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Para
a doutora em Antropologia Social Mirian
Goldenberg , o corpo assumiu, hoje,
um lugar essencial nas relações
afetivas. Autora do livro O Corpo como Capital:
estudos sobre gênero, sexualidade
e moda na cultura brasileira, Mirian ainda
acredita na fidelidade e revela que o carioca
tem medo de envelhecer sozinho.
Segundo
ela, hoje, os solteiros com mais de 35 anos
têm tudo para “viver a liberdade
afetiva e sexual, mas continuam acreditando
no amor romântico.” A antropóloga
é também autora dos livros
Toda Mulher é Meio Leila Diniz; A
Outra; Infiel; De Perto Ninguém é
Normal; A Arte de Pesquisar; Os Novos Desejos;
e Nu e Vestido.
Solteiros e Solteiras - Como você
analisa a forma como o carioca se relaciona
com seu corpo?
Mirian Goldenberg - Para
o carioca, o corpo está no centro
de sua estratégia de se apresentar
no mundo social. O corpo magro, definido,
jovem é um verdadeiro valor para
as camadas médias cariocas e também
um veículo de prestígio e
status para as outras camadas. Determinado
modelo de corpo tornou-se um verdadeiro
capital.
SS - Há diferenças
na forma como o solteiro e o casado se vêem?
MG - Talvez, mas não
muito, pois é lógico que para
os solteiros o corpo é um capital
ainda mais importante no mercado afetivo-sexual.
Mas acredito que a preocupação
com o corpo atinge todos, especialmente
as mulheres.
SS - Qual sua percepção
do(a) solteiro(a) acima de 35 anos?
MG - De um lado, pode
viver a liberdade afetiva e sexual como
nunca. De outro, continua acreditando no
amor romântico e buscando ser feliz.
SS - O carioca tem um medo excessivo
de envelhecer? Por quê?
MG - Tem, exatamente
porque investe tanto no corpo que esquece
de alimentar e investir em outros capitais.
Para o carioca, envelhecer é uma
perda (de capital), e não o ganho
de outros capitais (sabedoria, maturidade,
tranqüilidade, inteligência,
conhecimento etc).
SS - O medo de envelhecer sozinho
é uma realidade? Por quê?
MG - Sim, porque no Brasil
não se investe na autonomia e também
na proteção que o Estado pode
dar igualmente a todos os cidadãos.
Aqui precisamos da família, do marido,
dos filhos para nos amparar na velhice e
a solidão é um fantasma que
assusta a todos nós.
SS - Um dos capítulos do
livro discute os sentidos dados por homens
e mulheres à cor do cabelo. O senso
comum diz que o grisalho assusta os homens
e atrai as mulheres. Isso se confirmou nas
pesquisas?
MG – Sim, porque
o grisalho para o homem pode significar
poder, maturidade, sabedoria, conhecimento,
experiência. Enquanto que, para a
mulher, simboliza decadência física
e exclusão do mercado afetivo-sexual.
SS - Outro livro de sua autoria,
Infiel, tem como tema a infidelidade. A
fidelidade ainda é um quesito levado
em conta nos relacionamentos mais sérios?
MG - É mais importante
hoje do que antigamente. Os casais valorizam
a fidelidade, a confiança, a segurança.
Não encontro casais abertos em que
a infidelidade é aceita.
SS - E o que é considerado
infidelidade? As relações
que envolvem só sexo ou aquelas em
que há amor?
MG - Depende dos casais.
Para a maioria, quando envolve sexo. Mas
todos querem se sentir únicos, especiais.
Assim, a infidelidade só o abalar
o casamento.
SS - Como reagem os traídos
quando descobrem a traição?
MG - A maior parte dos
meus pesquisados se separou.
SS - E os infiéis, como
reagem quando são descobertos?
MG - Depende. Muitos
só estavam aguardando a oportunidade
para se separar. Outros se arrependem para
o resto de suas vidas por ter tido um ato
inconseqüente que destruiu um grande
amor ou amizade.
SS - Você acredita que há
pessoas incapazes de serem fiéis?
MG - Lógico, especialmente
aqueles homens que acreditam que existe
uma "natureza" poligâmica.
SS - É possível que
isso incentive a solteirice?
MG - Não acredito.
As pessoas acabam desejando ter um parceiro,
mesmo que não dure para sempre.
SS - E há aqueles incapazes
de serem infiéis?
MG - Acredito. É
uma escolha. E hoje muitos escolhem valorizar
o parceiro escolhido e não entrar
em aventuras que podem destruir uma relação
muito desejada.
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