IB – A terapia psicológica é sempre o primeiro passo para o tratamento da depressão. Quando o tratamento é iniciado logo no início de sua manifestação, facilita a cura mais rápida. Mas, normalmente, as pessoas costumam demorar a procurar ajuda, por vários motivos, entre eles, rejeição à doença, achar que é uma “tristeza passageira” etc. Em alguns casos há a necessidade de um tratamento medicamentoso realizado através do médico psiquiatra, que irá acompanhar o processo de cura juntamente ao psicólogo. Ressaltando que fazer apenas o tratamento medicamentoso não é o bastante para a cura. Os medicamentos tiram os sintomas da depressão, porém, as questões que causaram a doença permanecem lá atrás, na vida do indivíduo, precisando ser trabalhado na terapia.

SS – No caso dos solteiros, me parece que esse quadro é uma barreira para novas conquistas. Nesse caso, qual o melhor tratamento?

IB – Sessões de terapias associadas à alguma atividade física, por exemplo, ioga, caminhadas, aulas de dança... atividades que despertem prazer e estimulem a socialização do indivíduo depressivo.

SS – É possível que a doença evolua para um quadro mais grave? Como é possível identificar isso?

IB – É possível sim. Quando não há um acompanhamento adequado ou uma falta de interesse por parte do indivíduo depressivo, os sintomas evoluem com o tempo. A vida vai ficando cada vez mais limitada e vai-se convivendo com o sentimento de tristeza profunda, o que não é nada saudável. Normalmente, começam a surgir algumas doenças consideradas psicossomáticas associadas à depressão. São elas: gastrite, úlcera, problemas de pele, como o vitiligo e a psoríase, e, até o câncer.

SS – Como os amigos podem ajudar diante deste quadro depressivo?

IB – Os amigos devem estar presentes, sempre, seja convidando para sair ou estimulando e incentivando a vida social do depressivo. Ausentar-se, achando que é melhor dar “um tempo” para o amigo se recuperar, não é a melhor forma de ajudar. Tem que comparecer mesmo.

SS – E a família, como poderá ajudar?

IB - A presença da família é fundamental no processo de recuperação - deverá estar sempre junto, fazendo com que a pessoa se sinta amada, querida e que sua companhia é agradável. Não deixá-lo nunca sozinho. Colocá-la sempre para cima, estimulando sua auto-estima.

SS – Existem pesquisas que comprovam que algumas pessoas desenvolvem problemas cardíacos após um quadro de depressão. Isso realmente ocorre?

IB - Algumas pessoas com problema cardíaco desenvolvem o quadro de depressão. Muitas vezes, assustados com a gravidade do problema, da luta para enfrentar a doença, surge a depressão. O paciente fica desanimado, com pensamentos negativos. É importante neste caso um acompanhamento paralelo focado na depressão.

SS - E entre pessoas solteiras, o que mais estimula a doença?

IB – Sem dúvida que a solidão. O medo de ficar só, não construir uma família, ficar para “titia”. Esse medo persegue muitas pessoas que estão solteiras há muito tempo. E, a medida que esse tempo vai passando, esse sentimento de solidão vai ganhando outras proporções, podendo chegar, muitas vezes, a um quadro depressivo.




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