Casamento: uma missão impossível?


Encontrar um amor para a vida inteira, compartilhando uma vida a dois que as faça bem é o sonho da maioria das pessoas.Não foi à toa que cerca de 900 mil casais – 6,5% a mais que em 2006 - subiram ao altar no ano passado. Mas o fato é que, no mesmo período, 162 mil uniões foram desfeitas – um aumento de 7,7% em relação ao ano anterior, segundo o IBGE. Para entender porque tantos casamentos não dão certo, o Solteiros e Solteiras conversou com o Dr. Eduardo Ferreira-Santos, autor do livro Casamento – uma missão (quase) impossível.

Solteiros e Solteiras – Por que falar sobre casamento?

Eduardo - Com 30 anos de experiência em psicoterapia individual e de casal, pude notar que as principais queixas trazidas por meus pacientes diziam respeito à suas relações afetivas, principalmente o casamento.

Nos últimos seis anos, trabelhei como médico e supervisor no Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, trabalhando exclusivamente com vítimas de seqüestro - tanto relâmpago quanto cativeiro. Também notei que, em muitos casos, em meio ao processo terapêutico para trabalhar a vivência de seqüestrado, surgiam espontaneamente queixas relacionadas ao casamento e relações afetivas, nas quais o paciente se sentia um verdadeiro "seqüestrado emocional" pelo próprio parceiro.

SS – Qual a proposta do livro?

Eduardo - Proponho em meu livro que os pretendentes façam um “contrato de relacionamento” antes de iniciar esta árdua tarefa do matrimônio. Contrato este em que devem ficar bem claras - sem subtextos, nem "cláusulas leoninas” - o que, de fato, cada parceiro espera do outro. Acredito que, se assim fosse feito - na verdadeira transparência -, muitas relações não chegariam ao "altar" e poupariam muita gente de um sofrimento maior a posteriori.

SS - Existe alguma fórmula ideal para manter o relacionamento? Qual o segredo para vivê-lo de forma saudável?

Eduardo- De uma forma bem simplista, eu diria que "tudo começa no começo". Vejo, nos dias de hoje, que as pessoas encaram com muita levianidade o compromisso de uma relação a dois e, pior ainda, quando se forma uma família com filhos e agregados. Namorar é muito bom, mas a vida de casado vai muito além e as pessoas não percebem muito bem o que isso significa. Costumo dizer que o pré-requisito para a reflexão do sucesso no casamento é a individualidade de cada integrante da relação. Manter uma vida própria sem acreditar que o outro seja a salvação é um grande passo para aqueles que acreditam que, depois do casamento, serão “felizes para sempre”. Através da satisfação pessoal, seja com a auto-estima, com o trabalho ou com a vida social, se torna mais fácil construir uma relação – já que os seus anseios e angústias não serão motivos de brigas ou discussões desnecessárias.

SS – O ciúme é um fator determinante para o desgaste das relações?

Eduardo – Costumo definir o ciúme como um sentimento egoísta. E não é prova de amor, é prova de posse. É importante sabermos diferenciar o ciúme do zelo pelo parceiro (a). Zelar, ter cuidados, alertar para determinadas roupas, é diferente da imposição do ciúme. Então, muitas vezes, esse sentimento acaba acarretando um desgaste da relação onde o ciúme está agindo, sempre presente.


SS – Você atende muitas pessoas descrentes de ter uma relação duradoura e harmoniosa?

Eduardo - Sim. Vejo muita gente desiludida, frustrada, angustiada, muitas vezes vivendo relacionamentos horrorosos por pura dependência econômica ou emocional.

SS - Como o senhor avalia as perspectivas e as posturas dos solteiros em relação ao casamento?

Eduardo – De modo geral, ocorre uma situação interessante em relação ao casamento: os que estão fora querem entrar e os que estão dentro querem sair. Parece que as pessoas não sabem muito bem lidar nem com sua solitude – e não solidão -, muito menos com o compartilhamento de suas vidas com um outro. Há certo "egoísmo" reinando no comportamento atual, onde cada um quer a sua própria satisfação e acredita que um outro poderá trazê-la através do casamento. É a concretização daquele mito da "metade da laranja", em que cada pessoa sente-se apenas uma metade de ser e precisa da outra metade para se completar. Isso não existe.

Um verdadeiro relacionamento, a meu ver, só é possível quando duas pessoas inteiras entram em relação e podem trocar suas experiências e compartilhar suas diferenças, aprendendo cada um com o outro a se tornar cada vez mais pessoa, mais dono de si mesmo.

SS – Esse “falso mito” da metade da laranja explica o aumento do número de divórcios?

Eduardo - O número de divórcios é alto, mas o de casamentos (e recasamentos) também. Baseado na minha experiência profissional, acho que as pessoas estão muito perdidas, embora se comportem como se fossem "donas da verdade". Continuamente, observo pessoas se contradizendo em suas opiniões e atos, principalmente dizendo uma coisa e fazendo outra, e também mudando de opinião sem se darem conta disso, influenciadas por inúmeros fatores, mas principalmente, pela conveniência, vale ressaltar. E ainda vejo que os casamentos, cada vez mais, se realizam por conveniências emocionais. Em outras palavras, as pessoas saem da “zona de conforto” da casa dos pais por uma ilusão de ter a sua própria casa, sem perceberem que podem “estar saindo da frigideira para cair no fogo".

SS – Qual a mensagem que gostaria de deixar para os solteiros e solteiras que sonham com o casamento?

Eduardo - Não se adapte à relação. Procure um parceiro adequado para você.

Dr. Eduardo Ferreira-Santos é psiquiatra e psicoterapeuta, mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, doutor em ciências médicas pela FM-USP e autor dos livros Espelho Vivo, Psicoterapia Breve e Ciúme, o lado amargo do amor.
www.ferreira-santos.med.br



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