“Os casamentos exclusivos estão perto do fim”

O fim do amor romântico, a busca pela individualidade, a solteirice anunciada. Esta é a previsão da sexóloga Regina Navarro Lins para as próximas décadas. Numa entrevista polêmica para o site Solteiros e Solteiras, a autora dos recém-lançados “A Cama na Varanda” e “Fidelidade obrigatória e outras deslealdades” - ambos pela editora Best Seller -, avisou que os casamentos fechados, exclusivos, estão perto do fim.
Regina deu um panorama dos novos solteiros no Brasil e afirmou a importância de o sexo ser encarado apenas como fonte prazer. Para ela, sexo e amor não se misturam.
Preconizadora da liberdade absoluta, em entrevista, a sexóloga Regina Navarro Lins traça um panorama dos novos solteiros no Brasil e afirma a importância de o sexo ser encarado apenas como fonte prazer. Regina criticou modelos engessados de relacionamentos e afirmou: “Sexo e amor não se misturam.”

Solteiros e Solteiras - Você tem percebido alguma variação no perfil comportamental dos brasileiros solteiros?

Regina Navarro Lins - Acabei de relançar “A Cama na Varanda” com uma parte nova que se chama “O Futuro se Anuncia”. Uma das coisas mais interessantes é que vamos assistir a uma inédita sociedade de solteiros. O amor romântico, que todo mundo quer viver, o amor das novelas, é calcado na idealização. Você encontra uma pessoa, atribui a ela as características que você quer, idealiza, se casa e passa o resto da vida tentando mudá-la porque acha que ela te enganou. Mas ela não te enganou. Você é que não enxergou.
Este tipo de amor está saindo de cena. Estamos vivendo uma busca da individualidade. É isso que caracteriza a nossa época. O amor romântico está deixando de ser sedutor. Um número menor de pessoas vai querer se fechar numa relação a dois. Isso pode não acontecer no verão que vem. Pode ser daqui a cinco, dez, vinte anos.

SS – No futuro, as pessoas vão preferir ficar sozinhas?

RNL - As pessoas estão começando a entender que estar sozinho não significa solidão. Todo mundo pode viver muito bem sozinho. A coisa mais importante é desenvolver a capacidade de ficar bem sozinho. As pessoas deveriam lutar para isso. Nossa cultura prega que temos que encontrar nossa alma gêmea, encontrar um par, alguém que nos complete. Desde pequenas, as crianças escutam que um dia elas têm que casar. Eu acho que deveria ser o contrário: as pessoas têm que descobrir suas singularidades, o que elas gostam, desenvolver todo seu potencial sozinhas. Durante muito tempo a nossa cultura condicionou as pessoas a acharem que, para serem felizes, têm que ter um par. Principalmente as mulheres, que buscam alguém para protegê-las.
Está na hora de as pessoas se livrarem disso. Uma relação amorosa acontece, mas ninguém pode ficar procurando por isso desesperadamente.
Mas percebo que cada vez aumenta mais o grupo de pessoas que querem viver sozinhas. Que não acham fundamental na vida ter uma relação amorosa.


SS - As pessoas ainda confundem estar sozinho com solidão?

RNL - Sim, confundem, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Eu fiz reunião de grupo com mulheres que se sentiam sozinhas. Das dez, oito eram casadas. As solteiras reclamavam que queriam parceiros, mas, no final de semana, estavam sempre indo às festas. As casadas quase não saem de casa e são as mais solitárias. É comum, numa relação de casamento de muitos anos, as pessoas se sentirem solitárias, mal conversarem.
Quem tem amigos, com quem é possível discutir questões existenciais, dar apoio, trocar, não se sente sozinho jamais. Agora, ter uma relação amorosa é coisa que acontece naturalmente. A pessoa não pode se desvalorizar por isso, se diminuir, se tachar de coitada. É mais fácil encontrar uma relação satisfatória quando você não está procurando. Quando você está procurando, corre o risco de inventar a pessoa. Acaba ficando com alguém que não tem nada a ver com você e finge que ela preenche tudo que você quer. Depois, passa a vida reclamando.

SS – Isso quer dizer que o sexo sem compromisso cada vez mais será encarado com naturalidade? Isso já vêm sendo percebido ou ainda existe algum conflito?

RNL - As mulheres ainda têm problemas com isso. Foram cinco mil anos de condicionamento patriarcal, mas elas já começam a se liberar e a fazer o sexo pelo prazer do sexo. Aliás, o objetivo dele é unicamente dar prazer. Sexo é uma troca afetiva, emocional, ter prazer no corpo. As pessoas caminham para isso, sem atribuir ao sexo um monte de coisas que não dizem respeito a ele. Há quem diga: “Não vou transar hoje porque senão ele não vai me ligar no dia seguinte e vai achar que eu sou fácil.” Isso é atribuir ao sexo coisas que não dizem respeito a ele. Sexo é só prazer. Tem gente que não transa com amigo para não estragar a amizade. Isso é uma bobagem. Se você faz sexo buscando prazer, não tem porque estragar a amizade. O que pode estragar a amizade é a expectativa que você cria a partir daquilo. Se vai ligar, se vai namorar, etc. Agora, se você for buscar no sexo apenas prazer, não acaba amizade nenhuma.

SS- Qual é a maior dor e a maior delícia de ser sozinho?

RNL - Dor não existe se você lida bem com isso, sem preconceitos. Se você não alimentar em você uma imagem de “coitadinho”, se tem amigos, projetos pessoais e liberdade sexual. Se não for aquela pessoa que acha que só pode transar se estiver namorando. Nossa cultura também não valoriza a amizade e isso é uma coisa muito importante. Quem tem amigos nunca está sozinho.
A dor só existe se a pessoa acha que precisa ter alguém do lado para ser valorizado. A principal vantagem é ser livre para fazer o que quiser a qualquer momento. Eu acho que as relações amorosas podem ser boas, mas é raro. As pessoas lançam expectativas no outro, que nunca se cumprem, e acabam se frustrando.

SS - A cobrança social pelo parceiro fixo ainda pesa muito?

RNL - Pesa para quem deixa pesar. É muito importante que ninguém acredite nas coisas que são impostas. Temos que refletir em vez de repetirmos o que ouvimos. Mesmo que você viva numa sociedade que determina que é preciso ter alguém ao lado, hoje, nós vivemos um momento especial. Não temos mais modelos para se apoiar [referindo-se ao modelo familiar tradicional]. O novo assusta, mas é uma grande vantagem. Sem modelos, cada um escolhe sua forma de viver. Essa cobrança deve ser ignorada. Ser livre é não ficar preso a modelos e nem tentar corresponder às expectativas moralistas da sociedade. Cada um deve fazer o que tem vontade, desde que isso não seja prejudicial nem a si nem ao outro.
O psicanalista inglês Donald Woods Winnicott diz que ser saudável é ser espontâneo sem ser anti-social. Estar em sintonia com o que está dentro de você e, ao mesmo tempo, saber conviver com as pessoas.

SS - Uma pesquisa da FGV divulgou, em junho deste ano, que quanto mais as mulheres estudam, menos chances têm de casar. Você acha que isso reflete um comportamento machista? Ou as mulheres que ficaram mais exigentes com seus parceiros?

RNL - Não concordo com este dado. Acho que as mulheres estudam e ficam num nível de igualdade com os homens e podem trocar muito mais. A fronteira entre o masculino e o feminino está se dissolvendo e isso é muito bom. Não existe mais nada que seja só de homens ou só de mulheres. Isso é uma pré-condição para uma sociedade de parceria. Não é problema.

Ainda tem gente que diz que homens não gostam de mulheres independentes. Isso não existe. O homem talvez tema ainda a mulher autônoma, que não tem nada a ver com a mulher independente financeiramente.

Eles podem temer a mulher que se libertou daquele padrão de comportamento definido: mulher tem que ser frágil, difícil, não pode transar no primeiro dia, tem que fingir que não gosta de sexo e corresponder as expectativas do homem em tudo.

A mulher que se libertou disso - que eu chamo de mulher autônoma - é muito mais espontânea e não está presa aquele “modelinho”. Talvez os homens temam estas mulheres. Agora, os que já se libertaram do mito da masculinidade - de que têm que ter força, sucesso, ousadia, conquistar todas as mulheres, o famoso machão - não têm problemas com este tipo de mulher.

Eles não temem as que ganham dinheiro, mas as autônomas. Tem muitas que são donas de empresas, executivas, mas são umas bobas. Amorosamente são regredidas e se mostram submissas na relação amorosa.

SS - E quando o relógio biológico das mulheres diz que é a hora de ter um filho? A maternidade sem vínculo matrimonial com o parceiro é encarada com naturalidade.

RNL - Vai depender se a mulher realmente quer ter um filho. Se ela quer mesmo, tem condições de educar e criar uma criança, tudo bem. Mas será que ela quer mesmo? Este desejo precisa ser avaliado. O condicionamento cultural diz que as mulheres têm que ter filhos. Mas essa obrigatoriedade não existe. Se você não tem um namorado, se não está se relacionando com ninguém, você não pode inventar um marido. É melhor escolher um amigo ou ter filho sozinha, nenhum problema nisso. Depende da vontade de cada um.



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